quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Carta para Marie

"Lausanne, 17 de fevereiro de 2010.

Querida Marie,

Você me pediu que eu escrevesse sobre um personagem a procura de um autor. Como eu gosto muito de você, tentei de verdade, mas eu não consegui. Fiquei bloqueado. Tive muita dificuldade de fazer o exercício proposto, pois o único personagem que estava disposto a nascer mexeria com minhas feridas mais profundas. Me desculpe, mas eu não quero escrever sobre isso. Não vou deixar que esse personagem que me assombra, que me persegue em todos os lugares, possa viver graças a mim. Não vou escrever que ele é mau, sádico e manipulador, e que me machucou muito. Que quando cometeu suicídio, eu quase morri também. Que quando eu pensei que estava definitivamente morto ele apareceu na minha frente, dentro da minha casa, a dois metros da minha cama, falando sobre alguma coisa, e que num piscar de olhos desapareceu. Que eu chorei, fiquei tonto, que não consegui entender uma palavra. Não vou contar que meus amigos acharam que eu estava louco, que eles disseram que eu deveria procurar um analista, que personagens mortos não reaparecem contra a vontade do escritor, mas que então ele também apareceu para eles, que também perderam a voz e também não conseguiram entender nada. Não vou contar que fugi, que pensei que estaria a salvo, mas que ele dá sempre um jeito de me encontrar. Que ele sabe tudo a meu respeito, não importa aonde eu vá. Que ele impede que outros personagens existam, que eu escreva coisas felizes. Não, eu não vou contar nada, não vou escrever nada. Não vou deixar ele existir.

Beijos,

Terráqueo"

8 comentários:

  1. Nenhum personagem pode ser mais poderoso que o seu criador, mesmo que fique imenso e faça temer e tremer. Nenhum fantasma está mais vivo do que aqueles que tenta assombrar e isso torna-o impotente e fraco. Um sopro de luz e um rasgo de amor bastam para o fazer fugir.

    Desculpa a minha intromissão numa carta tão pessoal.

    Bjs

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  2. Querido Terráqueo,
    Eu abro, por brincadeira e jogo, tua caixa de Pandora e você me dá um presente?
    Será que preciso dizer que tua carta me atingiu deixando-me completamente sem fôlego e subitamente impossibilitada até de engolir-me
    De bem intencionados o inferno está cheio e sem dúvida lá já vou parar.
    Não foram teus negros fantasmas que quis acordar. Entendo tua negação. Sou expert em fugir deles. Acho que por isso sou médica. Aprender o jogo do sadismo e transformá-lo.
    Por isso sou obstetra. Para acreditar em algum Deus. Para ver milagres. Medicina é minha religião e meu remédio contra o medo e a covardia.
    Por favor entenda, não estou de forma alguma te atribuindo isto. Estou falando de mim.
    Fiquei e estou, extremamente assustada com o que te provoquei. Eu não sabia. Nem nunca quereria. Mas, como na música que aí me destes, que adoro e a tinha exatamente nesta gravação, onde o clip me vem de nhapa, (é lindo) e aí o meu presente; o segredo não é a morte, a eliminação, e sim a transmutação. A alquimia a que vens te dedicando.
    Não, não brinques de Frankenstein. Não remendes teu monstro pessoal. Nem tampouco o exorcises negativamente em rituais de magia negra. Antes, use luzes. Um espetáculo feérico. Múltiplos flashes a clarear esse duplo que não há de crescer ao libertar-se e sim tomar a exata dimensão necessária. Sei que isso, nada é de fácil. E sinceramente, me foram e são necessários anos de análise. E isso não é loucura. É ao contrário. Lucidez extrema, demasiada. Não te julgues. Fugir não é pecado. E o único medo que se pode evitar é a dor do medo da dor.
    Tristeza não é amargura.
    Todo luto é necessário e velar é trazer luz. Para que nosso lado negro não deixe de existir e sim, realce a luz do claro. Um, sem o outro, não é. Sem a sombra a luz cega.
    Não escrevas nada que não queiras.
    E se precisares me chames. Para conspirarmos novos e diferentes crimes perfeitos.
    Num livro chamado Camere separate, de um escritor italiano, Pier Vittorio Tondelli, ele, contando a morte de seu grande amor, fala do luto que não encontrou espaço social para ser vivido.
    A Françoise Dolto, uma psicanalista francesa maravilhosa, também fala dessa dimensão do social para validar nossos ritos de passagem. Há um livro maravilhoso dela (escrito na verdade pelo Castanheda, que era seu editor e que juntou escritos dela, registros de alunos ou de um aluno de um seminário dela e trechos de conversas entre ele e a própria) que se chama Solidão e vai falando de todos esses processos. Não é um livro fácil de ser lido. Mas é belíssimo e para mim, sempre, a literatura teve essa função de lanterna, para meus espaços escuros.
    Terráqueo, novamente te digo, que não precisas e nem deves publicar esse jornal.
    E me perdoa se perdi-me na dimensão da ficção.
    Um beijo
    Marie

