quarta-feira, 30 de junho de 2010

Deus não gosta de pobre

Uma amiga tentara lhe convencer que Deus não gosta de pobre. Que se gostasse, não destinaria aos pobres as piores mazelas. Corroborava sua teoria afirmando que quando ocorre uma enchente são os pobres que perdem tudo, quando dá uma chuvarada são os pobres que são soterrados, que quando dá um terremoto são os pobres que se ferram de novo, que quando há uma explosão geralmente são os pobres que se ferem, etc., e que por esse motivo – Deus não gosta de pobre – deveríamos enganar a Deus jamais se queixando de pobreza, estando sempre bem vestidos, morando em bons endereços, com a cabeça erguida não importa quão por baixo estejamos. Contava que no dia que se separou do marido, falou que a única coisa que ele tinha a mais do que ela era dinheiro, que ele lhe respondeu que disso ela iria sentir muita falta, e que de fato ele tinha razão. Concluía seu arrazoado mencionando que quando viu que iria ficar duríssima, foi a um Leilão de artes e arrematou algumas peças para que Deus ficasse em dúvida quanto ao seu estado de pobreza e não a castigasse ainda mais. Depois disso, Deus passou a olhá-la novamente com simpatia e ela ganhou, na justiça, o reajuste de uma pensão mensal vitalícia deixada por seu pai, que lhe salvou da bancarrota. Eduardo argumentava que essa sua teoria era furada. Que tudo não passava de uma engraçada coincidência. Primeiro, porque é impossível a existência de um ser que criou tudo e a todos, que tudo sabe, tudo vê, e que no dia do juízo final nos julgará inclemente. Segundo, porque mesmo que Deus existisse, seria injusto dizer que ele não gosta apenas dos pobres. Se Deus foi o criador do mundo, ele não gosta de ninguém, pois maltrata todos os seres do planeta. Todos temos perdas irreparáveis, insucessos, ricos e pobres sofrem com doenças, com a perda dos seus entes queridos, de seus amores, e são invariavelmente humilhados dentro ou fora de casa. Essa teoria, embora divertida, não teria o menor fundamento. O fato é que mesmo sendo ateu, aquilo ficou martelando na cabeça de Eduardo, que depois de uma sucessão de bordoadas e fracassos achou melhor se garantir e não provocar ainda mais a ira de Deus, caso ele existisse. Como as coisas no Brasil não estavam dando certo, decidiu ir para o país com a maior concentração de ricos do planeta, a Suíça. Ele já havia morado em Genebra, e lembrava que havia sido um tempo feliz. Assim, arrumou um contrato por 6 meses naquelas terras, juntou seus caraminguás e dessa vez rumou para Lausanne. Mesmo estando bem arrumado, parece que Deus desconfiou que ele não era um deles, e passou a pregar-lhe peças. Ao chegar, quase foi deportado pois a despachante suíça encarregada de seus papéis esquecera de anexar sua certidão de nascimento. Somente escapou da deportação porque como já havia morado lá, conseguiu, depois de muita conversa, convencer a funcionária da imigração de que esse documento já constava em seus arquivos. Teve sorte de principiante ao informar que era agnóstico, pois se tivesse informado na imigração que era católico, protestante, macumbeiro ou o que quer que fosse, teria o dízimo recolhido de seu parco contra-cheque todos os meses. Passados alguns dias, ao abrir o elevador quebrou o vidro da porta. Ele não entendeu como isso seria possível pois não havia esbarrado em nada, havia apenas puxado a porta. Mesmo assim, procurou a administradora do imóvel e pediu que lhe enviassem a conta. Chegou a ficar envergonhado, sentindo-se quase um troglodita tupiniquim que nem uma porta de elevador sabe abrir. Dois dias depois o vidro estava trocado, mas no terceiro já estava quebrado novamente. Foi quando Eduardo percebeu que o problema era o vidro fininho de quinta categoria. Como estava se sentindo solitário, resolveu fazer ginástica na melhor academia da cidade. Ficou impressionadíssimo. Coisa de primeiro mundo. A academia ficava em um pequeno “Shopping Center”, e contava com várias salas de ginástica, saunas que mudavam de cores e reproduziam o barulho das florestas, áreas de descanso, e com um complexo de piscinas de bolhas. Além da enorme piscina em que bolhas saiam das laterais, gerando uma corrente, ainda havia outras piscinas pequenas para relaxamento, nas quais as pessoas tentavam andar contra a corrente. Super relaxante. Um luxo. Depois de ficar uma hora de molho n’água, era hora de voltar para casa. Quando chegou no vestiário, para sua surpresa haviam roubado seus tênis comprados a preço de ouro em uma loja de Ipanema. Foi reclamar na