domingo, 20 de dezembro de 2009

Lição de vida.

Meu pai era um moralista. Embora despejasse os piores palavrões quando estivesse com raiva (geralmente contra a própria família), não falava jamais em sexo com os filhos. Criticava tudo e a todos. Para ele tudo era pecado, vulgar e nojento. Bonito e viril, jamais demonstrou em público qualquer libido pela mulher. Tinha muita vergonha das duas irmãs serem separadas, e no que percebi isso comecei a massacrá-lo. Dizia-lhe que elas não tinham culpa. Isso era uma maldição da família, já que sua mãe e sua avó também haviam sido abandonadas pelos maridos. Deveriam ter contratado um bom pai de santo para quebrar a feitiçaria. Agora era tarde para reclamar. Mas ele também era um ser prático e determinado. Suas convicções e prioridades mudavam conforme suas necessidades. Cumpria com seus objetivos a qualquer preço. Para ele as férias eram sagradas. Todos os anos esperava ansiosamente o momento em que mudávamos da nossa casa serrana para nosso apartamento praiano. Ele contava os dias para isso. Minha mãe era oposto. Não criticava ninguém, compreendia as diferenças e, embora de poucas amizades, mas boas, gostava de apreciar e de conviver com pessoas pouco ortodoxas. Tinha uma simpatia imensa pelas prostitutas, um carinho pelas mães solteiras, e de vez em quando recolhia famílias da rua e as levava para almoçar lá em casa. Na cozinha, panelões imensos eram aquecidos no fogão a lenha para os meninos que compareciam todos os dias para o almoço. Por outro lado, era extremamente comodista. Foi criada com todo o conforto possível e contava com um séquito de colaboradoras que trabalharam para ela até se aposentarem. Houve época em que eram 4 ou 5. A casa era grande e os filhos precisavam estar bem atendidos. Mas o verão estava chegando, e não conseguia ninguém para levar para a praia por dois meses. Suas fiéis escudeiras eram casadas e tinham filhos. O desespero foi batendo nos dois. Mais nele, porque sabia que a mulher, sem pelo menos duas serviçais, não daria um passo para fora de casa. Ele mesmo tratou de providenciar. Como era médico, perguntou a uma paciente do INPS se ela estava empregada. Ela disse que não, que era ótima cozinheira e que sua irmã lavava e passava muito bem. Ainda por cima ela tinha nome de santa, chamava-se “Benta”, e a xereca estava perfeita. Ele não titubeou. Mesmo sem conhecê-la direito ou checar referências contratou imediatamente seus serviços. Naquela época eu tinha apenas 12 anos e ansiava por conhecer os fatos da vida. Saber os pormenores mais vulgares. Eu só pensava naquilo, mas ninguém tinha a decência de me explicar. Ao chegarmos na praia, verificou-se que era verdade o informado pela Benta. Os anjos a enviaram, pelo menos para mim. Cozinhava divinamente e tinha uma disposição impressionante. Após o jantar, as irmãs limpavam tudo rapidamente e sumiam, deixando a família com total privacidade. Perfeito. Como nunca fui bobo, comecei a reparar que elas se arrumavam muito e que chegavam tarde. Um dia ouvi uma perguntando para a outra quanto havia ganhado na noite anterior. Fiquei atento, passei a vigiar os passos e a ouvir as conversas. Elas gostaram de mim, pediram segredo e abriram o jogo. Estavam faturando alto, muito mais do que como domésticas. Faziam de dois a três programas por noite. A mais novinha cobrava 100, a mais velha 80. Melhor do que isso. Tinham senso empresarial. Haviam colocado inclusive a empregada do desembargador para trabalhar com elas, e a terceira irmã em breve chegaria para se unir às santas do “São Bento”, por coincidência, nome do nosso respeitável edifício. Foram extremamente generosas comigo. Me explicaram tudo o que faziam, e o valor diferente de cada ato. Beijavam inclusive, não tinham medo de se apaixonar por seus clientes. Salientaram o quanto uma língua faz por um relacionamento, e me descreveram como um homem deveria usar a sua se quisesse de verdade dar prazer à mulher. Lição essa que tenho como uma das mais valiosas. Não demorou muito a vizinhança estava comentando, e o fato chegou aos ouvidos do Dr. Fiquei com pena delas, minha mãe ficou apreensiva, pois gostava das mocinhas, e o bom Dr. com um problemão. O que fazer? Na sua casa duas rameiras a conviver com sua família. E o que é pior, uma das mocinhas era menor de idade. Isso era demais para seus rígidos princípios morais. Inadmissível. Uma mera conversa não resolveria. Ainda faltava um mês para terminar o verão e eles não poderiam ficar sem elas. Encontrou então a solução mágica. Deu-lhes uma palestra sobre moral, saúde sexual (era especialista nessa área), e recomendou-lhes o centro espírita mais próximo. Após dois ou três passes, elas poderiam ficar. Tudo estaria resolvido e, para que tivesse certeza que na sua casa imperava o respeito, fez questão de não tocar mais no assunto. Isso foi fofoca da vizinhança, inveja das outras patroas que não tinham serviçais tão prestativas e uma família tão bem constituída quanto a dele.

8 comentários:

  1. darling dei boas gargalhadas ao lembrar daquelas férias um beijo

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  2. Dá vontade de dar um enorme laço nesse seu pai.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Marie, obrigado pelo incentivo.

    Darling, eu consigo imaginar você gargalhando. Me diverti horrores ao escrever essa história.

    Bípede, acho que ele bem que merecia, mas nesse episódio acho ele super interessante, serviu como inspiração. Afinal não é sempre que se tem uma família literária.

    Deus, você é realmente cego. O melhor de tudo é que ele acreditava que você o considerava um herói. Um dia ele me contou muito feliz que você havia dito ao pequeno Bípede que ele era um herói. Tadinho do seu herói.

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  5. Sensacional...você me mata de rir...beijos, M.

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Encontrei seres