sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A perplexidade do ser humano

Não era fácil nem para os autoritários pais controlar seus filhos. Eles eram três pestes ansiosas por diversão. Moravam em uma pequena cidade do interior em que a única distração externa era a televisão. De resto havia apenas o inverno e o mugido de vacas, sem neve, sem esqui, sem patinação, sem bons restaurantes. As pessoas ficavam recolhidas em casa. Era um tédio sem fim. A mãe era uma pintora com relativo talento, que estudava artes plásticas com afinco e que tentava passar para os pestinhas alguma noção de estética e dos principais movimentos modernos e contemporâneos. Uma noite eles assistiram a um quadro do “Planeta dos Homens”, antigo programa humorístico, em que um pintor abstrato ficava irritadíssimo quando lhe perguntavam se ele havia pintado um elefante com uma melancia na cabeça. Ele dizia que não, que aquela “obra de arte demonstrava a perplexidade do ser humano diante do infinito”. Os três pestinhas adoraram aquilo e guardaram a frase para a ocasião apropriada. Na cidadezinha, todos os anos havia um salão de arte em que vários artistas mostravam seus trabalhos e recebiam uma premiação. Havia também o júri popular cuja votação era guardada em uma urna. Uma das expositoras era uma pessoa muito próxima da família e bastante querida inclusive pelos pestinhas. Depois de olharem cuidadosamente a exposição, eles não tinham dúvida que ela merecia o prêmio. Mas eles eram pestes assumidas e não iriam perder a oportunidade de usar a frase. Assim, aberta a urna, começa a apuração sendo lidas em voz alta as justificativas dos votos mais interessantes. Causou uma grande impressão quando foi lido: “Eu votei na Dona Rosinha porque suas obras de arte demonstram a perplexidade do ser humano diante do infinito.” Aquilo lido em alto e bom tom fez a Dona Rosinha se acreditar. Como se diz no interior, ela ficou “faceiríssima”. Recebeu até alguns aplausos. Outros votos lidos em voz alta e a infeliz leitora começa: “Eu votei na Dona Rosinha porque suas obras de arte demonstram a perplexidade do ser humano diante do infinito.”. Quando ela acabou de ler aquilo, algumas pessoas já esboçaram um sorriso de deboche. A mãe dos pestinhas imediatamente olhou para eles que fizeram a cara mais inocente possível. Difícil foi disfarçar quando a leitora leu pela terceira vez: “Eu votei na Dona Rosinha porque suas obras de arte demonstram a perplexidade do ser humano diante do infinito.”. Algumas pessoas começaram a gargalhar, os três pestinhas saíram de fininho, e a mãe deles ficou roxa. Somente a Dona Rosinha não se deu conta. Ficara tão feliz com o prêmio que nem se importou.

13 comentários:

  1. Hahaha...
    Adorei, dá para imaginar a cena e a D. Rosinha, tadinha.
    A mãe também.
    ÓTEMO!!!

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  2. darling hoje eu ainda estava lembrando disso jamais esquecerei e sempre dou boas gargalhadas ao lembrar um grande beijo

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  3. Marie,

    Que bom que você do meu conto que era para ser ficção.

    Darling,

    Não tenho como esquecer a cara da mãe me contando de quando a Dona Rosinha viu nossos votos.

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  4. Bem me pareceu ao ler, que as pestinhas não estavam longe :)

    Safadinhos, hem?

    Bjs

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  5. É, não estavam não.

    Beijos,

    Terráqueo

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  6. Terráqueo, essa frase virou um estilo de vida. Distribuo a torto e a direita em exposições que considero uma ofensa e também nas que considero boas *risos*.

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  7. Eu faço isso direto .

    Bjs,,

    Terráqueo

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  8. Dei boas risadas pensando nos adoráveis pestinhas que eram lindos e que eu naõ tinha registro das tantas traquinagens que faziam.
    Imagino como ficou a mãe dos pestinhas e também D. Rosinha, cheia de orgulho do seu
    impactante trabalho. Mas o que mais gostei mesmo foi dos comentários dos pestinhas que se divertem ainda hoje com essa boa história/estória. Bj, terraqueAna

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  9. Parabens pelo blog...
    Flutuei o bastante por hoje...
    li coisas boas e passei por lugars lindos...
    Beijo
    Leca

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  10. Meu lindo,

    Sensacional. Não consigo parar de rir porque ouço você contando isso.

    90% de chance de ir pra Londres em abril. Vamos encontrar?

    M.

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  11. Terraqueana,
    Obrigado pelo elogio aos pestinhas.Nos eramos terriveis (teclado alemao nao acho os sinais).

    Leca, bem vinda ao Terraqueo. Fiquei super contente com a sua mensagem. Volte sempre.

    M,
    Na pascoa estarei em Instalbul, mas se for nos outros fins de semana te encontro em Londres na certa.

    Beijos,

    Terraqueo

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  12. Realmente incrível, é possível a gente se sentir observando a cena dos "irmãos pestinhas". Adorei.
    bj
    Margot

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  13. Querida Margot,

    Espero que você tenha se divertido.

    Beijos,

    Terráqueo

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