sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Ingrata

- Sempre fui boa. Não entendo por quê o mundo é tão cruel comigo. Fui boa filha, boa esposa, boa mãe, e as pessoas foram tão más, tão ingratas. Me apelidaram até de chatinha. Meus filhos homens só pensam nos próprios umbigos. Casaram-se com aquelas moças esnobes que sempre torceram o nariz para mim. Não tenha filhos homens, eles não cuidam da gente. Minhas filhas também não serviram para nada. A Diana não foi nem ao enterro do pai. Desde jovem era uma Messalina no cio. Foi amaldiçoada com o dom da beleza. Espíritos obssessores passaram a rodeá-la ainda menina. Quando chegou a mocidade foi tomada pela pomba gira. Homem algum conseguia resistir aos seus encantos. Até a minha Santinha, a quem dediquei todo o meu amor, me abandonou. De uma hora para outra deu para gostar de homem e se casou com aquilo que você viu agora há pouco, me deixando sozinha. Graças ao bom Deus casei com o meu marido. Não vi homem mais ruim. Depois de velho, me abandonou. Como eu sou muito boa, mesmo assim fui visitá-lo no leito de morte. Me olhou assustado e, com um último esforço, já que não podia falar, me ergueu o dedo. Até hoje não sei por quê ele foi embora. Por um somenos saiu de casa. Mesmo assim, isso foi bom. Paguei todos os meus pecados, resgatei todas as minhas dívidas e na próxima vida vou renascer em um planeta mais evoluído, rodeada de espíritos de luz. Deus que me perdoe por dizer essas palavras, mas meu fim está perto e preciso desabafar. Sabe, na minha religião não nos confessamos, e sinto uma vontade de falar.

- Acho que não estou adequadamente vestida. Ao vê-la tão elegante em seu vestido de gala e rodeada por margaridas, acho que minha jaqueta tigrada não está muito bem. Como ela fica serena assim dormindo. Parece tão doce. Pena que já esteja amarelada. É melhor fechar o caixão antes que comece a feder. Você me leva em casa rapidamente para trocar de roupa? Ah, agora sim. Ficou muito melhor. Essa jaqueta é chiquérrima. Toda em “patchwork” da mais pura seda. Ganhei de um alemão lindo na Europa. Que homem. Ainda bem que a Santinha ainda não chegou. Não queria que ela me visse mal vestida. Ela sempre teve uma inveja doentia de mim. A coitada sempre foi feia, e por isso a preferida da mamãe. Eram a imagem e semelhança uma da outra. Mulher feia é um perigo. Dizem que casou virgem aos 40 anos. Bem feito. Eu, eu sempre fui linda. Casei com um homem que me cobriu de jóias e vestidos. Me deu até um Porsche. Mesmo depois de separados continuamos amigos. No último Natal, me presenteou com um cruzeiro pelo Caribe. Ela e a mamãe nunca agüentaram a minha beleza, o meu sucesso. Sempre foram feias e invejosas. Minha beleza tem sido um fardo na minha vida. Todas as mulheres me odeiam. Em compensação, os homens me adoram. Há alguns anos comecei a contar e já eram mais de 200. Depois, parei de contar.

- Você viu a Diana? Até que ela está bem. Continua bonita, o tempo não passa para ela. Impressionante. Agora está ruiva. Da última vez que a vi não a reconheci. Quando aquela loira entrou na festa e veio em minha direção cheguei a soltar um uau. Somente quando ela falou comigo é que eu vi que era nossa querida maninha. Está falando com a tua filha já faz tempo. Não acho uma boa influência para a menina. Se eu fosse você iria até lá e dava um jeito de afastá-las. Não foi uma boa filha. A mamãe se referia a ela como a “Ingrata” e a Santinha a detesta.

- Minha filha, há tantos anos que não lhe vejo. Acho que a última vez foi no velório da mamãe. Seu pai não me dá mínima e nunca fui próxima das minhas cunhadas. Mas você é tão linda, se parece tanto comigo. Eu também era assim. Mas não fique triste. Isso tudo passa. Ninguém merece nosso sofrimento. O que o teu pai fez é normal. Ele sempre foi um estúpido. Eu sim sofri. Muito mais do que você e estou aqui bem forte. Quando era mocinha meu pai começou a me tocar. A primeira vez foi durante o jantar. Senti sua mão sob a saia escolar subindo em direção da calcinha. Fiquei tão nervosa que não soube o que fazer. Congelei. Depois, começou a avançar cada vez mais. Eu tinha que fugir dele o tempo todo. Comecei então a me esconder em um quartinho que havia embaixo da escada. Meu tormento foi imenso. A mamãe descobriu e ficou uma fera. Achei que iria dar morte. Disse que eu era uma filha ingrata, que estava tomada pela pomba gira, e passou a me bater também. Quando eu tinha 17 anos casei e nunca mais voltei para casa. Não fui nem no enterro do maldito. Não sei por quê estou te contando tudo isso. Sabe, na minha religião a gente não se confessa, e sinto uma necessidade de desabafar.

6 comentários:

  1. Gostei imenso.
    Você e sua querida irmã se parecem muito.
    Grande inveja de você a viver nestas lindas paragens, com o inverno a germinar geladas sementes de inspiração sublime.
    Obrigada por me visitar e pelo que diz de meu texto.
    Me sinto orgulhosa de vos conhecer.
    Grande abraço.
    Marie

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  2. Obrigado. Seu elogio me envaidece. Respeito o seu texto imensamente.

    Abraço,

    Terráqueo

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  3. Estou impressionada com o desabrochar de sua veia literária. Que bom que esse coágulo de palavras explodiu. Daqui para frente, será como uma hemorragia, as imagens vão circular em sua cabeça feito um vírus imbatível. Parabéns pelo excelente conto.

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  4. A vida é cheia de inspirações e o ócio é criativo. Obrigado, beijos,
    Terráqueo

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  5. darling o problema da inveja de uma maldita beleza é muito mais amplo que se imagina por isso mesmo é tão tragicômico um beijo

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  6. Darling, amei seu comentário. Dei gargalhadas.

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