quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Natal


Como todo bom ateu não acredito em Natal. Considero uma ocasião comercial, cafona e hipócrita, que lhe obriga a estar em contato com pessoas que você pode até amar, mas que não lhe dão prazer algum. São na maioria das vezes inimigos íntimos. Houve uma época em que eu esperava por essa data durante meses. Ficava parado, olhando atentamente na pequena loja do Seu Normélio (achava a loja imensa) ou no Mundo dos Plásticos, para saber qual era o lançamento da “Estrela” para o Natal. Para quem não sabe, nos anos 70, a Estrela era a única fabricante de brinquedos de qualidade no Brasil. Como vibrei com o Hit Trem e com o Autorama. O mesmo não pude dizer dos “Fortes Apaches” e assemelhados. Esses brinquedos belicosos nunca combinaram comigo. Sempre preferi emoções mais delicadas, passar horas a escutar uma sinfonia, a ler Monteiro Lobato ou a dedilhar alguma musiquinha do Método Rose no piano, do que a ver sangrentos filmes em que mocinhos impecavelmente arrumados matavam feiosos índios com cara de descendentes de espanhóis. Depois que perdi o interesse pelos brinquedos, meu prazer no Natal ficou concentrado no reencontro com uma velhinha bem velhinha, minha avó e minha mãe. Meu pai, sempre de mau humor, preferia ver um filme no andar de cima a confraternizar com a família que para ele era somente da minha mãe. Durante anos, meu pedido secreto de Natal e Ano Novo foi que essa velhinha estivesse presente no ano seguinte. Como eu me preocupava com isso. Os laços de afeto são muitas vezes mais fortes que os sanguíneos. Adorava também o momento em que minha avó materna (para mim ela era o Papai Noel e o centro do núcleo saudável da família) cantava uma música que contava a história dos seus avós, sobre os sonhos que eles sonharam muito tempo antes de nós. Me alegrava quando via minha mãe ainda bela cantar “Que rest-til de nous amours” com a mão sobre a lareira. Ela era tão desafinada, pobrezinha, mas se acreditava e preparava o Natal com tanto amor. Depois que ela se foi, nunca mais gostei dessa data como antes. Tive alguns bons natais é claro. Inesquecíveis até, mas por outras razões. Hoje, cínico que estou (não entendam amargurado), curto mais a decoração, o lado cafona, enfeitado, barroco, extravagante e principalmente os dias de folga, ótimos para quem gosta de viajar.

7 comentários:

  1. Tia Quiji me falou: o Natal nunca mais será o mesmo depois de uma partilha. É verdade, o Natal nunca mais é o mesmo depois de uma partida. Lamento muito não vivermos na mesma cidade porque um Natal contigo seria redentor.

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  2. Contigo também. Mas o fato é que eu tenho tanta certeza do teu afeto que me sinto acompanhado por ti aonde for que o meu pensamento te busque.

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  3. darling o natal é só uma data meus natais são quando tu vens a Porto alegre e posso te abraçar um grande beijo te adoro da tua darling

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  4. Para mim também. Natal é poder te abraçar. Beijos.

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  5. Caro da Maia. Sou completamente ateu. Não vejo a menor possibilidade de algo parecido com Deus ser possível. Adoro a resposta que um inteligente menino deu para sua mãe quando ela lhe explicou que Deus criou o mundo e a todos, que ele está em todos os lugares e tudo sabe. O inteligente menino disse: "Ora isso não existe." Acho que o medo da morte é que faz os homens quererem acreditar em algo tão sobrenatural, se tornando religiosos ou agnósticos até prova em contrário. Prova essa que eles jamais terão.

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  6. Eu até admito prova em contrário, mas até hoje essa prova nunca aconteceu. Todo dia eu rezo para que ela venha. Gostaria e muito de acreditar na religiosidade, mas eu não consigo. Por que sou tão cético? Já perguntei para tanta gente, inclusive meu analista. Procuro e aguardo respostas que não vêm. Mas ainda tenho esperança, pois como dizia minha santa avó -- que me levava para as missas no sábado de fim de tarde -- ela é a última que morre.

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Encontrei seres