terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A reunião

Ela era um enfermeira e tanto. Pequena, branquíssima, com os cabelos bem curtos e escuros. Seus olhos desproporcionalmente grandes, com cílios extremamente separados, faziam com que ela parecesse uma rechonchuda boneca de porcelana, cujo irmão malvado de uma pobre menina tivesse cortado o cabelo. Era uma criatura bizarra, lembrava a paranormal de Poltergeist. A voz sussurrada e ao mesmo tempo aguda, com um sotaque fortíssimo do sul do Brasil, era algo que agradava, dava vontade de rir. No primeiro momento que ele a viu sua reação inicial foi de empatia por aquele ser tão peculiar. Os estranhos sem identificam. Ela também gostou dele imediatamente. Diria até que ela se apaixonou na hora. Lhe falou que ele era igual ao pai, mas ainda mais bonito. Ele percebeu e achou graça. Também havia nessa reunião um outro ser muito especial. Uma mulher com grande cultura e personalidade marcante que surpreendia quando menos se esperava. Parecia uma chinesa, com uma pele branquíssima que disfarçava a idade já avançada. Era uma pessoa generosa, capaz de perdoar o desamor e o desprezo de alguém para quem a vida toda havia sido tão boa, e que faria qualquer coisa para diminuir o sofrimento do irmão. Sobre a cama, jazia o elo de ligação dessas pessoas, mantido vivo através de tubos e sondas que lhe atravessavam o corpo inteiro. Suas palavras eram difíceis de compreender, embora fosse óbvio para todos que ele estava consciente e que sabia como médico que era uma questão de tempo. Com muito esforço, o morto vivo tentava retirar a sonda que entrava pelo nariz e descia goela abaixo lhe impedindo de falar. O filho ateu pensava sobre a maldade e hipocrisia dos médicos e dos familiares, que em nome de um prolongamento inútil da vida o impediam de ter uma morte digna, de ter algum controle sobre seus últimos momentos. Pensava ele que até aos animais é dado um destino melhor. Mas quem sabe ele estivesse errado, Deus existisse e o seu pai merecesse aquilo tudo para chegar ao céu livre de qualquer pecado. Estivesse finalmente resgatando as suas dívidas. Lembrou que tantas vezes o pai dissera que os filhos eram dívidas de outra encarnação. Vai ver nessa última vida o pai também não tivesse agradado a Deus o suficiente. Tivesse ainda mais dívidas para resgatar. Mas doía ver que nem se despedir o pobre diabo podia. E sem dúvida havia muitas coisas que o velho precisava dizer. Ele havia falhado com os seus e ele sabia disso. Seu olhar também mostrava o pavor, o medo da morte, a negação de uma fé exacerbada que muitas vezes fora usada para torturar seus entes mais queridos e justificar as atitudes mais preconceituosas e injustas. Merecia o titulo de Santo de Pés de Barro, conferido por aquela que fora sua maior vitima e que muitos anos antes desistira de viver. Penalizado pela situação do pai, ele queria muito arrancar a sonda e deixar que ele morresse em paz. Mas não tinha coragem para tanto. Fora criticado por todos e pelo irmão quando disse que achava um absurdo aquela sonda torturadora. Parecia que até que ele havia sugerido um assassinato, quando apenas queria aliviar o sofrimento do moribundo. Seria na verdade um ato de amor. Não havia nesse desejo qualquer ligação com o enredo dos Irmãos Karamazov, sua leitura para passar o tempo quando não estava ao lado do pai. Alguns amigos do moribundo foram chegando, se despedindo, dizendo coisas bonitas. O filho praticamente não os conhecia, pois nos últimos anos a segunda mulher do moribundo havia brigado com todos os seus parentes e amigos de longa data. Essa mulher de cabelos crespos que lembravam os da Medusa, de olhar fundo, nariz esborrachado e corpo de pirâmide invertida, quando percebeu que ele iria ser hospitalizado para não mais voltar, lhe disse adeus e arrumou as malas. Não é que ela não gostasse dele. Mas ela não gostava de hospitais. Não ligou sequer para saber como ele estava, o que aliás foi um alivio para a família. Tinha também que ir decorar o apartamento novo comprado na capital. Assim, contava ele naquele momento com dois filhos um tanto distantes, a irmã, e algumas pessoas pagas para aturá-lo, dentre elas a estranha enfermeira. Quando ele irritadíssimo grunia alguma coisa e tentava retirar a sonda para permitir que suas cordas vocais cumprissem com suas funções, a estranha enfermeira pegava na mão do moribundo, e dizia com uma voz mediúnica: “Ele falou que está muito contente com a presença de todos.”