recepção e ouviu um “ désolé monsieur”, tem muitos ladrões por aqui, e um “Bonsoir”. Felizmente, sobraram suas havaianas, o carro tinha aquecimento, e ele voltou para casa dirigindo de chinelo de dedo mesmo. Na mesma semana, foi ao banco abrir sua conta. Ele se esforçou tanto para enganar a Deus, que pensaram que ele era um milionário e o levaram para uma sala própria para magnatas. A educada funcionária lhe deu boas vindas, lhe explicou os serviços do banco, e lhe perguntou quanto gostaria de depositar. Informou que era muito importante demonstrar a origem do dinheiro se ele tencionasse trazer mais de US$ 30.000,00, e que se ele quisesse poderiam lhe ajudar a encontrar uma casa “au bord du lac”. Com 5 ou 6 milhões eles já conseguiriam qualquer coisa razoável para ele, meio longe é verdade. Eduardo ficou constrangido, disse que a princípio preferia manter seus investimentos no Brasil, mas que talvez em um futuro próximo solicitasse seu auxílio. Na realidade, pensava em utilizar sua conta apenas para o pagamento do aluguel e das despesas mensais. A funcionária fez uma cara de desapontada, mas lhe abriu a conta. No sábado, ele acordou cedo e foi comprar uns tênis. Chegou em uma loja moderníssima, especializada em artigos esportivos. Deu o famoso “Bonjour”, e pediu que o funcionário lhe desse um determinado modelo para provar. O funcionário lhe perguntou a numeração. Eduardo disse que não sabia, que no Brasil era 41, que teria que experimentar para saber. Para sua surpresa, levou um outro “désolé” (sinto muito = dane-se). Se ele não sabia o número, não poderiam lhe fornecer os tênis. Eduardo ainda tentou explicar que ele poderia experimentar um par ou dois para saber qual a numeração. Foi quando ele levou então o seu primeiro “pas du tout monsieur” (absolutamente = nem por um cacete). Na segunda loja foi mais esperto, espiou os números abaixo dos tênis e chutou uma numeração. Errou é claro, mas pôde pelo menos ter um ponto de partida. Alguns dias depois, recebeu seu cartão bancário. Inacreditavelmente, seu nome estava escrito errado. Voltou ao Banco, mofou na fila, para ser finalmente ser atendido por uma mal humorada funcionária. Ela imediatamente lhe informou que iriam descontar US$ 40,00 da sua conta para a emissão do novo cartão, tendo em vista que Eduardo havia fornecido seu nome errado. Eduardo ficou furioso, e disse que depois de 43 anos estava certo que sabia escrever seu nome. Exigiu as fichas, e ela envergonhada reconheceu o erro, disse o “désolé”, dessa vez do fundo do coração, e pediu que ele aguardasse a nova via em casa. Uns três dias após, ele recebeu um aviso de correspondência, informando que havia algo para ele no correio central. Achando que podia ser algum documento importante, Eduardo foi aos correios e solicitou sua correspondência. Após esperar 45 minutos em pé pelo funcionário que desapareceu com o papelzinho, ouviu um “désolé monsieur”, nós perdemos sua correspondência. Eduardo argumentou que eles deveriam procurar melhor, que poderia ser algo importante. Foi quando o funcionário lhe disse para não se preocupar, porque se for algo importante, lhe mandam de novo. Eduardo achou melhor ir embora para não se incomodar. Na semana seguinte, Eduardo recebeu em casa o cartão da “insurance maladie”. Para variar o nome também estava errado, mas dessa vez Eduardo nem se importou. Ele havia entendido que os serviços na Suíça eram assim mesmo, já estava começando a acreditar em Deus e em castigo divino, e a achar que tudo isso estava acontecendo porque na Suíça era ainda mais evidente a sua pobreza. Com o inverno mais forte, em um sábado Eduardo foi surpreendido por uma nevasca em Lausanne. De dentro do seu apartamento achou tudo muito lindo. Somente caiu na real quando percebeu que como a sua rua era numa baixada sem movimento, eles somente passaram o trator para retirar a neve no meio da tarde, e que por esse motivo nem os carros nem os ônibus podiam chegar ou sair. Na segunda-feira pela manhã, seu carro estava totalmente coberto pela neve, e com uma pazinha pequena e uma média começou a remover o gelo. Em minutos seus pés e seu terno estavam encharcados. Seus dedos congelaram, e ele não conseguia mais mover a mão nem para abrir a porta do edifício. Quando finalmente entrou em casa, deixou sua mão de molho na água morna uns 5 minutos para que voltasse ao normal. A sensibilidade causada pela queimadura de gelo doeu um mês. Daquele dia em diante, passou a acordar mais cedo, vestir as botas de neve, a calça, as luvas e a jaqueta de “ski” para