quarta-feira, 24 de março de 2010

Paraíba

Nada escapava aos olhos, ouvidos e à narração da pequena Paraíba. Mesmo com o primeiro grau incompleto, dera um jeito de morar em um charmoso edifício de conjugados em Ipanema com vista para o mar e para o Cristo, e em pouco tempo tornara-se a síndica. Não era feia também. Pele clara, olhos redondos e escuros, tinha um bonito sorriso e uma aparência jovial para uma mulher pouco cuidada na casa dos 40. Era bem resolvida amorosamente, há um bom tempo namorava um homem bem mais velho. Para pagar suas contas, trabalhava durante o dia como secretária em Copacabana e fazia faxinas nos apartamentos dos vizinhos. Mas ela não se limitava a isso. Gostava de redecorar a casa de seus clientes, comprando os mais vistosos utensílios plásticos que se pode imaginar. Seu forte, no entanto, eram os conselhos sentimentais que ela distribuía generosamente. Para corroborar suas posições, contava sempre os problemas dos outros vizinhos que infelizmente não seguiram sua orientação e que por isso estavam na pior. Dentre os seus preferidos estavam Eduardo, morador do segundo andar, sua vizinha de porta que era uma linda vendedora de uma boutique, e a arquiteta moderninha do terceiro andar. Ela haveria de casar seu queridinho com uma dessas duas. Ainda mais que ela detestava a esnobe e barulhenta namorada do Eduardo, que segundo ela fizera que com eles fossem conhecidos pelos demais moradores como o casal “geme-geme”. Ela lhe contou que demorou horas para acalmar a crente do apartamento de cima que ficava nervosa com os barulhos noturnos. Pediu-lhe então que fossem um pouco mais “silenciosos”. Mas ela sabia como acabar com esse problema. Ela lhe apresentaria a vendedora, que pela cara de boa moça do interior não deveria fazer barulho algum. Decepção total. Eduardo não se interessou. Embora bonita, ela tinha um jeito de burrinha. Ele preferiu continuar com sua namorada, até que em uma noite ele abriu a porta do edifício para um engravatado com um vaso de flores que continuou a subir a escada. Foi o tempo do Eduardo entrar no seu apartamento, tirar o terno e abrir a janela, para ele ver o engravatado saindo do edifício esbaforido, e o vaso de flores caindo do terceiro andar quase na cabeça do pobre coitado. Ele adorou. Parecia cena de cinema. Quem seria a autora de tão transloucada atitude? Perguntou para a Paraíba, que lhe contou tim tim por tim tim. Foi a charmosa arquiteta que após ter sido enganada, estava fazendo o namorado penar. Poucos dias depois, Eduardo encontra a arquiteta no corredor que, ao ver uma cadeira modernosa em seu apartamento, lhe pediu para entrar e olhar melhor. Como a mudança de Eduardo estava ainda parcialmente encaixotada, ela prontificou-se para arrumar o apartamento e naquela noite mesma colocou tudo em seu lugar. Dali por diante, estabeleceram uma grande amizade, e em pouco tempo a arquiteta ensinou o caminho das pedras para a furiosa ex-namorada de Eduardo (“É simples, vai até a praia, caminha em direção do Arpoador, sobe no rochedo, e se atira querida”). Embora não namorassem oficialmente, pois ela ainda estava as voltas com o ex, estavam sempre próximos e confidenciavam tudo um ao outro. Uma certa noite, no entanto, o edifício inteiro acorda com os gritos das vizinhas do apartamento térreo de fundos. “Ladrão, ladrão, socorro!”. A Paraíba logo gritou: “Fiquem nos seus apartamentos, ele está armado. Acabou de sair o apartamento das meninas do primeiro andar e foi para o apartamento do Eduardo.”. Ao ouvir isso, a arquiteta moderninha se desesperou. Pensou que o bandido estivesse no apartamento do seu amigo, e começou a gritar para saber se ele estava bem. Foi então que Eduardo lhe telefonou e disse que se acalmasse. Que o bandido deveria estar no apartamento de um outro morador com o mesmo nome. Falou que ela não abrisse a porta e ficasse abaixada, pois a polícia e os vizinhos do lado começaram a atirar para dentro do edifício para pegar o bandido. A Paraíba berrou para todos: “O bandido está no patiozinho do apartamento do Edu cabeleireiro.”. O cabeleireiro e seu companheiro se desesperaram, começaram a berrar, ainda mais histéricos do que as meninas. O bandido apavorado com os tiros da polícia e dos vizinhos para o corredor de entrada do edifício subiu pela escada até a porta de Eduardo. Como não conseguiu arrombar a porta, ele quebrou a janela basculante da lateral do edifício com e extintor do corredor, e fez com a mangueira de incêndio uma corda para descer do segundo andar para a rua. A polícia vendo que o bandido estava na realidade desarmado, parou de atirar. Após o camburão da polícia ter saído com o meliante, os moradores todos desceram. Outros dois policiais resolveram revistar os apartamentos para saber se havia algum ferido ou morto. Suspense geral. Quem seria a vítima? Quando a polícia entrou, a Paraíba disse: “Aposto que foi a piranha do 305 que trouxe esse sujeito para cá.”. Uns quinze minutos depois todos são novamente sacudidos pelo barulho de uma ambulância que leva a moça do 305 inconsciente, para o deleite da Paraíba que mostrava no rosto um indisfarçável sorriso com cara de “eu não disse?”. Às sete da manhã, o edifício finalmente se acalmou e todos seguiram com suas vidas. À tardinha, como para que saudar todos os moradores e assegurar que tudo voltara o normal, a Paraíba estava na porta do edifício a explicar o ocorrido e a mostrar os furos das balas na porta e nas paredes. Ele não era um ladrão. Era um estrangeiro, diretor de uma multinacional que achou que a GP (garota de programa) havia morrido de overdose, e resolveu sair pela janela, deixando a porta trancada por dentro para evitar complicações, mas que infelizmente fora visto pelas meninas do térreo e confundido com um ladrão. Tudo não passara de um quase fatal engano. Anos depois, Eduardo encontra a arquiteta na rua e eles vão almoçar. Ela lhe conta que acabara de se divorciar do mesmo ex-namorado, e que a Paraíba havia se casado com um velho ricaço, que estava muito bem obrigada. Um merecido final feliz, pelo menos para a batalhadora Paraíba.

Glossário para os portugueses: Paraíba é um dos mais pobres Estados do Nordeste brasileiro e também o apelido dos imigrantes nordestinos no Rio de Janeiro.
Arpoador é um penhasco na praia de Ipanema.

6 comentários:

  1. Mulher forte essa...
    Arretada...
    adoro a música...
    adoro Luiz Gonzaga...
    parabéns...pelo texto...
    beijo
    Leca

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  2. parabens pelas belas palavras.

    abraço

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  3. Obrigado a todso pelas mensagens.
    Celso, volte sempre. Fiquei impressionado com o teu blog.

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  4. Darling sobre essa paraiba só me resta dizer''pois então" um grande beijo

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