domingo, 14 de fevereiro de 2010

O estagiário

Quando chegou no imenso edifício todo em mármore em frente ao Guaíba ele vibrou. Não podia acreditar que fazia parte do departamento jurídico de uma corporação tão importante. Ele se sentiu. Mas alegria de estagiário dura pouco. Após passar por uma série de gabinetes luxuosos e ter conhecido os inúmeros advogados, lhe apresentaram o seu lugar. Uma pequena mesa em frente ao Xerox, no corredor que nem janela tinha. Para completar lhe deram uma tarefa diária de grande importância. Ler o diário oficial, recortar as intimações referentes a cada um dos diversos advogados, colá-las em uma folha e distribuir para o doutor responsável. Além disso, o brilhante estagiário ainda deveria fazer uma peregrinação no Fórum e na Justiça do Trabalho para fotocopiar os processos e protocolar as petições. Ou seja, fila, fila, fila, sem nada que lhe motivasse. Havia alguns advogados bem legais, que lhe mostravam algumas coisas, lhe davam papo, e que se mostraram bons amigos com o tempo. Nessa categoria se destacava uma advogada que estava exultante com a primeira gravidez. Como em todo lugar havia os puxa-sacos do chefe. Dentre esses eram famosos um advogado que se parecia com um personagem dos Flinstones e uma secretária com forte sotaque de colona. Quando ela falava o nome do chefe se repuxava toda, cada sílaba do nome do infeliz era prolongada para mostrar a deferência e a importância do ente. E havia também os que embora não fossem de todo maus, eram de uma chatice a toda prova. Uma advogada era imbatível nesse quesito. Tinha as pernas bem torneadas, a pele morena sempre coberta por um dedo de base, uma cabeleira platinum blonde, e um vozeirão que se escutava do outro lado do edifício. Reparava na vida de todos e fazia os comentários mais absurdos. Suas maiores preocupações eram infernizar a vida do ex-marido que, segundo ela repetia como um mantra continuava apaixonado, e o aniversário de 15 anos da filha, que estava prestes a completar 13. Ela iria dar uma festa que mataria de inveja todas as colegas da filha. Teria inclusive um bolo vivo. Um belo dia enquanto o estagiário lutava contra um tubo de cola tenaz que estava entupido, começou a soar um estranho sinal “pom, pom, pom...”. Nisso entra no corredor a platinum blonde berrando “Fogo, fogo, vamos todos morrer queimados”. Após tal veredicto ela começou a berrar que estava paralisada, que não conseguia se mexer, a berrar por socorro, que não conseguia andar. Ninguém deu bola. Todo mundo entrou em pânico e tratou de cuidar de salvar a própria vida. Imediatamente alguém informou pelo sistema de som do edifício que deveriam subir para o terraço quatro andares acima e utilizar a porta de comunicação com o edifício ao lado. O estagiário foi um dos primeiros a se levantar para fugir do incêndio, mas então ele viu a colega grávida e barriguda a passar mal, a ensaiar um desmaio, e mudou de idéia. Segurou em sua mão e disse “vamos devagar, degrau por degrau, temos muito tempo para evacuar o edifício”. Ao chegarem no último andar, uma surpresa. A porta de emergência para o outro lado estava trancada com uma corrente e um cadeado para evitar que algum ladrão entrasse. A secretária com voz de colona então berrou “É sempre assim, nos filmes de incêndio a saída fica trancada e todo mundo morre queimado.” A pobre grávida ao ouvir isso quase entrou em trabalho de parto. Começaram todos a descer novamente. O puxa-saco descia a escada de dois em dois degraus, parecia uma gazela fugindo de um leão, até que para sua infelicidade a platinum blonde que se movia em câmera lenta, chorando pediu sua ajuda. Ele era puxa-saco mas não era má pessoa, passou então a carregá-la com cara de contragosto. A confusão foi aumentando. Em todos os andares a gritaria era imensa. As pessoas berravam corre, corre. Sem falar que já se ouvia ao longe as sirenes dos bombeiros. Quando finalmente todos chegaram ao andar térreo o alarme parou de soar. Era apenas um curto circuito. O incêndio na realidade jamais existira. Voltaram assim todos a sua rotina como se nada tivesse acontecido.

8 comentários:

  1. Muito bom. Há sempre um alarme falso para sacudir a rotina da vida.
    Vale a pena.
    Beijo
    Marie

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  2. darling consigo até imaginar os personagens um grande beijo

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  3. Obrigado por terem postado algo. Eu achei esse texto tão fraquinho. Tenho que retrabalhar ou apaga-lo para sempre.

    Beijos,

    Terraqueo

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  4. Terráqueo,
    Deixa eu ser metida.
    Teu texto não é que seja fraquinho. É locupletado.
    Cada personagem dá uma história. O espaço é que é curto. É quase material para uma minissérie.
    Pense nisso.
    Joga fora não. Que isso, de verdade, a gente nunca faz. Deixa lá no fundo de alguma gaveta.
    Depois a gente morre e vem algum espertinho e apresenta tudo para a imprensa, e ganha um monte de dinheiro em cima da crítica ruim em cima de você. E não adianta se revirar no caixão.
    Mexe nele você mesmo
    Beijo krido.

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  5. Marie,

    Locupletado é elogio. Era melhor que o incêndio tivesse queimado todo e até o texto. Ele ficou tão murrinha que não dá vontade de retrabalhar.

    Beijos,

    Terráqueo

    Terráqueo

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  6. Marie,

    Segui sua recomendação, matei o Dr. Macieira, o advogado mais velho, a telefonista e o advogado alucinado. Ficou um pouco melhor, mas esse conto ficou chatinho. Ás vezes fica bem ruinzinho mesmo. Melhor partir para outra história. Beijos,

    Terráqueo

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  7. É, ficou melhor mesmo. E você tem material aí, pode deixá-lo ainda melhor. Posso continuar sendo muito metida??? Mesmo com um certo tom risório em toda a história, você ainda leva ela muito a sério, principalmente o estágiário. Tá que ele tava se achando. Mas sinto muito. O único jeito é deixando ou o lado perverso ou o lado mais miserável dele vir para fora. Eu acho né?? Pura metidisse de catarina itajaiense.
    Não publica isso aqui não, tá??? Beijo krido.

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  8. Marie, você está me dando algumas idéias. Bem que o estagiário poderia aproveitar para cometer o crime perfeito. Matar a chefe platinum blonde no meio da confusão. Gostei demais do teu comentário para não publicá-lo.

    Beijos,

    Terráqueo

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