retirar a neve, voltar para casa, trocar de roupa e só então dirigir para o trabalho. Diante de tanta neve, Eduardo decidiu ir para a França, esquiar nas montanhas de Mégeve, a mais chique das estações francesas (Deus haveria de cair nessa e ficar contente com ele). Com medo de se perder, foi de ônibus mesmo, erro esse que provavelmente despertou a ira de Deus. Após se espatifar no chão várias vezes, Eduardo parou em um restaurante em frente a estação rodoviária e comeu uma lasanha. Pouco depois de começar a viagem de volta para a Suíça, ele sentiu uma pontada no estômago. O molho de tomate estava estragado. Olhou para trás e percebeu que não havia banheiro. Falando em inglês, pois não havia jeito de soltar sua língua em francês, pediu para parar na primeira estação possível. Levou um outro ““désolé monsieur”, não é possível parar até Genebra. Agora serão duas horas e meia de decida. Se você estava doente, não deveria ter entrado no ônibus.”. Eduardo fez um esforço sobrenatural para se segurar. Imaginou que se algo acontecesse eles o retirariam do ônibus e, com a temperatura de – 15c., logo estaria congelado. Nem a policia lhe daria carona nessas circunstâncias. Era melhor fazer toda a força para não deixar nada escapar. Ao avistar a imigração suíça pediu para descer ali mesmo, mas “désolé” não foi atendido. Finalmente, Eduardo chegou na estação de ônibus de Genebra. Correu para o banheiro desesperado, mas ao entrar percebeu que havia uns 4 ou 5 homens se picando, e uns outros tantos se tocando. Ficou com medo de ser assaltado e levar uma seringada, e com as últimas forças correu para um hotel ali perto. Perguntou ao porteiro aonde ficava o banheiro. O gentil cavalheiro lhe explicou que os banheiros eram somente para os hóspedes e que ele não poderia usá-los. Eduardo insistiu, levou um outro “désolé”. Foi quando não se agüentando mais berrou: “Monsieur, je suis desesperé monsieur. Ou-est-ce le toilete? Je suis desesperé!”. Milagrosamente, o suíço se tocou e apontou na direção correta. As temperaturas caíram mais ainda, aconteceram as maiores nevascas das últimas décadas, o aeroporto passou a cancelar a maioria dos vôos, os trens não puderam mais partir, e Eduardo foi obrigado então a ficar um mês na Suíça sem poder viajar. Uma noite, ao chegar em casa do trabalho, o teto do elevador caiu em sua cabeça. Por pouco não abriu um rombo na testa. Foi quando Eduardo percebeu que o vidro que escondia a lâmpada, estava colado com fita adesiva, no melhor estilo cortição do Grajaú. Puto da vida, ele decidiu que voltaria ao Brasil, que não ficaria mais nenhum dia naquele fim de mundo. Sua cama era péssima, seu telefone não funcionava, a internet estava sempre fora do ar, a TV era de 10 polegadas, com apenas 4 canais que se repetiam em francês, alemão e italiano, e a limpeza do apartamento que deveria ser feita uma vez por semana acontecia na prática de duas em duas, ou seja, ele estava vivendo em um nível de pobreza que fatalmente atrairia a ira de Deus contra ele. Era melhor dar o fora antes que morresse afogado no lago ou soterrado por uma avalanche. Numa cochilada de Deus, conseguiu dar uma reviravolta no destino, mudar para um lugar melhor, com uma garagem coberta inclusive. Em fevereiro, ficou muito satisfeito quando soube que o correio suíço havia entregado, na véspera do Carnaval, os presentes de Natal que ele havia enviado para o Brasil para serem entregues com urgência ainda na primeira semana de dezembro. Ela já havia dado esses presentes como perdidos porque toda vez que ia reclamar nos correios eles diziam “désolé” pois não tinham como localizar a remessa no sistema. Em março o tempo melhorou, e Eduardo voltou a gostar da Suíça. Com o final das nevascas, o aeroporto voltou a funcionar normalmente e Eduardo decidiu ir para Londres com os amigos. Passagens compradas, hotel pago, um vulcão explode, deixando a Europa inteira paralisada. Deus fizera mais uma pequena vingançinha contra ele. Se ele estivesse pagando o dízimo provavelmente nada disso teria acontecido. Eduardo entrou em pânico, pois estava quase na hora de voltar ao Brasil e ele contava os dias para voltar para sua terra, sua família e amigos. Para ele, ficar uma semana a mais seria uma eternidade. Ao voltar para o seu amado Brasil, quando do avião ele viu o Corcovado, o Cristo Redentor e a favela logo embaixo, teve certeza: “Deus existe mesmo, é brasileiro, e não gosta de pobre.”.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Otimista incorrigível arrasado por amigo pessimista

