sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mudanças e Memórias

Mudei para um “Boutique Apartmet” ou "Studio" bem no centro de Lausanne. Embora mínimo, pois na realidade é o que chamamos no Rio de “Já vi tudo”, é super agradável. Um pouco barulhento é verdade. Após viver três meses habitando literalmente no bosque, agora que estou na casinha da cidade estranho o barulho. Mas meu quarto é no alto e eu enxergo alguns prédios. Vejo que tem vida lá fora e isso melhora o astral. Era tão desolado o lugar que eu morava, que eu nunca abria a janela. Acabei me deprimindo. Sou um esteta e preciso estar rodeado de coisas belas e de vida. Aquela que me pariu dizia que para ela era importante que as coisas ao seu redor fossem bonitas, e tudo que ela fazia era verdadeiramente belo, ainda que fosse uma simples salada de batatas. Eu acho que herdei essa necessidade estética. O apartamento que me foi destinado era sem charme algum, pouco confortável, ermo. Isso me arrasou. Me senti em uma cidade gelada do interior do interior do Brasil. Tinha que viajar para longe nos fins de semana para suportar a semana na Suíça. Entrei em depressão pela primeira vez na vida. Logo eu que sempre achei que sofria de felicidade patológica e que adorava a Suíça. Cheguei a parar de fazer a barba e isso foi ainda pior porque fiquei igual ao papai Noel. A depressão é completamente diferente de tristeza ou solidão. É a falta de esperança, a descrença no futuro. Ela se instala devagarzinho e atrasa a nossa vida. De certo modo, é ainda mais perigosa do que a tristeza. Tristeza tem um motivo específico, geralmente relacionado a uma perda ou luto, e você sabe que vai superar um dia, ainda que seja com o final da própria existência. Depressão é mais difícil, exige que você supere diversos problemas que na maioria das vezes estão inconscientes. A causa é desconhecida o que torna mais difícil superá-la sem a ajuda de um analista. Mas vou melhorar, agora estou em um lugar mais central, com vida lá fora.




O engraçado é que Lausanne, embora mais sofisticada, me lembra muito Caxias do Sul, e isso me remete a minha querida avó materna que foi uma das pessoas mais importantes da minha vida. Nesse apartamentinho me senti um pouco como na casa dela, tão limpinha e aconchegante. Ela sempre dizia, a gente não diz “o fulano é meu melhor amigo, ou você é a pessoa que eu mais amo no mundo, porque desaponta os demais afetos”. Mas não aprendi bem essa lição, tenho a minha lista de preferidas (são todas mulheres) e elas sabem disso. E ela sempre esteve no topo da lista, abaixo apenas das duas manas prediletas e da minha mãe. Era essa a sequência, para ciumeira inclusive da mãe. Mas voltando à avó, ela tinha uma classe, parecia uma baronesa e, assim como a filha, um cuidado muito especial para não ferir o outro. Repetia uma frase do meu avô que eu lembro sempre: “Educação é não ferir suscetibilidades”. Ela era diferenciada mesmo. Formou-se em uma época em que as mulheres pouco estudavam, trabalhou muito e sempre foi independente. Viajou o mundo várias vezes, para destinos remotos que na época eram impensáveis até para pessoas muito mais abastadas. Aprendi com ela o prazer pela vida, a gostar de festas, a ser um ser um pouco mais sociável. Também veio dela o hábito de gostar de comer fora todos os dias e a vontade de viajar. Não esqueço que quando eu tinha 10 anos, ela me deu uma roleta e me ensinou a jogar cartas. Para o desagrado do meu pai quadradérrimo, quando eu era adolescente me ensinou a jogar “Poker” , a pronunciar “Royal Street Flash” e me deu a caixa de fichas do meu avô que misteriosamente desapareceram. Com ela também aprendi a beber. Ela não almoçava sem uma taça de vinho, e às cinco da tarde preparava um “whisky on the rocks”. Quando algum ser mais provinciano a censurava, ela dizia que bebia e bebia bem. Da irmandade beber, jogar e fumar, somente não me ensinou a fumar, pois sou muito alérgico e ela tinha noção de que isso não seria bom para mim. Com ela conheci o Tango e até hoje quando vou a Buenos Aires tenho que comer Mursillas todos os dias em sua homenagem (quando menino ela me dava escondido, pois meu pai não aprovava esse produto, achava perigoso, que poderia transmitir doenças). Também lembrei dela quando no Chez Le Bennoit foi servido como prato principal um delicioso Boudin Noire, nome metido a besta da Mursilla gaudéria. Ela sabia das coisas, e muito mais do que isso sabia dar afeto, dormir de mãos dadas com o neto, afofar-lhe quando lhe levava na cama de abrir um bonito sanduíche. Essas memórias boas atuam como um antídoto contra a depressão, e em homenagem a esse ser tão cosmopolita, vou tomar um banho, me ajeitar um pouco, e beber um “whisky” no bar da esquina.





