domingo, 31 de janeiro de 2010

Bodas de Ouro

Ela estava cansada, o imenso casarão era frio e trabalhoso. Sua única filha mimada e o marido despótico. O tédio era terminal e o arrependimento de ter se casado com ele visível. Embora fosse uma mulher na casa dos 30 anos e tivesse herdado uma quantia considerável, Vossa Excelência não permitia que ela fosse a qualquer lugar sem a sua presença e nem que dispusesse de seu dinheiro. O controle era doentio. Em uma ocasião, após ir ao cinema com a irmã, disse para o cunhado que ela somente entraria novamente naquela casa porque estava em sua companhia. Para superar as dificuldades agarrou-se a igreja. Deus iria lhe dar forças para superar a infelicidade e a monotonia. Não deu. Pelo contrário, as confissões ao padre passaram a lhe causar embaraço. Não sabia como demonstrar sua insatisfação, sem sentir-se envergonhada. Há muito sonhava com outros homens. Não podia mais nem ouvir a voz do marido. Ele também deu um jeito de afastá-la da sua família por inteiro. Brigou com todos, um a um. Para piorar as coisas, um dia, sem que fosse sequer consultada, o marido lhe informou que seu irmão viria morar com eles. Ela não pôde dizer nada. Ele jamais admitiria que uma ordem fosse questionada. Mandava e pronto. Resignada, ela preparou uma dos quartos do casarão para o cunhado. Embora modesto, ele era uma pessoa sensível e educada. Estava apenas precisando de ajuda pois o salário de funcionário público não era muito bom e havia sofrido uma grande decepção amorosa. Pelo menos essa foi a versão oficial contada aos amigos e parentes. Durante o primeiro mês nossa heroína, mesmo em casa, andava com roupas sóbrias e fechadas. Jamais atreveu-se a sair do quarto, sequer para pegar um copo d’água, sem que estivesse completamente vestida. Com o tempo a intimidade foi crescendo e com o cunhado começou uma amizade. Embora ele não tivesse a mesma posição social que o marido, era um homem com muitas qualidades. Seu corpo era bem feito, ele era simpático e mostrava-se sempre solícito a ajudá-la, o oposto do rabugento marido. Passou também a ser praticamente seu motorista, segurança e companheiro em todas as atividades externas, passeios com o cachorro, compras no supermercado, etc. A cumplicidade entre eles foi crescendo e o afeto também. Uma noite, após o jantar, ele se ofereceu para ajudá-la a lavar a louça. Foi quando acidentalmente suas mãos esbarraram pela primeira vez dentro da pia de água morna e cruzaram o olhar por quase um segundo. Desde então ela começara a sonhar com o cunhado. Nos seus sonhos vivia as mais loucas fantasias. Ela o amarrava na velha cama de ferro batido e o devorava por inteiro, tragando cada pedaço do seu corpo com força e violência. Ela o ebofeteava e o dominava. Tinha prazer em mordê-lo e queimá-lo com cera de vela. Gostava inclusive de penetrá-lo com seu dedo. Fazia com que ele sentisse muita dor antes de chegar ao prazer. Outras vezes ela sonhava que ele a possuía sobre a mesa da cozinha ou que por horas a acariciava somente com a língua e com a ponta dos dedos, para muito depois possuí-la. Quando tudo estava acabado ele dizia que a amava. Após seis meses nessa tesão ensandecida, ela estava decidida a tê-lo. Nesse ponto, o destino de nossa personagem poderia ter tomado diversos caminhos. Deixo para vocês apenas dois dentro dos diversos possíveis. No primeiro final, ela seduz o cunhado, e passa a ter com ele encontros furtivos durante a tarde. Depois, como não dava mais para segurar, passaram a se encontrar à noite mesmo. A configuração dessa relação como um casal ficou tão evidente durante os anos que seguiram, que os sobrinhos-netos e conhecidos pensavam que ela era casada com o cunhado. Mesmo após a empregada de longa data ter contado para marido que à noite nossa heroína ia para o quarto do cunhado, ele nada fez. Quando um dia, a filha mimada já adulta finalmente tomou coragem e disse para o pai que isso não poderia continuar, que era imoral, ele respondeu: “Nunca repita isso, sua mãe é muito braba”. Conviveram todos muito felizes nessa relação por cinquenta anos. Adotaram inclusive uma filha, registrada apenas pelo cunhado evidentemente. No velório do cunhado, uma sobrinha indiscreta lhe pergunta: “Titia, ele a amava?” Resposta: “Acho que sim.”. Acho esse final totalmente inverossímel, poderia um ser tão prepotente quanto Vossa Excelência concordar com isso por tantos anos? E um ser tão submisso ter dado essa volta por cima? Que estranho acordo concluíram aquelas três pessoas aparentemente tão felizes? No segundo final, nossa heroína vai para cima do cunhado, passa a assediá-lo. O pobre diabo sua bicas, diz que não poderia trair a confiança do irmão, que ainda estava preso ao antigo relacionamento e que por isso não se entregaria a nenhuma outra mulher. Como ela era determinada, ele foge acuado, evita ficar sozinho com ela em casa, até que muito constrangido lhe confessa que é apaixonado pelo jardineiro. Viveram então os três eternamente infelizes por muitos anos. O jardineiro chutou o cunhado logo depois.