Um grande amigo ligou de Porto Alegre para falar sobre o texto “Para os corações partidos” logo abaixo, e me acusou de ser um otimista incorrigível. Segundo ele “É um otimismo exacerbado achar que se pode viver mais de um amor. Se você se encontrar diante de um novo amor é porque aquele que passou não era amor de verdade. Você estava apenas se preparando para o amor.”. Para me arrasar por completo, e me tirar qualquer ínfima esperança de ser feliz novamente, tascou:
“Você ter encontrado o seu amor e ter perdido lhe traz um castigo horrível. Você será condenado a carregá-lo pelo resto da vida sozinho.”

domingo, 27 de junho de 2010

Rendição

Os exércitos estavam famintos. Não passavam de hordas de miseráveis doentes e aleijados. A guerra durara anos, e os mortos e feridos eram incontáveis. Após uma última batalha era impossível saber qual lado estava mais fraco. Sabendo que a rendição era impossível, abandonaram a ilha e voltaram derrotados para a segurança de seus países.

sábado, 26 de junho de 2010

A Grande Volta


A grande volta olímpica dessa Copa foi a de Gana. Não importa quem ganhar a Copa, nada terá o mesmo significado. Não me interpretem mal. Minha pátria amada Brasil é a minha mãe, meu pai é a America do Sul, minha amante é a Europa, mas a minha avó é a África. Foi de lá que todos saímos. Tenho muito orgulho da minha origem brasileira e portuguesa, mas não deixo de sentir uma extrema vergonha de ser fruto de duas sociedades que construíram suas economias em cima da escravatura. A família da minha mãe, embora sustentada por esse sistema odioso, só se redime um pouco porque o meu bisavô materno fundou um jornal abolicionista. A família do meu pai era tão pobre, que esse pecado pelo menos não tem. O que a Inglaterra, Portugal, Brasil , Estados Unidos e França fizeram com esse continente não tem precedentes. Exterminaram povos inteiros, acabaram com famílias que se amavam, roubaram suas riquezas, levaram seus espécimes mais fortes para em outros continentes trabalharem de sol a sol, levarem chicotadas, serem torturados, somente para que fizessem o trabalho que os descendentes de europeus não estavam dispostos a fazer. Nem a sociedade Nazista foi tão horrível, e olha que o que eles fizeram não tem desculpas. O Brasil então, ainda carrega a pecha de ter sido o último país a abolir a escravatura. Já estive na África duas vezes, e percebi o ódio que eles têm dos descendentes de Portugueses e de Ingleses. Pois desculpo eles, não é para menos. A miséria, mesmo na África do Sul, é absoluta. O “apartheid” não terminou coisa nenhuma. Existe uma pequena elite negra, mas a maioria das mansões e hotéis de luxo são destinados aos brancos. Tive a oportunidade de me hospedar em dois hotéis luxuosíssimos. Embora ninguém tivesse coragem de dizer, um era frequentado predominantemente por hóspedes negros, e outro por hóspedes brancos. Casualmente, o hotel cujos hóspedes eram brancos era ainda mais luxuoso. Negros nos carros, quase sempre são motoristas. Nas estradas a minha vontade era de chorar. Havia diversas mulheres magérrimas, com crianças barrigudas pedindo carona e andando pelos campos (savanas) a esmo, pois aonde for que chegassem nada receberiam. Nas ruas as pessoas imploravam por esmolas ou para vender seus artigos feitos a mão a preço de nada. A dívida do Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, Portugal e da França com esse continente continua. Quando é que vão criar vergonha na cara e tratar de remediar o mal que fizeram? Hoje, quando vi aquele time, vindo de um país miserável (vou ter que procurar no mapa para saber onde fica), derrotando a maior potencia mundial, cujo time era basicamente formado por loiros que fariam o Sr. Hitler dizer que estava certo quanto a superioridade ariana, chorei bem chorado. Foi o grande jogo até agora. Se o Brasil não ganhar a Copa, torço por eles. Merecem! São campeões pelo simples fato de estarem vivos, de terem chegado inteiros até o campo de futebol. Sei que o meu desejo pouco importa, e que o Brasil tem pouquíssimas chances de sair vitorioso, pois a única coisa que realmente chama a atenção no nosso time é o figurino do Dunga. Mas para mim, depois desse jogo, essa Copa já é a melhor de todas.Viva Gana! Viva a África!

