sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Reunião - De Silvestre Gavinha - Marie

"Reunião
Ela acabou de falar e olhou ao redor para saborear o efeito que suas idéias produziram.
Levantou seus grandes olhos morenos, as grossas sobrancelhas ainda tensas do esforço de manter o foco só no que estava falando.
Finalmente rendeu-se e procurou o olhar dele.
Como esperava, encontrou: aprovação, um traço de diversão, e aquela admiração que lhe proporcionava um gozo íntimo e particular indizível.

Sorriu.

Arrependeu-se naquele momento de ter arrumado os longos cabelos negros em um coque no alto, o que lhe dava um ar mais adulto, mas que agora a impedia de jogá-los para trás causando aquele certo impacto sensual feminino (quantas manhas e artimanhas contam as mulheres??) Teve que se contentar em enrolar os raros fios que deixara pendentes nas têmporas.

Cruzou os braços e ateve sua atenção ao assunto discutido, agora por outro colega.

Vã tentativa.

Adivinhou o olhar dele procurando o dela.

Para ambos a reunião havia acabado. Ela já dissera tudo que nescessitava ser dito.
O colega delongava-se em redundâncias do já ouvido.
Não, não iriam comprar a nova sede para a associação, iriam reformar, ou antes, restaurar a antiga. O casarão velho e charmoso do final do século, que sabia tantos momentos seus.

Manteve o olhar nas anotações rabiscadas em sua agenda. Mas sabia o dele a perscrutá-la.
Agora ele daria um suspiro calmo e adequadamente encerraria a reunião que finalizara da exata maneira que ele predissera, até porque era a forma mais coerente.
E era sempre assim.

O que sucederia então???
Aquele nervoso momento inevitavelmente se apresentava.
Nunca sabia se levantava e saía ou esperava.
Não conseguia pensar, decidir.
Às vezes acabava por tomar a atitude errada.
Na dúvida, aguardou. A respiração quase suspensa...
Os outros já iam saindo. Onde estava ele???

Viu-o descendo as escadas conversando com uma das moças.
Só restara ela ali.
Resistiu um pouco à maldita ansiedade e foi descendo os degraus até a ante-sala.
Apagou a luz do hall e estava fechando a porta quando ele apareceu novamente e disse-lhe que esperasse um pouco.
Estava por trás dela com o braço por sobre seu ombro empurrando gentilmente a porta, de forma que seu cheiro a invadiu de imediato a acendendo.
Céus!! Aquele homem a desconcertava sempre.

_ Vamos conversar. _ ele pediu.
Olhou-o. Olharam-se.
Um homem. Senso latu e estricto.
Experiência, charme, poder, inteligência sedução. Um ar propositadamente casual, cabelos longos com fundas entradas na testa, dando-lhe uma certa sobriedade. Toda uma vida anterior a ela, compromissos, posição, propriedade.
Ali: Um homem.
Ela quase uma menina, o que o seduzia.
Sem dúvida uma mulher, o que o intrigava e enlouquecia.
Juntos, mergulhando em olhares, um e outro tinham a idade do tempo.
Naquele instante, o tempo inexistia.

Abraçou-a de modo terno e então começou a beijá-la intensa e apaixonadamente.
Rápido foi lhe tirando a roupa e quando deu por si estava em cima da mesa recebendo-o inteira num frenesi delicioso. Ela perdia-se nele. Encontrava-se e tornava a perder-se. Submergia em seus afagos, estremecia em sua língua, que explorava pontos infinitos de sua feminilidade. Enredava-se em seus cabelos e aspirava o sensual perfume que produziam na alquimia de seus corpos em êxtase.
Embalava-se na sensação de tê-lo em seu âmago e perdê-lo entre os dedos e lábios, escorregando no gozo.
A pequena mesa gemia suas carícias. A luz da rua despejava em tudo uma atmosfera de fatalidade.
A mesa não resistiria mais.

Em sua cabeça ecoava um velho poema...
Rêves du matin,
que un jour a cette plage
le soleil nous reveille
y avec son rayon
touche les nuages
y nous invite
de promêner loin
tout seul
main dans la main
ce chemin infinit,
sur les sables rouges et gris.
Não lembrava o autor, mas exibiu-se recitando para ele que sorriu doce e elogiou seu francês.

Ela era feliz.
Morreria depois, inúmeras vezes.
A cada reunião, a cada encontro, a cada final de semana sabendo-o eu sua vida, que não era a dela.
Agora era completa. Era mulher.
Amante! Amada! Deliciada!

Foi juntando suas peças e ventindo-se sob o olhar acariciante dele.
Disfarçava a angústia da despedida próxima, fazendo comentários cáusticos sobre as desigualdades entre homem e mulher.
Ele ria.
Beijou-a novamente e saíram juntos para a neblina.
Seguiam caminhos diversos, vidas próprias.
Até o próximo momento de paixão."


Algum lugar entre 1993/1995.
Poema: Numa aquarela da praia do Frances em Maceió, as palavras de um alemão embevecido com as praias e as meninas brasileiras. Jan/1982.

2 comentários:

  1. Meu krido Terraqueo,
    quanta honra me dás publicando meu texto. Relendo-o assim em "terra alheia", encontro um distanciamento para observar de forma nova, velhos aspectos. Inclusive os erros de digitação, que deveria ir já arrumar.
    Obrigada.
    Um grande beijo.
    Marie

    ResponderExcluir
  2. Marie,

    Adoro o teu texto. Super inteligente e realista. Consigo ver as cenas e me colocar no lugar dos teus personagens. Obrigado por ter permitido. Publiquei teu comentário ontem, mas não sei em que postagem ele está. Um grande beijo,

    Terráqueo

    ResponderExcluir

Encontrei seres