8 comentários:

  1. É... tem muita dona flor que vive com seus dois espinhos. Hahahaha.

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  2. Definitivamente o primeiro final é o melhor em todos os sentidos. E discordo de ti. Mais verossímel. O prepotente sem dúvida tem a auto estima menor que seu mínimo dedo do pé, e a reprimida, subjugada com certeza guarda uma raiva perversa e poderosa. O cunhado, salva a todos. É o cordeiro imolado, que também tem seu poder. Adotarem a filha é perfeito. O triangulo é equilátero e equilibradíssimo.
    Gostei imensamente.
    Me lembrou o Eu tu eles. Você assistiu?? Eu adorei o filme. Principalmente porque tinha lido a história verdadeira da mulher anos antes, numa Marie Claire. Tinha inclusive foto dela. A vida meu querido é sempre mais surpreendente e inverossímel que a ficção.
    Você está afiadíssimo.
    Je suis très fier di toi.
    Bisous
    Marie

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  3. Marie,

    Adorei teu comentário. Também acho que a vida tende a ser mais surpreendente que a ficção e prefiro no fundo o primeiro final. Bj,

    Terráqueo

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  4. Bípede,

    Se um espinho já é incomoda, imagina dois....Mas concordo, contigo está cheio de Flor por aí, até mesmo nas melhores famílias....

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  5. Querido,

    Bárbaro o conto. Como a Marie prefiro o primeiro final. Acho que teu conto e Dona Flor, no mínimo nos mostram como as fantasias de triângulo, de infidelidade estão presentes no psiquismo dos mortais... Penso também que aquele belo final de Dona Flor consegue conciliar os anseios humanos de erotismo e segurança. Na vida real ela fica com o amor terno seguro, mas na fantasia segue com os desejos eróticos...Será que isto é mobiliar bem o cárcere de nossas mentes?
    bj. Margot

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Ainda que possamos contar com ajuda externa, saber mobiliar nossas mentes á algo realmente difícil. As vezes lotamos nossa mente com móveis descartáveis, sem qualidade alguma. Fico pensando também o que seriam das relações de longa duração se não fosse a possibilidade de pelo menos fantasiar com outras pessoas, de escapar através da imaginação. Chego a achar que os triângulos e quadriláteros amorosos são muito mais comuns e saudáveis do que admitimos. O que complica é o ciúmes, o sentimento de posse, o medo de perder o outro.
    Bj.,
    Terráqueo

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  8. Absolutamente de acordo.
    Bj
    Margot

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