quarta-feira, 17 de março de 2010

Mouse Burger

Não havia um único ensinamento do livro de auto-ajuda para conquistar um marido que a Mouse Burger dos pampas não soubesse de cor e salteado. Ela estava sempre com os longos cabelos negros escovados, as calças bem justas e marcadas, saltos bem altos e finos, e os olhos pintados com canetinha hidrocor. Miava com os homens e caminhava aonde quer que fosse com um rebolado de miss. Quanto às mulheres, odiava a todas. Estava convencida de que elas morriam de inveja e, segundo ela, era esse o motivo pelo qual há muitos anos não tinha convívio íntimo e regular com nenhuma amiga, nem mesmo com aquelas que foram colegas durante muitos anos na escola. Se alguma incauta ou incauto lhe dissesse alguma coisa, avançava com chutes, socos, tapas e mordidas, aonde quer que fosse, até mesmo no meio da rua. Faltava-lhe no entanto um emprego, e isso de acordo com o seu livro de cabeceira era essencial para demonstrar uma certa independência ao infeliz candidato a marido. Além disso, via em uma grande empresa a oportunidade de selecionar uma vítima com sucesso profissional. Mas arrumar um emprego quando se tem quase 30 anos e nenhuma experiência era algo bem mais difícil. Após diversas seleções em que fora reprovada, ela já estava entrando em desespero. Ela não era burra, foi na mesma livraria em que adquiriu sua bíblia sagrada, e comprou outros livros que lhe ensinaram como proceder em uma seleção para emprego. Tanto se esforçou que finalmente foi aprovada para uma vaga. O salário era pequeno, mas lá dentro eles reconheceriam seu imenso talento. No primeiro dia, acordou às seis da manhã, lavou os cabelos, fez uma demorada maquiagem, e estreiou uma roupa comprada especialmente para a ocasião, pois acreditava que a primeira impressão é a que fica. Ao chegar na empresa, lhe mostraram sua mesa em uma pequena sala a qual seria compartilhada por quatro pessoas. O primeiro a chegar foi uma decepção. Era gordinho e calvo. Para piorar, usava uma jaqueta de poliéster, uma camisa com a gola puidinha, uma calça preta um pouco desbotada, e um sapato com sola de borracha. Um verdadeiro desastre para os padrões de tão qualificada profissional. Uns cinco minutos após se apresentar para a moçoila, essa modesta criatura lhe pede que vá ao setor contábil e busque o livro caixa. O que? O que ele estava pensando? Aquele ser simplório lhe dar uma ordem desse nível. Que insulto. Que folgado, que colega aproveitador. Querendo jogar para ela suas atribuições. Mas ela não cairia nessa armadilha não. Esperta que era , sabia que se fizesse algo menor, ainda que em caráter de exceção, tal atividade viraria uma obrigação. Olhou para ele, franziu sua testa e disse: “Se quiser tal livro, vá lá e pegue você mesmo. Não sou sua empregada.”. Ele olhou para ela calmamente, sorriu e respondeu: “Desculpe, não quis ofendê-la. Por favor vá a sala ao lado e assine o seu aviso de dispensa. Você está demidita.”. Ela se levantou, balançou as longas madeixas, e foi embora. Claro que aquilo fora uma demonstração machista e autoritária, reflexo da impossibilidade dele ter uma mulher tão bonita quanto ela. Rapidamente concluiu que essas empresas privadas são sem graça mesmo, pagam mal para os candidatos a trouxa. Melhor seria tentar um cargo de confiança no setor público, se seu pai ajudasse é claro. Concurso era coisa de mulher feia que precisa estudar.


7 comentários:

  1. Mas que tipinho ordinário essa mouse burger.

    ResponderExcluir
  2. Até que enfim encontrou tempo para escrever. A vida social deve estar intensa com uma visita tão curta e com tantas coisas para fazer e pessoas para ver, eu imagino. É sempre um prazer ler seus textos e com este não foi diferente.

    ResponderExcluir
  3. Bípede,

    Bota tipo ordinário nisso.

    Lúcia,

    É impressionante o número de compromissos afetivos. Acordo às 8h e durmo as duas da madrugada todos os dias. Muito bom, mas bota cansativo. Obrigado pelo elogio ao texto.

    Bjs.,

    Terráqueo

    ResponderExcluir
  4. Pobre mouse burguer se ela tivesse prestado atenção talvez pudesse compreender que afetos verdadeiros independem de dinheiro, mas com uma visão tão equivocada certamente ela deve ter seguido pela vida jogando fora os poucos que lhe restaram

    ResponderExcluir
  5. prezado terraqueo passeando pelo universo descobri com grande divertimento seu inteligente blog, essa mouse burguer é um tipinho comum e interesseiro como tantos por ai e o carequinha que ela subestimou fez muito bem, só deu uma pena danada do incauto pai, coitado

    ResponderExcluir
  6. Darling,

    O mundo está cheio de Mouse Burgers. Imagino várias lendo esse post e ficando furiosas.


    Assis,

    Obrigado pela visita, volte sempre.

    ResponderExcluir
  7. darling o que restará a mouse burguer quando ela expulsar todos os afetos verdadeiros sinceros e desinteressados que a sorte e a vida lhe deram será que ela vai reconhecer que teve o que mereceu, pobre mouse burguer pobre, pobre ad infinitum

    ResponderExcluir

Encontrei seres