Corrida contra o tempo

Depois de enfrentar seres mitológicos, fantasmas e espíritos do mau, finalmente conseguiu fugir do casarão assombrado em que estava preso. Começou a correr, e em pouco tempo adquiriu a velocidade de um condor. Como estava na altura das nuvens, começou uma descida íngrime entre campos e florestas de araucáricas em direção ao mar. Quando percebeu estava voando sobre as ondas que quebravam no rochedo, sem qualquer medo. Havia somente o vento, o sol, as rochas e o mar que pareciam se mover em alta velocidade sob seus pés. Ele esquecera de tudo. Com uma manobra incrível, conseguiu aterrissar entre duas pedras pontudas. Mas já era tarde, havia perdido a corrida contra o tempo. A condenação fora aplicada. Restava-lhe apenas a saída de cena.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Do tempo da Roça

Todo ano na roça, a festa de São João era aguardada. Geralmente ocorria na escola durante o dia, e no abrigo das freiras à noite. A renda era transferida para a entidade que recolhia os menores de rua. Quando eu tinha 12, 13, 14 anos, essa era uma das poucas ocasiões em que era possível sair à noite sem a compania de um adulto. Geralmente eu ia com alguns colegas de aula, e a grande emoção não era ver a fogueira, as bandeirinhas ou a comida. Mas sim beber quentão e fumar um palheiro. Nunca esqueço que um colega passou mal, e botou tudo para fora bem em volta da fogueira, para o desgosto e nojo de todos. Adoro quentão até hoje e, quando morava na Suíça, com frequência tomava um “vin chaud” (quentão com nome metido a besta, mas que é exatamente igual ao preparado na roça gaúcha) que por lá, durante o inverno, é super apreciado. No Mercado de Natal era a barraquinha mais concorrida.

