terça-feira, 13 de abril de 2010

Férias perfeitas

Eduardo foi surpreendido com a ligação de seus amigos avisando que estariam vindo do Brasil para visitá-lo na Suíça e aproveitar também as últimas semanas de neve para esquiar. Eram amigos de longa data, sendo que Eduardo crescera com ela e eram praticamente irmãos, tamanha a amizade. O casal parecia saído de um filme, representavam com perfeição o Sonho Americano. Eram bonitos, tinham dois filhos adoráveis, sucesso profissional, uma linda casa, educados e viajados. Ela era de uma beleza impressionante, loira, olhos verdes, uma pele perfeita, chamava atenção por onde passasse. Era comum ver as pessoas olhando para ela boquiabertas, mas ela jamais fizera a linha sedutora. Era refinada demais para fazer esse gênero. Vinha de uma tradicional e abastada família alemã, tendo sido criada para ser doce, meiga, recatada, discreta, boa mãe e boa esposa. Para a alegria de seus pais, ela era efetivamente tudo o que eles queriam e mais um pouco. O marido era bem sucedido, vigoroso, divertido, alegre, espontâneo e criativo. Ganhava a simpatia imediata de todos, com as histórias e narrativas que improvisava com a maior facilidade. Eduardo foi buscá-los no aeroporto e, após terem se instalado, saíram para passear pelo Lago Leman. No final da tarde foram para um luxuoso hotel, ouvir um pouco de jazz e tomar uns “drinks”. Eduardo ficou feliz ao ver que após 10 anos de casados eles continuavam felizes. Ela era extremamente carinhosa com o marido, olhava-o com adoração, sempre sorrindo. Ele em retribuição a abraçava com grande ternura. No dia seguinte foram para as montanhas. Como já era primavera, tiveram que escolher uma estação de ski muito alta em Chamonix, em que a maior parte da neve já havia se transformado em gelo. Mas isso não era problema. Todos os anos o casal passava uma semana nos Estados Unidos, Europa ou Argentina para praticar o esporte. A viagem até a França procedeu normalmente, com todos contando histórias, tirando fotos, ansiosos para chegar na montanha. Como Eduardo era iniciante, ficaria na pista mais fácil, enquanto o casal desceria a perigosíssima montanha. Ela tinha certeza que conseguiria fazer isso. Não descer a montanha seria lamentável, um ato de covardia. Mencionava que aquela pista na realidade não era tão difícil, somente impressionava pela altitude e pelos penhascos na borda. Se a pessoa não saísse do caminho seria fácil. A pista não passava de um “caminito”, como dizem os argentinos. O marido machão não ficava para trás, e jamais admitiria em público que não era tão bom esquiador quanto ela. Assim, passaram a manhã inteira esquiando na pista vermelha no alto da montanha, sendo que ao meio dia ela estava como saída do hotel, impecável, enquanto o marido já estava todo dolorido dos tombos que havia levado. Durante o almoço, ela externou novamente sua vontade de descer a segunda parte da montanha. Eduardo falou que não achava uma boa idéia, que do teleférico ele vira várias pessoas caindo e que, uma semana antes, 10 pessoas morreram ali perto em uma avalanche. Ela disse que não havia problema, que era só descer devagarinho. Eduardo combinou então de pegar o teleférico e tirar fotos do casal enquanto desciam. Dada a partida, Eduardo conseguiu tirar algumas fotos, mas ficou preocupado quando viu o amigo cair o primeiro tombo. Como o teleférico era mais rápido, perdeu-os de vista. Ao chegar no ponto de partida da estação, foi para o restaurante local, e ficou esperando o casal. Passado algum tempo, Eduardo começou a ficar preocupado, pois o percurso não deveria demorar mais do que 45 minutos. Sua apreensão aumentou quando ouviu o socorro subindo a montanha e um burburinho comentando que alguém havia despencado lá de cima, a uma altura de uns 1000 metros. Ele começou a suar frio, foi em busca de informações, mas ninguém sabia informar quem era. Tentou inutilmente o celular dos amigos, mas não havia resposta. Temeu pelo casal, e após uns 15 minutos ficou sabendo que era um homem. Torceu que não fosse seu amigo. Seria uma tragédia. Uma pessoa tão boa, com dois filhos pequenos, morrer em um acidente. Preocupou-se também com sua amiga. Estaria ela ferida, em estado de choque? Decidiu pensar positivo, repetindo como um mantra “O acidente não foi com eles. Devem ter parado para averiguar a cena. Logo estarão aqui.”. Foi quando Eduardo viu o pessoal do socorro chegar com ela no colo. Eduardo correu em pânico. Achou que ela estava morta, mas não, ela estava apenas desmaiada. Eduardo identificou-se como família e seguiram de ambulância para o hospital local. Medicada, ela informou que o marido não conseguiu fazer a curva e que acabou por cair no desfiladeiro. Contou que ele ainda ficou dependurado por um tempo, mas não teve como se segurar no gelo molhado e acabou escorregando pelo penhasco na frente dela, que tentava em vão alcançá-lo com uma corda improvisada com sua jaqueta de ski. Algumas testemunhas chegaram a vê-la tentando resgatá-lo que berrava apavorado. Os médicos decidiram sedá-la, pois estava visivelmente perturbada, chorando convulsivamente, ameaçando se matar. Coube ao Eduardo a triste tarefa de tomar as providências para o traslado do corpo e levá-la de volta ao Brasil. A repercussão nos jornais foi imensa, e vê-la abraçando os filhos pequenos na chegada, foi a cena mais triste que Eduardo vira em toda a sua vida. Eduardo voltou para a Suíça, e tentou sem sucesso esquecer o traumático acidente. Seis meses depois Eduardo volta ao Brasil e percebe que sua amiga era outra. Mantinha um distanciamento dele, uma frieza jamais imaginada. Eduardo entendeu que ele trazia recordações terríveis, e se afastou. Ficou sabendo, no entanto, que ela mudara com todos. Estava inclusive a negligenciar os filhos, que passaram a morar com os avós maternos. Ele achou que seria apenas uma fase, e que com o tratamento psicológico sua amiga voltaria a ser o que era. Mas ela era outra pessoa. Estava a usar roupas decotadas, e com uma atitude misteriosa extremamente sensual e ousada. Eduardo não entendeu essa mudança, e francamente não gostou do que viu. Casualmente, meses depois, ele a encontrou no aeroporto internacional de São Paulo, e lhe perguntou para onde ela iria. Ela contou que estava tentando recuperar a alegria de viver, e que decidira ir para o Caribe em busca do sol e do mar. Que não queria ir para lugar algum que tivesse ido com o marido, pois as recordações seriam muito dolorosas. Dito isso, ela embarcou no avião em direção a Saint Barthelemy. Lá chegando hospedou-se em uma luxuosíssima “Villa” e alugou uma lancha. No deck do barco, segurando um “Champagne”, passou a gargalhar convulsivamente. Como fora fácil matá-lo. Bastou lhe dar um empurrãozinho acidental, para que ele saísse da pista e caísse para o penhasco. O estúpido do Eduardo fora o álibi perfeito. Comentara com todos como estavam felizes, como se amavam. Finalmente, com o seguro milionário, poderia ser ela mesma, sem ter que esperar a herança dos pais. Eles que criassem aquelas crianças manhosas. Ela queria ser livre, viver emoções, seduzir, falar alto, beber, transgredir, dançar até o amanhecer. Para terminar, fez um brinde ao seu marido, que até depois de morto continuava a servi-la, e ao tonto do Eduardo que se achava tão esperto, mas não via um centímetro na frente do seu nariz.

