segunda-feira, 8 de março de 2010

Cultura - Um segmento Preterido

Leiam por favor esse texto publicado na edição de 06/03/2010 da Zero Hora, jornal de maior repercussão em Porto Alegre, de autoria de Paulo Amaral. Essa análise sobre os caminhos da cultura, a responsabilidade do Estado e o papel e dos indivíduos está perfeita. Traduz o atual momento da cultura não só no Rio Grande do Sul, mas em todo o Brasil.

"Um segmento preterido
Autoridades da área da Cultura tomam decisões em nome de um bem que não lhes pertence, mas à coletividade
“Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido “ André Malraux

Cultura, entendida como expressão das artes, dos costumes e dos conhecimentos, é, antes de tudo, um bem indissociável da alma. Cultura e alma formam uma unidade. Não se trata a cultura de uma circunstância temporária, de algo que vem e que depois, sem percebermos, vai-se sem fazer falta, mas de uma imanência do homem. Desde sempre. É por força de tal premissa um campo do qual, em expressiva extensão, deve o Estado ocupar-se. Não como definidor de manifestações culturais que lhe agradem, ou que politicamente lhe sirvam. O Estado deve, isso sim, agir na condição de garantidor do equilíbrio de todas as expressões culturais autênticas, por meio de políticas capazes de identificar suas necessidades, sistematizá-las, coordená-las em programas de gestão e fomentar distributivamente o seu desenvolvimento.

Entretanto, o que se tem observado no Estado é a evidente falta de uma política cultural. Não se apresenta um eixo, a espinha dorsal de um projeto coerente que vise a resultados, principalmente os de longo prazo. A administração da cultura, que deveria se constituir ação de Estado, tornou-se fragilizada ao render-se, dócil e indefesa, ao poder de governo. Essa situação, por sua evidência, gerou um fato mais grave ainda: a apatia do público em relação a ela mesma, e a desesperança quanto a alguma expectativa próxima de mudança do status quo. É como se a consciência coletiva sobre tal apatia, anestesiada, desse lugar a um gesto de cansada resignação.

Num Estado fortemente politizado como o nosso, que em passado recente disputava postos na Cultura, esse fenômeno causa especial estranheza, ainda mais quando se vê que é nesta área vital ao fortalecimento do saber e do caráter do homem, é neste setor de onde poderia vir a solução de tantas mazelas de nossa sociedade, é justamente aí que a foice iconoclasta do orçamento do Estado ceifa os primeiros nacos, e depois, num ajuste final, as últimas migalhas.

Estamos falando de um sistema perverso, que não é só responsabilidade do Estado, mas também nossa, de nós outros que não temos discutido, que não temos nos manifestado com propostas construtivas, de nós que, quando muito, no limbo macio das omissões, apenas sussurramos como o fazia Robespierre pela boca do jovem brilhante e ingênuo Saint-Just. Terminaram ambos prestando contas à guilhotina.

Na esteira do pensamento de Cláudia Laitano, em “Carta Aberta ao Futuro Governador”, publicada em Zero Hora de 27 de fevereiro, eu arriscaria, num delírio utópico, propor que o titular da pasta da Cultura não se nomeasse por indicação exclusiva do próximo governador, mas que este o fosse colher, tal qual uma flor, no jardim da sensibilidade, no diálogo franco com entidades culturais organizadas (e há tantas), pois daí brotariam, para sua surpresa, nomes de pessoas de notório saber cultural. Aflorariam certezas de tradições que já tivemos, como uma Antonieta Barone, como um Barbosa Lessa, como um Luiz Pilla Vares, citando apenas alguns expoentes que já se foram, legando-nos, cada um a sua maneira, obras edificantes. Para cargos na Cultura, como escreve Cláudia Laitano, precisamos de homens que leiam, que vão ao teatro, que visitem museus, tudo isso e muito mais pela premente necessidade de alimentar o espírito e não a de se ajustar, comodamente, a composições políticas por vezes desconcertantes. As coisas da cultura deveriam dispensar a retórica do discurso vazio e produzir ações concretas. Res, non verba. Precisamos de gestores que tenham a coragem de se impor como líderes de uma causa transcendental e não como executores de um efêmero projeto quadrienal. As diretrizes da cultura têm de ser formuladas para um período de gerações. Procuramos pessoas que ousem convencer o burocrata do Tesouro que o povo governado não quer admitir para a cultura um minguado percentual de 0,5% do orçamento total do Estado, enquanto em outras unidades da federação este número que pode significar um referencial de dignidade alcança 3,5%.

E, se isso for impossível de ser mudado, desejamos que às administrações da Cultura seja assegurada a independência na tomada de decisões fundadas em nome de um bem que não lhes pertence, mas à coletividade. É tempo, futuro governador, de corrigir o rumo desse gigantesco navio chamado Cultura, esta Barca de Medusa que nos porta a todos.

PAULO CÉSAR B. DO AMARAL* | *Artista plástico, escritor

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2 comentários:

  1. O que esperar da atual secretária da cultura do RS? Longe dos preconceitos, mas qual a bagagem cultural dela? Que livros ela lê, que filmes ela vê, o que, afinal, ela gosta? O Guinter Axt escreveu hoje na ZH um artigo também sobre o mesmo assunto. A cultura no RS virou jogo de troca política e os políticos talvez saibam de tudo, mas uma coisa eles não sabem: de cultura.

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  2. O que chama atenção é que a governadora tem um bom nível cultural, poderia ter selecionado melhor.

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