terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Maus Investimentos

Plena e absoluta. Assim se dizia a nossa musa. Embora não fosse propriamente feia, tivesse uma boa estatura, as coxas duras e os seios volumosos, ela não fora privilegiada pela natureza. O rosto não ajudava mesmo. Era pouco harmônico e meio abrutalhado. A primeira vez que a vi, quis levá-la para minha casa na praia, mas ela não topou. Deve ter me achado pouco atraente e depois que ficamos bem amigos me disse que nunca dava de primeira. Dava sempre no segundo encontro, pois tinha medo que não rolasse o terceiro. Embora fosse de poucas luzes, ela era disciplinada. Conseguira um ótimo emprego em uma multinacional e desempenhava bem suas funções. Ganhava razoavelmente. Também acabou arrumando um namorado pelo qual se apaixonou e que friamente analisando era demais para a desafortunada musa. Segundo o namorado ela era ótima na cama. Mas ele não queria casar, ela não era de todo apropriada. Servia apenas para se divertir. Coisinha sem importância. Surpreendentemente, poucos meses depois de jantar com o casal, a encontro no parque com outro homem e ela o apresenta como seu noivo. Levei um susto. Até aonde eu sabia ela namorava há dois anos o meu amigo. Disfarcei a surpresa, desejei-lhes boa sorte e confirmei de imediato o convite de casamento que eu receberia poucos dias depois. Não entendi nada. Eu sabia que ela amava o meu amigo. Como poderia seis meses depois já estar noiva de outro. Quando ela ligou para agradecer o presente aproveitou para abrir o coração. Me falou que mesmo amando o “ex” havia decidido seguir com sua vida, e colocado um ponto final naquela história travada. Que eles não tinham os mesmos sonhos. Que ela sonhava em casar, ter filhos, um lar, e que ele não lhe dava esperança alguma. Achei louvável o seu discernimento, não esperava tamanha perspicácia daquele ser tão primitivo. Perguntei se ela não achava cedo para casar com outro homem que ela mal conhecia. Se o coração dela já estava preparado para um novo amor. Ela me respondeu que estava chegando aos 30, e que nessa idade uma mulher não tem tipo, tem pressa. Falou que o noivo estava apaixonado, e que precisavam casar de imediato porque ele havia sido transferido para outro estado. Não tinham tempo para se conhecer. Um mês depois eu a vi finalmente entrar na igreja emocionadíssima, em um caminho coberto de pétalas de rosas e com um vestido de renda todo bordado. Cena de capítulo final de novela. Enquanto e musa entrava, um amigo que conhecia toda a história murmura “Está entrando um projeto de vida”. Esse comentário foi passando como telefone sem fio e, em segundos, nossa turma inteira estava rindo sem parar. Uns cinco anos depois fiquei sabendo, pelo mesmo amigo que fizera o comentário acurado, que ela havia em razão do casamento parado de trabalhar, tido dois filhos, e que já estava separada. Que o marido de uma hora para outra, com a mesma rapidez que se apaixonara por ela no passado, se apaixonou por outra, pediu divórcio, e teve mais um filho. Ela lhe contou que ficara desempregada, com dois filhos pequenos, e que em razão dos problemas econômicos voltara para a casa dos pais. Tempos depois esse mesmo amigo a encontrou em uma loja de saldos e ela perguntou por mim. Meu amigo lhe contou que eu havia passado em um concurso público e que vivia há alguns anos em uma cidade do interior. Foi quando ela largou uma das suas: “Investi na pessoa errada. Devia ter investido nele.” Depois dessa frase, ela saiu a passo para olhar se havia uma blusa no estoque.

7 comentários:

  1. Muito bom. Ágil. Divertido. Muito bom mesmo.
    Você está ficando cada vez melhor.
    Ah, e a música não deve nada. Adoro.

    Quanto ao Drama, da Bethânia, eu sei inteiro de cor. Adoro o jeito que ela canta que o mundo vai se acabar, seguido do Maria Escandalosa. E realmente você tem razão: Beijando seus lindos cabelos, que a neve do tempo marcou... e AMO o Drama tam nam ram... e ao fim de cada ato, limpo num pano de prato as mãos sujas do sangue das nações....Fascinação também é de ouvir ajoelhado...

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  2. Pobrezinha. Pelo jeito estava na boca do povo e não sabia.

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  3. darling sempre me surpreendo de as pessoas acharem que tem que seguir tantas convenções sobre uma vida perfeita um beijo

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  4. Andei pensando depois desse texto, mas os homens são mesmo uns grandes machistas e um investimento muito do miserável. Essa coitadinha não deve bater bem da cachola, mas mesmo assim que não justifica o sarcasmo e o deboche com que foi tratada. Tomara que o tal investimento tenha quebrado no meio do caminho!

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  5. Fiquei sem o quê dizer. A história é romântica, tem suspense e bem contada. Os maus investimentos estão por ai, a gente se engana, mas é possível fazer acertos e o primeiro passo para isso acontecer é viver a vida como ela é, aceitar a vida como ela é. Muitos e muitas ficam sonhando em príncipes e princesas encantadas e o tempo passa tão rapidamente que vupt envelhecemos, porque ficamos esperando alguém que não existe. Não estou defendendo que as pessoas casem com sapos ou lagartixas, mas aceitar as limitações dos outros é um grande passo para uma vida melhor. Li sobre isso no Conselheiro Sentimental da Revista Contigo.

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  7. Marie,
    Porque eu sou senhor absoluto da minha simpatia eu simpatizo com o pequenino grão de areia que foi ao céu e foi ao mar, para descobrir que não havia nada além de uma grande ilusão. Que seu primeiro amor foi como uma flor que logo morreu.

    Darling,
    As coisa que não são perfeitas são barbaras por um tempo. Depois, da mesma forma que as perfeitas, se tornam enfadonhas.


    Bípede,
    Não fique com pena da nossa musa. Isso é pura ficção. Nenhum desses personagens seriam bons seres humanos. Esse conto não é machista, ele é frio, insensível, como a vida é para muita gente. A pobre musa mesmo amando outro tirou partido da paixão do noivo para realizar seu projeto de vida. Não se deu conta que o noivo era imaturo e que essas paixões da mesma forma que vem, vão embora. O namorado não era machista. Apenas só queria sexo. Existem tantas mulheres que são exatamente assim, Sem dizer as que procuram os homens apenas pelo dinheiro, e que os descartam como meros objetos. Uma boa parte já distribui a senha para o próximo antes mesmo de desovar o vivente. Quanto aos amigos da musa, não fique com raiva. Ela que os selecionou. A vida é assim, as pessoas andam aos pares. Bem feito que ela ficou amiga de um ser maldoso que até no dia do seu casamento debochou da pobrezinha. E o narrador, seu investimento em potencial. Pelo tom da narrativa percebe-se que é um sádico que se diverte com a desgraça e burrice alheia. É outro tremendo mau investimento.
    Ainda bem que isso é ficção. Não gostaria de conhecer esse tipo de gente.

    Maia,
    O tal Conselheiro é genial. Aceitação é tudo o que se quer. O problema é que normalmente queremos que o outro aceite sem questionar. O difícil é seguir a recomendação do conselheiro. Aceitar as limitações do outro, e aguentar que vem de junto. Será que a nossa musa procurou o Conselheiro Sentimental para decidir se casava?

    Beijos e abraços,

    Terráqueo

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