sexta-feira, 9 de abril de 2010

A princesa e o otário

- Vou sair hoje a noite com ela. Não posso acreditar que aceitou o meu convite. Uma princesa. Loira de verdade, tem os olhos azuis mais lindos que eu conheço. E tem uma classe, é elegante, inteligente, parece a Catherine Deneuve.
- Oi, entra, quero te mostrar minhas esculturas novas. O que você achou?
- Lindas, não sabia que você era tão talentosa. Você também toca piano?
- Sim, quer ouvir alguma coisa?
- Claro que sim.
-Vou tocar algo dos Beatles.
- Lindo, impressionante. Vamos, nossa reserva expirará às 10h, e a nossa mesa é de pista.
- Não conhecia esse lugar. Bastante sofisticado.
- Adoro essa música, vamos dançar?
- Eduardo, eu gosto muito de você, mas acho que devemos ser apenas amigos, ainda estou muito ligada ao meu ex-noivo.

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- Christina, há quanto tempo. Aonde você anda?
- Oi cara, acabo de voltar de Londres. Passei dez anos por lá, e agora tô de volta. Meu pai foi lá e me trouxe na marra. Para me consolar, me deu uma Ferrari. Como agora eu sou budista, eu vim aqui para meditar no templo.
- Eu moro aqui na frente, vamos lá em casa conversar um pouco. Tenho recordações tão boas de quando éramos jovens. Vamos lá um pouquinho.
- OK.
- Aceita um refrigerante, uma cerveja, uma água?
- Uma água. Eu sou budista e os budistas não bebem álcool.
- Um momentinho. Vou preparar um whisky para mim, se você não se importa.
- Claro, vai em frente.
- E você, o que foi que aconteceu nesses anos?
- Depois que o meu noivado terminou, eu mudei para Londres. Lá conheci um inglês muito doido, e aprontamos todas. Um dia ele cheirou muito, passou mal, e começou a me bater. Agora estou processando ele. O careta do meu pai foi lá e me obrigou a voltar. Minha madrasta se meteu comigo, mas eu dei um soco na cara dela, que ela apagou. Aprendeu a me respeitar. Depois comecei a namorar outro cara, e tô processando ele também.
- E agora, o que você está fazendo?
- Tenho feito ginástica, meditação e viajado para Punta. Meu pai me deu um apartamento em Punta e eu vou sempre com amigos. Isso aqui é muito chato para mim. Gosto de emoções fortes, de cidades internacionais. Me dá um golinho do seu Whisky?
- Claro, tome esse enquanto eu preparo um outro. Você está linda. Nunca deixei de pensar em você.
- Querido, tenho que te falar uma coisa, hoje em dia só transo com mulher, ou com gay, ou com homem muito bem dotado.
- Bem, isso aqui é suficiente para você?
- É, até que dá.
- Alô, foi tão bom ontem, vamos sair hoje a noite?
- Claro, passa aqui em casa às 10horas que eu quero te mostrar uma coisa diferente. Te iniciar nos meus mistérios. Vou te mostrar o meu eu mais íntimo.
- Fantástico o seu apartamento. Dá para ver a cidade toda.
- Vem aqui comigo, vou te mostrar o terraço.
- Lindo, mas quem sabe você desce do parapeito? É muito perigoso, você pode cair.
- Você sabe que a minha melhor amiga se jogou pela janela?
- Eu soube, pobre menina, ela era tão linda.
- Pois é, agora fico sonhando com ela o tempo todo. As pessoas achavam que éramos irmãs.
- Desce daí, não acho legal você ficar se equilibrando no parapeito. É muito alto, está ventando muito. Se você cair não sobrará nada.
- Não tenha medo, budistas não cometem suicídio.
- Eu sei, mas tropeçam e caem. Estou louco para que fazer a iniciação que você falou. Conhecer o teu eu mais íntimo.
- Está bem, vamos para o meu quarto. E aí? Não é maravilhoso o meu gonhonzon?
- Que gonhonzon?
- É aquele desenho dentro do altarzinho. Ele é o meu objeto de devoção e foi desenhado por um monge budista no Japão, especialmente para mim. Representa o meu eu mais íntimo, descreve a minha vida. Quando eu medito em frente dele, ele me mostra o caminho a seguir. Senta no chão e repete durante 30 minutos esse mantra que ele falará contigo também.
- Ah, legal, eu estava imaginando outra coisa. Vamos dançar?
- Só se for no Fim de Século.
- Para mim está bem. Vamos logo.
- Adoro a música nesse lugar.
- É, é bem legal, mas esse cheiro de maconha está me embrulhando o estômago.
- Como tu é careta cara. Se solta. Relaxa. Hum, olha só os peitos daquela guria. Ela está olhando para a gente. Me amarrei nela.
- Ela está olhando mesmo. Você topa uma brincadeira a três?
- Até topo, mas hoje eu quero ela só para mim. Outro dia pode ser...
- Está bem. Você quer que eu te deixe sozinha? Se importa se eu for embora?
- Fica tranqüilo cara, eu me viro bem. Outro dia a gente sai de novo.
- Tchau, a gente se fala...
- Você não sabe a fria que eu me meti. Achei que a doida ia se matar e eu iria acabar na cadeia, acusado de homicídio. Só fiquei tranqüilo quando demos boa noite pro porteiro do edifício dela, e a desovei em um lugar público, em frente aos seus amigos. Que alivio.

9 comentários:

  1. Muito tri. Na metade da década de 80, quando se ouvia The Cure, Smiths, Joy Division (antes do New Order) e os grupos brasileiros tipo Zero, Legião etc.. o "Fim de Século" era o canal em Porto Alegre.

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  2. Pelo o que eu leio no depósito, eu sabia que você iria gostar.

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  3. Bem, que febre... Ou talvez não, e não importa, porque o resultado é excelente. Adorei sobretudo o encadeamento - algo Woody Allen. Espero que estejas melhor.

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  4. Estrela, obrigado pela comparação. Ele é o meu ídolo.

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  5. Deliciosas histórias! Não consegui parar de ler e quando chegou o final eu queria mais. Bj.

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  6. Oi Darling adorei o teu texto, mas o que realmente me deixou feliz foi falar contigo ontem um grande beijo

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  7. Terráqueo...
    que imaginação você tem...
    Pra mim está bem Almodovariano...esse seu texto...bem digno aliás...
    Beijos
    Bom final de semana e...
    cuidado com as loiras

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  8. Darling,

    Eu também adorei falar contigo.

    Leca,

    Você me colocou nas nuvens com essa comparação. Woody Allen e o Almodovar são meus cineastas preferidos.

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