quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A vizinha.

Após terminar um namoro com uma bailarina furiosa por causa da vizinha do andar de cima que, apesar de estar quase noiva, com freqüência batia na sua porta com uma pequena garrafa de Champagne, ele havia recomeçado a vida em outro endereço e sem confusão alguma. Vida nova, deixou Ipanema para trás e se instalou no Leblon, em um charmoso apartamento com vista para “o Corcovado o Redentor que lindo” e também para a lateral de um edifício de apartamentos totalmente devassados. Dentro de poucos meses, encontrou em São Paulo o amor da sua vida e achou que seria feliz para sempre. Mas por mais feliz que estivesse e por maior que fosse a sua paixão, as vezes lhe batia uma nostalgia, uma saudade de algo que fora bom no passado e que não era mais possível ter. Algumas feridas ainda não estavam cicatrizadas. Ele adorava ficar na rede da sacada a olhar o Cristo, e começou também a prestar atenção na vizinha do edifício ao lado. Reparou que ela via a novela, que sua sala era bem decorada, que havia uma estante cheia de fotos (pela distancia não conseguia saber de quem eram), e que todos os fins de semana, no domingo, ela montava lindamente a mesa da sala para seus convidados. Passou a sentir uma certa inveja, e a desejar estar lá também. Lembrava-se de que era tão bom quando, ainda na casa materna, deliciava-se com deliciosos cafés da tarde, em que cucas, sonhos recheados com goiabada ou doce de leite, nêgas malucas com cobertura de chocolate, e bolinhos de chuva eram servidos para a numerosa família. Como não se pode ter tudo, tratou logo de dizer para si mesmo que estava muito feliz, e que deixasse de cobiçar a comida alheia. Uma sexta-feira à noite, no meio da madrugada, foi acordado pela sua cara metade que o chamava para a sacada com um “Vem cá, corre...”. Meio sonolento ainda, ele foi até a sacada e olhou para o apartamento da vizinha. À meia luz, ela estava em pé, completamente nua, parada em frente a porta de vidro da sacada. Suas pernas estavam entreabertas, e suas mãos massageavam os próprios seios. Ela contorcia o rosto e mordia os próprios lábios em êxtase. Aos seus pés, encontrava-se ajoelhada uma moça cor de jambo, com coxas largas, uma leve barriga, seios fartos, e com longos cabelos negros puxados para trás, que lhe sugava a vulva com bastante intensidade. Ao constatar que era observada, a vizinha instintivamente deu um grito de susto, botou as mãos sobre o ventre, e correu da sala em direção ao seu quarto. Como o apartamento era lateral e as persianas estavam todas abertas, ele ainda pôde vê-la a cruzar a sala, o primeiro quarto e o segundo em disparada. A moça sem qualquer cerimônia ou constrangimento passou a vestir-se bem lentamente. Quase que como fazendo uma "striptease" ao contrário. Era visível sua satisfação em ser observada. Ela provocava até. Quando estava pronta, fechou uma a uma todas as persianas do apartamento e apagou as luzes. No sábado, ainda que envergonhado por ter sido descoberto em um momento de voyerismo, ele estava curioso para vê-la, saber como ela reagiria. No entanto, mesmo com o calor do Rio de Janeiro, nenhuma janela ou porta da sacada foi aberta. Tudo bem, pensou ele. Deixa ela, tadinha. Que pena que ele havia lhe estragado à noite justamente quando ela estava quase là. Além do mais, lembrou que isso não era da sua conta e que ele sempre achara muito feio espionar os outros. Era da teoria de que pior do que ser traído é pegar alguém propositadamente em flagrante. Para ele, a invasão de privacidade era ainda mais desrespeitosa do que a traição. Ela que vivesse a sua vida e ele que deixasse de ser abelhudo. No domingo, como era de costume, o apartamento foi aberto, a mesa posta com requinte, e pelas quatro da tarde ela estava feliz, rodeada pelos seus filhos e netos, enquanto a empregada, dessa vez com o uniforme, lhes servia um elaborado café da tarde.

9 comentários:

  1. Muito bom. Estás caprichando nas anotações eróticas. Isso pode virar livro. Go ahead!

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  2. Obrigado pelo apoio.

    Abraço,

    Terráqueo

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  3. Pode crer. Gostei imensamente.
    Que venha o livro.
    Parabens krido.

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  4. Querido,
    Este frio tododa Suíça, está sendo transformado em belos e quentes contos eróticos, para nós teus fiéis leitores. Adorei.
    Bj. Margot

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  5. Marie e Margot,

    Obrigado. Vocês são muito generosas. Mas estou pensando em realmente fazer uma oficina literária. Vou verificar se no Rio ou em Poa eles fazem por internet. Eu poderia mandar os contos e receber as críticas e sugestões. Gosto de chegar em casa de vez em quando e colocar no papel as idéias que me ocorrem.

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  6. Tão visual que a gente consegue ir contigo espiar pela sua janela indiscreta. Muito bom, Terráqueo!

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  7. Bem, em POA tem o Fabrizzio Carpinejar, que dá sim uma oficina de texto que me mete inveja sempre.
    Mas não acho que ele o faça por internet...
    Tenta.
    Dá uma olhada no blog e site dele:
    http://www.carpinejar.com.br
    E não sou generosa não. Tá muito bom mesmo.
    Para mim tem até um ar meio Clarice Lispector. Lembrou-me o conto Feliz Aniversário, sabe qual?

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  8. Obrigado pela Dica, pela comparação, e por ter me apresentado esse conto da Clarice. Acabei de lê-lo e achei sensacional. Não conhecia, mas mais de uma vez pensei o que a minha avó materna que eu adorava pensava ou pensaria dos seus descendentes. Se ela estaria decepcionada ou não?

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Encontrei seres