P.s.: Essa é uma obra de ficção, não tem nada a ver com a minha amiga da postagem anterior que ama o marido e que jamais faria qualquer maldade.

14 comentários:

  1. Interessante essa mistura da verdade e da ficção. A história real que de repente toma outros contornos e surpreende. Por isso o texto é surpreendente, inusitado e causa impacto.

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  2. Esta obra de ficção que não tem nada a ver com a sua amiga da postagem anterior está incrivelmente bem construída!

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  3. Frise-se, naõ tem nada a ver com ela.

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  4. E eu não a conheço como a palma da minha mão?

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  5. Fantástico, o texto captura, impossível parar de ler.
    bj
    Margot

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  6. Ainda bem que não tem nada a ver com ela, seria terrível ter uma amiga assim, tal falsa quanto o cabelo de Sheylla. rsrs

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  7. Margot,

    Obrigado, que bom que você gostou. Fiquei com medo que fosse um texto batido, do tipo loira linda com cara de inocente mata o marido e vai para o Caribe.

    Lucia,

    Achei interessante criar um personagem cuja primeira parte da história se confunde com a realidade, e então recriá-lo a antítese.

    Beijos,
    Terráqueo

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  8. Terráqueo, uma curiosidade: quando vc escreveu no texto da vida real "Se eu não a conhecesse bem, não soubesse que ela é apaixonada pelo marido, suspeitaria que ela estava interessada em receber um seguro de vida milionário.", você já estava com a história da ficção na cabeça? Ou somente depois, a partir desse pensamento, lhe ocorreu a ideia?

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  9. Eu já estava com a idéia, mas ainda não havia decidido. O marido fez durante a viagem a brincadeira do empurrãozinho e eu enxerguei o conto ali mesmo.

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  10. Adorei achei surpreendente e inusitado um grande beijo

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  11. Maravilha essa de misturar justo o post anterior, verdadeiro, com a ficção bem encaixada. Confesso que no princípio deu um friozinho na barriga.
    Muito bacana.

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  12. Ivone,

    Muito obrigado pela visita. Fico pensando que essa história poderia continuar. Logo depois ela poderia dar um jeito de matar o amigo também, pois ele começara a ficar desconfiado.

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  13. Querido Terráqueo,
    Vejo que encontrasses teu crime. Mas que perfeito. Com possibilidades de desdobramento e um grande fim inclusive para o teu personagem.
    Você está cada vez melhor.
    Tenho lido teus textos aqui e ali. Ando quieta. Como disse ao Storino, ando correndo muito de mim. Com um braço amarrado e uma perna manca. Vou treinando. Qualquer hora me enfrento.
    Tenho me ensaiado. Por enquanto só na minha cabeça. Uma hora volto a enche-los com meus escritos e comentários, agora ando tão locupletada que é difícil. Este vulcão de nome impossível, me encheu de fumaça e fica dentro de mim. Juro.
    Beijo enorme e obrigada pela visita e por lembrar.

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  14. Marie querida,
    Com um braço amarrado e uma perna manca a vida fica bem difícil. Mas isso tudo passa. Tome o seu tempo, e se fortaleça. Nos últimos anos passei por momentos bem difíceis também, mas a gente dá sempre a volta por cima. Um grande beijo, morro de saudades,

    Terráqueo

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