Maré de Sorte

Havia uma importante reunião marcada para às 9 horas, e seu gerente havia explicado que era muito importante a presença de todos. Seu colega mais próximo, tremendo debochado, pegava no pé da garota e dizia que ela tinha sempre uma história triste para contar. De vez em quando eram os cachorros que precisavam ir ao veterinário, um parente doente, um piriri, um assalto, etc. Ele sabia que as desculpas eram verdadeiras, mas não perderia jamais a oportunidade de torrar a paciência da doce Bibiana. Embora jovem, ela tinha grande experiência em uma área difícil, era educada, solicita, generosa. Cuidava da sua família e amigos com muito esmero. Um exemplo de ser humano digno, confiável e inteligente. Ainda por cima, era a maior gata. Pele bronzeada, longos cabelos negros, sempre com vestidos justos e bem cortados, parecia uma princesa. Como ela não podia se atrasar, acordou cedo e pegou o frescão (ônibus) do Leblon para a Cidade com bastante antecedência. Logo estava distraída pela paisagem. As ondas estavam imensas, e quebravam na areia com grande estardalhaço, uma delícia. Pensou que era uma privilegiada por viver em uma cidade tão linda, e poder usufruir desse bem estar no caminho para o trabalho. De repente, uma mulher entrou no ônibus e reclamou para o motorista que o ar condicionado não estava funcionando. O motorista educadamente informou que o ar estava funcionando, que ela podia sentar. Minutos depois, entra uma senhora e faz a mesma reclamação. A resposta foi repetida, mas com menos convicção. Bibiana verificou que realmente o ar havia parado de funcionar e que estava ficando quente. No meio de Copacabana, a primeira mulher pediu para o motorista parar e solicitou seu dinheiro de volta, já que o ar condicionado não funcionava. Ele disse que poderia parar, mas não tinha como devolver o dinheiro, pois se assim procedesse ele teria que pagar a passagem. Alterada, ela disse em alto e bom tom que queria seu dinheiro, ordenou que ele parasse e que lhe ressarcisse a passagem imediatamente. O motorista parou, mas disse que não poderia lhe ressarcir, que havia um setor de reclamações de empresa, e que ela poderia buscar o ressarcimento diretamente com eles. Cada vez mais furiosa, ela levantou o dedo em riste e disse que ele era a empresa, e que ela exigia o dinheiro ali e na hora. Sua reclamação não era pelo dinheiro, mas pelo princípio de que o consumidor não pode ser enganado. Não poderiam cobrar pelo ar condicionado, se o ar estava estragado. O pobre diabo novamente repetiu que não podia. Ela respondeu que então ele deveria continuar parado, para que ela pegasse o próximo ônibus sem ter que comprar nova passagem. Ele explicou que o próximo ônibus somente passaria em 20 minutos. Ela aumentou o barraco, e o motorista permaneceu parado, sem saber como proceder. Bibiana decidiu intervir. Explicou que havia outras pessoas com compromissos, e que ela, por favor, fosse gentil e liberasse o ônibus. A mulher falou que ela não se metesse, que eles que esperassem, se ela tinha pressa, pegasse um taxi. Bibiana respondeu que ela estava sendo incrivelmente desrespeitosa com todos os passageiros, que ela refletisse melhor sobre isso. A mulher logo falou: “Cala boca franguinha, se não calar vou encher a tua cara de tapas. A última que se meteu comigo perdeu um dente.”. Bibiana perdeu a paciência e disse: “Não se atreva que eu te coloco atrás das grades.”. Um garotão engraçadinho, mal educado, logo berrou: “Briga de mulher! Briga de mulher! Cuspida! Cuspida!”. Bibiana ficou ainda mais chocada, quase começou a chorar. Ela estava brigando por todos, e ainda havia alguém afim de expô-la a uma situação mais ridícula e até perigosa. Para sua surpresa, a mulher finalmente decidiu partir. Chamou todos de babacas e disse: "Vou embora, mas vocês vão todos a m.". Foi quando alguém berrou: “Finalmente essa bruaca vai embora.”. Outro gritou: “Espírito de porco, mal comida.”. Pra que? A megera mudou de idéia e disse: “Não vou mais.”. Nesse momento um senhor ligou para a polícia, e pediu ajuda. A doida esbravejou, mandou todos se danarem, mas caiu na real e partiu. O motorista tentou dar a partida, mas para a surpresa de todos, o ônibus não ligou. Bibiana teve então que pegar um taxi. Quando chegou no aterro do Flamengo, as vias estavam congestionadas em razão de uma acidente. Para piorar, ainda teve que parar em um banco no centro para sacar dinheiro e pagar o motorista. Pra lá de atrasada, pensou que todo mundo a esperava, e que novamente seria alvo de um comentário sem graça do seu colega. Às 10 horas, finalmente chegou ao trabalho. Entrou esbaforida na sala de reuniões justamente no momento em que as pessoas estavam se despedindo. Não deu para não perceber o olhar de censura do seu gerente e o sorriso de canto de lábio do seu coleguinha de estimação. No dia seguinte, Bibiana acordou cedo, pegou o mesmo ônibus e no caminho abriu o jornal. Logo na capa estava escrito: “Turista francesa espancada por mulher em Copacabana. O motivo foi que a turista não quis ceder seu taxi para a apressada agressora. Seu estado é grave.”. Será?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saudades