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  3. Queridas Marie e Apple,

    Adorei escrever esse texto. Abrir a caixa de Pandora.
    O jogo era escrever sobre um personagem a procura de autor, e foi isso que eu fiz. Esse personagem faz parte da ficção e da realidade, pois o que habita o inconsciente existe de uma forma poderosa. Talvez ele não seja humano, talvez seja. Não posso me arriscar a explicar e perder a partida. Usei a negação para que ele não pudesse de fato existir, ter certeza que eu falasse dele. Vejo que ele as vezes aparece para outros autores, que distraídos deixam ele escrever sua história, até que seja tarde demais para apagar o texto. Ops, ele quase nasceu agora. Não fiquem preocupadas, tive grande prazer em escrever essa carta postagem.

    Beijos,

    Terráqueo

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  4. Gostei muito do seu blog, dos seus textos, suas fotos, vídeos e imagens. Serei mais uma terráquea seguindo esse terráqueo perdido no frio e sonhando com o sol de... Copacabana? ou Itacaré? Espero sua visita e quem sabe até um comentário?
    Beijo
    Lúcia Alfaya

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  5. Lucia,

    Obrigado pela visita. Eu amei o seu blog, fiquei impressionadissímo por tudo, mas principalmente pelos teus quadros. Fiquei babando. Louco vê-los pessoalmente. Volte sempre por favor.

    Beijo,

    Terráqueo

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  6. Terráqueo krido,
    Mania que você já tem de publicar meus jornais, né? Fico envergonhada de escrever uns comentários maiores que os posts. Mas não muito.
    Já perguntei uma vez, me achas muito prolixa??
    Mas vamos lá.
    Desculpa lá, mas tenho que discordar da Apple, muitos personagens são maiores e mais poderosos que seus criadores. No mínimo são imortais, teem mais visibilidade, teem mais poder.
    Acho que a prova por si só, é a reação que este teu personagem negado, rechaçado, provocou.
    Numa simples carta (num conjunto para lá de bem arrumado) adquiriu um poder avassalador sobre nós, leitores. Provocou uma onda de emoção impossível de ser ignorada e a reação imediata da platéia. Como já falamos nos comentários do post onde surgiu esta mesma idéia. Ficção e realidade se misturam o tempo todo. A nós mesmos é difícil dizer quando estamos dizendo a verdade ou aquela que achamos ou queremos que seja a verdade. Um trauma inconsciente pode ser originado nele mesmo. Pode ser fruto de uma poderosa imaginação. Freud falou muito disso. Uma cena que você acredita que aconteceu, toma força de fato e até maior, tão poderosa é a pulsão da imaginação. A maioria dos grandes personagens são presumida e provadamente alter egos de muitos escritores.
    O exercício era criar uma situação, falar dum personagem que ia ao blog para se enxergar. Eu fiz simplesmente isso. Você criou a cena, a situação em si do blogueiro assaltado. Foi forte e lindo. Eu me impactei de verdade, e você sabe muito bem disso. E não fui só eu. Isso você também sabe.
    O prazer ou dor em escrever vai na busca do prazer em ser lido e ver como foi feita a leitura. No seu efeito.
    Esta é outra vantagem do blog. Você é presenteado quase que de imediato, com a reação do teu escrito. É quase como fazer teatro. Só para poucos. Pelo menos no início.
    Escrever é um gozo e um exercício, que "vai muito alem do princípio do prazer".
    Ainda que teu personagem te possua, e passe a manejar os fiozinhos, há sempre uma troca.
    Há apenas que se cuidar com os ganhos secundários, que as vezes custam mais caros até que o analista.
    Um grande beijo.
    Marie

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  7. Marie,

    Teus comentários são bons de mais para não serem publicados. Eu simplesmente vibro com eles. Fico esperando por eles.

    Um grande beijo,

    Terráqueo

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  8. Estou mais inclinada a concordar com a Apple. Para mim, uma personagem é como uma miragem. Assim que você chega inteiramente nela, apaga-se, dilui-se. Vai-se embora a idealização, os limites ficam expostos e o criador então liberta-se.
    Beijos a todos.
    Bípede

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