. Olhava para a irmã, que fora uma das primeiras vitimas da Medusa, e dizia que “ele estava pedindo desculpas, que hoje ele sabe que a Medusa não prestava”. Para o filho ela dizia, “ele disse que está muito feliz com a sua presença.”. O pai ao ouvir tais impropérios olhava para o filho desesperado. Não bastasse ele não poder exprimir seus pensamentos, ainda havia uma doida a pôr palavras na sua boca. A irmã encantada com o que ouvia, enaltecia o talento da enfermeira em compreender a linguagem dos quase mudos. Seus olhos de chinesa sorriam de satisfação. Sugeria inclusive que a enfermeira deveria escrever um manual ensinando as pessoas a interpretar a linguagem dos que não podem mais falar. O tempo foi passando e algumas pessoas desconhecidas chegaram. O filho incomodado de ter que deixar o pai no quarto com a enfermeira os atende na antissala do quarto e pede que não cansem o moribundo que está muito mal. Permite evidentemente que eles dêem um último adeus. Ninguém tem coragem de dizer, mas era claro que estavam lá para dar a última benção de acordo com a religião do pai. O filho imediatamente percebeu o constrangimento, e fingindo ser católico disse: “Na minha religião chamamos um padre para dar a extrema unção, na religião de vocês não há nada que se possa fazer para confortá-lo? Ele fará sua última viagem sem ajuda alguma?”. Isso era tudo o que eles queriam ouvir. Pediram que ele ficasse na antissala para que pudessem com privacidade dar o último passe ao doente. Dessa forma, a irmã também religiosa e um educadíssimo senhor entraram no quarto e começaram suas orações. Na antissala, a enfermeira olhou para o filho e com um tom ainda mais agudo lhe disse: “Aquela mulher é louca! Louca!”. "Quem?", perguntou o filho surpreso. “A mulher do doutor”, respondeu. “Ela não queria que eu desse sequer comida pra ele. Queria que ele morresse de fome. Também queria que eu trabalhasse dia e noite, sem parar. Eu disse que não podia, pois se de noite eu cuido dos doentes, de dia eu trabalho na funerária. Deixo eles lindos, fiz curso de maquiladora de defuntos. Também retiro os órgãos e preparo o corpo. Agora vou fazer um curso de reconstrução de rostos para tratar das pessoas que morrem de acidente. Se vocês ainda não tem funerária, recomendo a nossa.". O filho teve vontade de gargalhar, mas a ocasião não permitiu. Ela seguiu dizendo que havia cuidado de muitos pacientes tanto em vida quanto em morte. Ajudava-os de uma certa forma a atravessar todas as fases do perecimento. Falou também que era uma profissional super discreta. Que já havia visto as coisas mais impressionantes nesses momentos, mas que ela era um tumulo. Não comentava com ninguém seus segredos profissionais. Que a professora Maximilia, que lecionava no antigo grupo escolar (“sabe quem é, não sabe?”), somente pôde morrer após fazer as pazes com a nora que havia sido tantas vezes massacrada por ela. "É importante que seu pai faça as pazes com a mulher do seu irmão, não acha?". Distraído pela literária enfermeira, o filho até esqueceu a tristeza do momento, e pensou que ela seria ótima para um conto. Logo após os amigos do além terem se retirado, o filho convidou a tia para jantar. Em frente ao hospital, ele escuta um grito estridente da tia, que como já se disse surpreendia, seguido de uma declaração fantástica: “Ai! Eu arrasei... Não sobrou pra ninguém. Dei um passe de filme. Coitado do Luiz. O que ele disse não foi nada perto das minhas palavras. Eu estava inspirada. Quase tive um êxtase!” Isso foi demais para ele. Começou a gargalhar na porta do hospital para o espanto de todos que o conheciam. Jamais tinha visto tamanha loucura reunida em um único dia. Parecia um filme do Almodóvar. Na manhã seguinte, contrariando todos os prognósticos o velho melhorou. Pôde assim se despedir da filha que chegara de viagem e finalmente dizer algumas palavras que apesar da sonda puderam ser compreendidas. Dois dias após, ele subiu.