Mais um ano sem você. As vezes te encontro nas ruas, nos quadros, nos sonhos, nos livros, nos filmes, nas músicas, nas flores, nas pessoas que contigo parecem, e até no meu espelho. Tentativa inútil de reviver-te.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Loucura contagiosa

A loucura de quem você tanto amou um dia chega aos seus ouvidos e invade os seus pensamentos. Surto absoluto. O que terminou,terminou. O que é impossível, é impossível.

Te joga

Carioquíssima da gema, não havia situação que Shirley Anne não tirasse de letra. Conhecia a alma humana como poucos, e usava seus conhecimentos psicanalíticos para resolver até as mais singelas situações do dia a dia. Nem as noites de lei seca a impediam de se encontrar com os amigos e tomar quantas caipiroscas lhe apetecesse por medo de ter sua carteira de motorista apreendida. Quando avistava uma blitz policial, imediatamente reduzia a velocidade, acendia a luz interna, abria o vidro e cumprimentava os guardas dizendo: - Parabéns pela campanha, isso está reduzindo em muito o número de acidentes. Fico bem mais tranqüila quando minha filha sai de casa à noite. Dito isso dava seu sorriso, e seguia em frente.
Xica havia saído à mãe. Era bronzeada, usava cabelos longos, roupas coloridas, cuidadosamente escolhidas em lojas conhecidas somente por quem sabe, e acessórios retrôs comprados em brechós do Rio, Paris e Nova Iorque. Tinha a displicência dos bem nascidos, uma generosidade e uma educação rara. Figurinha manjada nas estréias teatrais, lançamentos de livros, e desfiles de moda, era também presente em badaladas Raves situadas no cais do porto ou em Vargem Grande. Publicitária, tomou-se de encantos por um colega de trabalho, que sonhava ser ator, e em pouco tempo estavam íntimos, com uma cumplicidade que deixava a todos enciumados, inclusive seu noivo. Falava nele o tempo todo: - Carlito disse isso; - Carlito fez aquilo; - Carlito é que sabe; - Tadinho do Carlito; - Perseguem o Carlito; - Demitiram o Carlito; - O que fazer para ajudar o Carlito?

