quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Pedalada de Cherie

Jamais esquecerei. A primeira vez que a vi foi como a visão de uma sereia. Lá vinha ela, de costas, com seu maiô vermelho, batendo pernas sob as àguas de março. Seu corpo – nossa, que loucura – era ao ponto. Como convinha às mulheres da geração 80, não era magro nem gordo. Muito menos musculoso ou siliconado, como os das andróides que fingem ser mulheres e soam falsas. Sua pele clara, ainda dourada pelo verão, iluminava a piscina...
De imediato, soube que estava enfeitiçado por aquela inacreditável mulher. Quase me afoguei. Mas o que fazer? Como abordá-la? Seria solteira ou casada? Sonhei ali mesmo enquanto nadava que seria maravilhoso sentir os seus lábios, o calor de seu corpo, o vigor de suas pernas.
Boa nadadora que era, passava por mim rapidamente, sem ao menos perceber que eu existia. Mas eu sabia que ela seria minha. Algo tinha que ser feito. Após 10 piscinas, parou na borda para descansar, retirando seus óculos e a touca de silicone. Exibia, assim, para mim, seus olhos verdes, que transpareciam uma alma ingênua e limpa, e seus cabelos louros caídos pelos ombros. Movido por uma incontrolável atração, nadei o mais rápido que pude até ela. Percebi que ela também me olhava. Meu coração disparou.
Não sei bem como e nem com que fôlego, falei que era meu primeiro dia de aula e que há muitos anos não nadava. Ela sorriu, me deu umas dicas sobre como alongar para não ficar dolorido, com a musculatura enrijecida e disse: Tchau e até mais!
Entorpecido, não consegui murmurar mais nada. Passei o final de semana inteiro me censurando e lamentando minha falta de expediente. Que demora até a próxima aula... Na segunda-feira, nem precisei do despertador. Pulei da cama e corri para a piscina. Mas nada da guria chegar. Isso era demais. Muito ruim. Fazer o que? Passei a nadar para matar o tempo e aplacar o desapontamento. Ela só havia se atrasado! Quando me viu, falou sorrindo: - E aí quiri (de querido), tudo lêga? Respondi, tudo bem. Como foi o fim de semana? – Na paz, ela complementou.
Nossa, que gracinha! Aquela beleza angelical e roubada de um filme da Metro era também uma remanescente de Woodstock. Que tempero... Ao final da aula, ficamos conversando por muito tempo. Chegamos até mesmo a chamar a atenção dos demais colegas e das senhoras da hidro-ginástica que nos olhavam e cochichavam. Era questão de tempo. Nós dois sabíamos que estaríamos juntos.
Com a confiança restabelecida, esperei até o sábado para convidá-la para sair. Fiz o Kit sedução completo: bom bar, música ao vivo e muito champagne. Ao embalo de La Vie en Rose, em pleno Café Concerto, foi maravilhosos tragar o sabor de seus lábios. Que encantamento, essa mulher era perfeita.
Ela também estava apaixonada, contou-me que havia terminado um namoro de muitos anos porque seu namorado não suportava suas gírias. Mas que caretice, afinal ela havia estudado no Rosário, depois na UFRGS e, agora, fazia “Fono” no AMERICANO. Que otário, que babaca, que preconceito.
Passamos a nos ver todos os dias. Estávamos enamorados e na maior paz. Meus amigos tinham que conhecê-la. Morram de inveja!!
Mas que ocasião perfeita. Uma amiga da época da faculdade convidava-me para seu aniversário a ser comemorado em grande estilo. Confirmei nossa presença, avisando-a que seria uma festa formal, requintada, mas mesmo assim alegre. Ela não fez por menos. Vestiu uma roupa linda, branca e leve. Era uma miragem. Quando chegamos foi um impacto. Ela resplandecia.
Minha amiga nos deu as boas vindas, iniciando as apresentações. Desembargadores, procuradores, empresários e socialites. Só dava ela na festa. Que orgulho! Ela gostou. Olhava para a vista do apartamento, seus quadros e esculturas encantada. E que festa! Os garçons sempre atentos, a prataria brilhando, excelente bebidas e canapés. Ela, que não era mesquinha, sabia como retribuir uma boa acolhida e assim o fez em alto e bom tom bonfiniano: - Teu apê é do peru!! Que lêga!!
Foi um choque. Um entrevero de olhares. Uma surpresa geral... Não falei nada na hora, mas aquilo me aborreceu. Já havia percebido que era uma pessoa de poucas luzes, mas isso era demais até mesmo para ela. Passei, então, a virar um chato, corrigindo-a cada vez que falava um “cara” e um “só”. Até mesmo um “na paz”, outrora música para meus ouvidos. Era hora de fazer uma “devolú”, uma devolução. Como fazer?
Como se o destino conspirasse contra o nosso romance, uma série de acontecimentos trágicos em nossas famílias nos afastaram, obrigando-me a viajar durante um ano para a serra todos os finais de semana. Os contratempos foram tamanhos que nunca retornei suas ligações.
Passado meu inferno particular, vejo aquela visão entrar no cinema que, sem me reconhecer, acabou por sentar ao meu lado. Que coincidência! Que saudades! O filme, pasmem, era O Contato. Nossos corações dispararam de alegria ao encontrar dos olhos. Ela chegou a esquecer a mágoa e a tristeza pelo meu desaparecimento.
Expliquei-lhe que havia perdido cinco pessoas queridas. Ela me ganhou, dizendo que no mesmo período perdera seis. Que dramalhão mexicano! Isso não combinava conosco. Terminado o cinema fomos para minha casa, tomamos champagne, nos beijamos... Voltara a paixão. Para mim, ela era perfeita de novo. Nossa como pude perdê-la, ser tão tolo? Convidei-a para viajar para a praia. Ele topou na hora. Imediatamente, iniciei os preparativos. Liguei para a zeladora e encomendei uma faxina. Quero tudo impecável, falei em um tom confiante e determinado. Ah, eu era o cara, e ela estava de novo na minha! Vai ser gostoso assim lá em casa, pensei.
Depois da minha sumida, sem qualquer desculpa, ela caía em meus braços. Telefonei para meus amigos e desfiz uma série de compromissos agendados. Contei aos mais chegados, lembram da “quiri”, pois saibam que está de volta. Como me vangloriei...
Chegada a grande data, a procurei todo manhoso, com aquela voz a la Antônio Fagundes (aprendida em curso de teatro), perguntando se ela estava pronta. Ela, que havia se sofisticado durante esse ano, pronunciou em rebuscado francês: - Chéri, vou ter que pedalar esse fim de semana.
Pedalar, como assim? Eu sequer sabia que ela tinha uma bicicleta, mas fingindo não estar arrasado perguntei: - Mas você vai participar de algum evento, algum Triatlon?
- Não Chéri, vou ter que te pedalar!
Eu pedalado? Logo eu que me matava de rir ao ver os empregados de uma empresa em que trabalhei usarem essa expressão chula e simplória. Sim, isso mesmo, Cherie não mais me queria. Havia passado, e o que é pior, eu era o passado.
Hoje, sei que jamais esquecerei Cherie e que continuarei a ouvir, cada vez que passar no Bomfa, sua voz a me dizer: - Chéri, vou ter que te pedalar.