14 comentários:

  1. Genial! Adorei! Ri muito. Apesar do extremo toque de realidade. Não é falta de respeito.
    Só não rodei a música. Com ela não aguento. Choro. Sei que ainda vou ouvir, mas primeiro deixa eu comentar.
    Um dia ainda vou contar a morte do meu pai. Eu não estava lá. Nem antes, nem depois. Nem fui no enterro. Quando escrevi sobre ele, num desabafo ou catarse, ou sei lá o quê, no dia dos pais, escrevi que meu pai foi a Falta. Posso nos mesmos termos escrever da sua morte.
    Agora, desculpa lá, mas acho que essa enfermeira faria um trabalho mais bonito no rosto do Fábio Júnior do que o cirurgião que o operou. Hihi. Desculpa, mas não consegui não pensar nisso. Sou terrivelmente má.
    Você está ÓTEMO!!!
    De verdade. Melhor a cada post.
    Beijo krido.
    Marie

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  2. Marie,
    Obrigado pelo apoio.
    Isso é pura ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos terá sido mera coincidência.
    Espero que você não chore é de tédio ou pena do Fabio Junior. Mas brincadeiras a parte, acho essa música linda. Lembro dela quando menino e que o meu pai também a adorava.

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  3. Esse, pra mim, é um dos traços da boa ficção. Parece real. Poderia ser. Nos faz sentir isso. Nos remete à nossa própria vida, e às vidas que poderíamos ter. Depois, quem já disse que tudo que se escreve, é sempre um pouco autobiográfico??
    Não podemos excluir o nosso mais secreto eu, nosso inconsciente quando escrevemos. Aliás, acho que é sempre ele que escreve, ou tenta.
    As vezes deixamos e somos sublimes. Ainda que terrível e grotescamente sublimes.
    Chorar pelo Fábio Júnior. Ahahaha... tadinho.
    Mas também acho essa música linda. Brega. Como outras dele e como ele. Mas me toca muito.
    Beijo
    Ps. Obrigada pelo comentário no meu quase não texto.
    Marie

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  4. Marie, eu gosto ainda mais de receber o comentário sobre o comentário do comentário. Quem sabe o que é criação e o que são memórias? As vezes disfarçamos, as vezes não. Será que temos realmente o poder da criação, ou somente somos observadores que gostam de contar as possíveis histórias? Será que tudo não passa passa a ser realidade depois de escrito, pelo menos para aqueles personagens? O melhor da festa é quando o inconsciente se torna consciente e jorra para fora. Sem medo dos outros, que como já expliquei nesse blog acredito que não existem. As vezes também fica complicado esse jogo entre ficção e a realidade. Algumas pessoas se magoam. Pensam que são os reais personagens. Por que será? Mas se não querem se identificar, não leiam o meu blog, pois estou dando um désolé geral.

    Beijos,

    Terráqueo

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  5. Bem, agora vai-se dizer que estou postando o comentário do comentario do comentário do comentário do comentário, só porque você disse que gosta.
    Mas eu também gosto.
    Aliás, sempre que comento volto para ver se houve réplica. Muitas vezes eu faço a réplica do comentário no meu blog, no blog de quem fez o mesmo (comentário) mas isso porque as vezes penso que a pessoa não vai voltar para ver se fiz isso ou não.
    E adorei sua última réplica.
    Essa discussão se somos ou não criadores, se nosso discurso é nosso ou não se temos consciência ou ascendência real sobre o que escrevemos (ou falamos, ou pensamos) é um bocado antiga. Tem uns caras que só fizeram pensar nisso. E escreveram de forma crítica ou de forma ficcional. Você já leu o " 6 personagens a procura de um autor", do Pirandello?? É uma peça de teatro que discute deliciosamente isto.
    Mas adiante. Tens razão também em defender. Tem gente que acha ruim se tornar personagem. Normalmente aqueles que na vida são apenas isso mesmo e em nivel muito secundário. Quem tem alguma noção de si mesmo tem consciência inclusive do seu lado risível ou idiossincrático. E é verdade. Quem não quer saber ou ver, que não leia. Embora eu ache que venham ler mesmo para se achar...
    Mas me escangalhei de rir com o teu: "estou dando um désolé geral". Adorei e já adotei. Na próxima oportunidade que tiver vou mandar o verbo.
    E voltando ao comentário do comentário, acho que é um blog mais ou menos disso que tua mana tá gestando. Um blog para todos. Um espaço disso. Não achas?
    Grande beijo
    Marie