9 comentários:

  1. Querido,

    Adorei o teu novo espaço e saber que a depressão está indo embora.
    É bom lembrar que tua querida avó também morava no borburinho de Caxias, perto de tudo, com barulhos e muitas pessoas ao redor. Interessante, pois estive em Caxias hoje sábado, passei pela Júlio de Castilhos e vi "Edifício Geremia", imediatamente me veio a lembrança da D. Jurema.
    Bj, Margot

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  2. Eu adoro aquele edifício. Acho ele super europeu. O corrimão de ferro batido com um material que imitava madrepérola rosa na escada em caracol era lindo. Tenho uma foto com ela na sacada, em que ela escreveu atrás "Gosto tanto do meu apartamentinho." Ela era muito especial.
    O engraçado é que quando eu morava no Rio, algumas vezes sonhei que eu mudava para aquele apartamento. Pois fui acabar em Lausanne que eu acho igualzinha a Caxias.
    Beijos,
    Terráqueo

    Terráqueo

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  3. darling estou com tantas saudades que fico triste se tu não estiver feliz um grande beijo

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  4. Muito legal teu espaço, é bom saber que não moras mais no subúrbio. Outro dia alguém fez o seguinte comentário tentando explicar porquê motivos em Torres não existem novos restaurantes. São sempre os mesmos, os velhos Souzas da vida. A explicação é a seguinte: Quem veraneia em Torres - hoje - são caxienses (a maioria dos adquirentes de apartamentos são de Caxias) e eles não têm o costume de frequentar restaurantes (claro que existem exceções). Mais uma demonstração de que tua avó era mesmo uma pessoa diferente!

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  5. Aquela máquina de café ali funciona ou é só para fazer grau?

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  6. Maia, ela era um barato.

    Deus, fiquei honrado com a sua presença, que pela primeira vez abençoa meu blog. Sou ateu, mas na existência de um Deus que sabe ser cego eu até acredito. Um grande abraço, obrigado pela mensagem. A máquina deve funcionar. Aina não testei, mas logo pretendo usá-la. Quando quiser vir tomar um café será um prazer. Só avisa com antecedência que é para eu correr comprar um café de qualidade. Abraço,

    Terráqueo

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  7. Darling, não se preocupe, eu estou bem mais feliz agora que me mudei. Beijos,

    Terráqueo

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  8. E ela que tinha tanto afeto por ti o quanto ficaria radiante de te ver agora. Esse post é único, só não vou com você na esquina beber um uisque porque sou muito enjoada :) Mas uma caipirinha no Rio ou na Bahia, pode oferecer. Muitos beijos.
    Sua nova casa é um lar.
    O cachorro roxo um escândalo muito bem-vindo!

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  9. No início eu impliquei com ele, mas depois lembrei do Diudiu que ficava sentado em uma cadeira verde ao lado da minha cama quando menino, e foi uma sensação boa. Além do mais ele é totalmente Pop, poderia estar na Tate em Londres..

    Beijos,

    Terráqueo

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