09 de julho de 1998

9 comentários:

  1. Darling lembro dela era realmente uma princesa, mas que desaforo te pedalar, logo você que sempre foi um principe, um beijo.

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  2. Não conhecia essa gíria... Adoro andar de bicicleta, mas pedalar alguém é algo inusitado. Eu pedalo, tu pedalas, eles pedalam... que palavra engraçada!

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  3. Darling,

    Há quem me ache um sapo.

    Lucia,
    Imagine então ser pedalado....

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  4. Uma história deliciosa. Realmente há coisas difíceis de combinar, como essas expressoes "chulas" na boca de uma princesa (ou príncipe). E coisas que inicialmente nos parecem encantadoras, talvez de diferentes que sao para nós, podem tornar-se afinal um problema. Pena que apesar de ultrapassado esse problema, o final história tenha sido tao irónico (ainda assim, desculpe-me, mas com muita graça!).

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  5. Darling, é total e completamente impossível que alguém te ache um sapo, só se for cego ou cega ou não tiver nenhum senso estético, a Bipede me entregou hoje as fotos muito obrigada um grande beijo.

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  6. Que atire a primeira pedra aquele que nunca sofreu um pedalada!

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  7. Estou aqui matutando, quebrando a cabeça, para tentar descobrir quem era essa cherie.

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  8. Você não a conheceu. Ela foi a guria mais linda com quem eu já saí.

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Encontrei seres