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Li há muitos anos essa peça e adorei. No ano passado li do Pirandello o livro "Uno, nessumo, e centomila" que é uma brincadeira inteligentíssima com a percepção diferente de cada um sobre si e sobre os outros. Presente da mana. Quanto ao povo que vem se ler para se achar, isso é fantástico, rende uma boa crônica pelo menos. Acho que eles se lêem sim, mas não se acham. Para isso teriam que ter algum senso de direção. Sobre o blog em gestação, estou louco para saber mais, mas como ela está viajando fico esperando por mais, morrendo de saudades.
    Beijos,

    Terráqueo

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  8. E nāo acabou. Sou obrigada a continuar. Adoro o Piradello. O Uno, nessuno... achei genial desde as primeiras linhas. E claro, me senti completamente descoberta. Passei anos fazendo o que o cara passa a fazer, i é, tentar se surpreender no espelho para se ver com olhos isentos.
    Para há pouco tempo. No dia em que, fazendo isso, dei de cara com a minha mãe. Com quem nunca fui parecida, mem quis ou quero ser. E pior. Para ser mais exata no efeito sentido, dei de cara com a avó do meu filho. Foi chocante!!
    Mas serio, acho o Pirandello um gênio. Acho que ele é um tanto a contrapartida da Clarice. Ela tem a epifania. Ele tem o equivalente masculino disso. Eu chamaria do desvendar da cegueira trágica. Delois daquele momento chave, fica impossivel voltar à vida como ela era.
    Mas isso dá um livro de discussão. E prefiro a tua idéia do conto do cara que vai ler para se achar. Desenvolva.
    Quanto a querida Bípede, esperemos. Ela está na Bahia. Vai demorar.
    Beijos krido.
    Marie

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  9. Querido

    Adorei os comentários réplicas e tréplicas...
    Quando li o conto o que me ocorreu foi um pouco de Clarice "Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar a vida que não foi abençoada".bj Margot

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  10. Marie,

    A sacação foi tua, e eu sinto falta dos teus escritos. Já reli o teu blog várias vezes. Seja mais generosa com os teus leitores e publique com mais frequencia por favor. Enquanto isso, não me abandone. Amo teus comentários, especialmente quando são sobre outros comentários.

    Margot,

    Escrever é uma forma de psicanálise, em que liberamos os sentimentos, mas de alguma forma os deixamos para sempre registrados. Fica o registro. O certificado de existência dos mesmos. Escrever não tem no entanto o sigilo protetor e na maioria das vezes a contrapartida de um terapeuta experiente (às vezes tem), que ajuda a acelerar o caminho da cura. Acho que é prazeroso utilizar memórias e experiências próximas, para que nosso consciente não nos permita incorrer nas mesmas ciladas. Também para deixar registrado e público até aonde pode chegar a neurose e a fantasia de cada um. Sem dizer o prazer da criação e o afago no narcisismo pois quando os leitores são amigos, suas críticas tendem a ser generosas. Ficam piedosos quando o texto está ruim de mais.

    Beijos,

    Terráqueo

    P.S. As pessoas levam tão a sério o que eu escrevo que a suposta sobrinha indiscreta levou um pito pela pergunta que teria feito para a Titia personagem do conto anterior. Achei muita graça, quase morri de rir. Inacreditável.

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  11. darling, as vezes a ficção e a realidade são muito complementares, sofridas mas também cômicas para aqueles que não sabem onde elas se misturam um grande beijo com muitissímas saudades

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  12. Para aqueles que sabem aonde elas se misturam também pode ser cômica. A comédia ajuda a superar os dramas.

    Beijos,

    Terráqueo

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  13. Esse aqui ainda rende. A sacação foi nossa. Poderíamos fazer um exercício. Cada um desenvolve a sua maneira e depois comentamos. Que que achas?

    A ficção e a vida se misturam. Sempre. Ter noçāo disso e nāo se Levar tão a sério é a receita para só se precisar de terapia e não de camisa de força, física ou química.

    O cômico é a melhor saída para o trágico. É o traço do humano. A comicidade e o humorismo são essencialmente humanos.

    Te abandonar?? Estou é quase te monopolizando.

    Beijo krido.
    Marie

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  14. Seria interessante o exercício,mas tenho que buscarinspiração. Vou tentar nesse fim de semana. Beijos,

    Terráqueo

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Encontrei seres