Desempregado, a situação do Carlito foi piorando. Em apenas três meses seus míseros tostões foram consumidos, e o pessoal da república de artistas gentilmente pediu que ele cedesse seu espaço para um outro aspirante a ator que podia pagar o aluguel. O pobre Carlito estava desesperado. Começou a falar que não valia a pena viver, que não via saída, que o seu fim era próximo. Sua única razão de viver era a estréia de sua primeira peça teatral prevista para ocorrer em três meses. Ele havia transformado em monólogo, uma peça teatral escrita para vários personagens. Coisa de gênio, Xica e Carlito confidenciavam para os amigos. Uma pena é que ela iria estrear em um teatro pequeno de Copacabana, e a renda prevista não seria muito grande. Mas esse era apenas o começo. Logo ele ficaria conhecido, entraria para a Globo, e o céu seria o limite. Xica ficou penalisadíssima quando escutou do próprio Carlito, aos prantos, que ele havia sido despejado da república, e que como seus pais eram pobres, moravam no interior de Minas, teria que voltar para Barbacena por uns tempos, adiando seu projeto de vida. Aflita, falou que ele poderia ficar em sua casa por uma semana. Que nesse tempo ele encontraria uma solução, um lugar barato para ficar. Ele poderia fazer uns bicos enquanto isso como garçon ou em lojas, afinal o Natal se aproximava e as lojas e restaurantes estavam contratando. Envergonhado, Carlito recusou o convite, agradeceu o carinho, ponderou que o noivo de Xica não gostava dele, mas acabou ficando. Embora pequeno, o apartamento da Xica era em Ipanema, próximo ao mar, contava com dois quartos, uma sala com sacada, e como se isso já não fosse o máximo, ainda tinha uma vista para o Corcovado. Carlito se acostumou rapidamente. E não ficou apenas por uma semana. Ficou por duas, por três, por um mês, dois meses e mais. Já a Xica, ela foi ficando é de saco cheio mas, como tinha bom coração, não sabia como despejar o amigo. Que situação. Até a mãe de Xica simpatizava com o rapaz. Ele havia mexido com seu lado maternal. O casamento de Xica estava próximo, e então combinaram que ele poderia ficar até o final do mês, pois o apartamento entraria em obras, e ele teria que sair para dar espaço para os móveis e roupas do noivo. No dia combinado, Carlito pediu para somente sair depois que a amiga já houvesse ido para o trabalho, porque era muito sentimental e detestava despedidas. Além disso, eles continuariam a se falar todos os dias. Não havia razão para melodramas e choradeiras. Apenas se deram dois beijinhos e tchau amor. À noitinha, Xica chegou em casa feliz. Finalmente só, poderia transitar com seu noivo livremente, sem ninguém para incomodar. Abriu uma cerveja, sentou na rede, e acabou por adormecer. Ao acordar, decidiu tomar um banho e colocar uma roupa mais confortável. Encheu a banheira de sais e espumas, e ficou lá uma hora relaxando. Que banho gostoso. Depois, dirigiu-se ao seu quarto para vestir algo confortável. Mas que surpresa. Seu armário estava vazio. Apenas sobraram as sandálias, os tênis e os sapatos. Até os chinelos e tamancos haviam desaparecido. Seus vestidos, chapéus, colares, acessórios, camisolas e roupas íntimas haviam simplesmente partido com o Carlito. Ligou para Carlito várias vezes, mas ele não atendeu. Procurou pelos amigos em comum, mas ninguém sabia do rapaz. Não é possível. Carlito jamais faria isso com ela. Que decepção com o gênero humano. Seu melhor amigo vender suas roupas para faturar uns trocados. Isso seria muita baixaria. Furiosa, foi ao teatro e soube que ele não aparecia por lá há dois meses. Ele sumira misteriosamente, sem deixar vestígios. Recuperada do baque, Xica casou, foi para Nova Iorque em lua de mel, comprou novas roupas e seguiu sua vida. Na volta, soube por um conhecido que Carlito morava na Glória e estava preparando sua estréia teatral finalmente. Movida por uma profunda ira, foi ao endereço de Carlito que, com medo do escândalo e da polícia (ela ameaçava dar queixa), permitiu sua entrada. Ele confessou que sua atitude fora impensada. Que não havia lhe roubado em razão do dinheiro ou intencionalmentte. O motivo é que ele estava apaixonado pelas roupas. Como ele não tinha o que fazer, um dia experimentara por brincadeira um vestido, depois um colar, um chapéu e uma pulseira. Isso se tornou uma compulsão, e logo ele começou a curtir sua langerie, roupa íntima, tamancos e sandálias. Xica ficou chocada, disse que ele estava doente, que não sabia o que fazer e foi embora. Procurou imediatamente sua mãe que, após fazer a análise psicológica do caso, chegou a conclusão que, mesmo assim, isso fora uma tremenda maldade. Insandecida de ódio, Shirley Anne ligou para o rapaz e disse: - Carlito, aqui é a Shirley Anne. A Shirley é uma psicanalista boazinha, mas a Anne é uma mãe enlouquecida. Carlito, sobe no telhado e te joga. Te joga Carlito! Se você não se jogar eu vou aí e te jogo.
Carlito pediu desculpas, desligou o telefone, decidiu deixar o tempo rolar e a zanga da Anne passar. Na noite seguinte, Shirley Anne foi jantar com amigos, pediu umas caipiroscas, e contou para todos o caso. Como havia outros psicanalistas, foram diversos os interpretaços. Na volta, Shirley Anne avistou uma blitz, acendeu a luz, abriu o vidro, sorriu, deu parabéns, e foi parada. Como recusou-se a fazer o teste do bafômetro, perdeu sua carteira de motorista por um ano. Que raiva do Carlito.

domingo, 20 de junho de 2010

O melhor da Copa, postagem sentimental

O melhor da Copa é reunir-se com os amigos e, mesmo afastando-se um pouco da televisão, recuar para a sacada, almoçar uma feijoada, ficar batendo papo com quem você realmente ama. Melhor do que isso, somente se o afilhado com apenas 6 anos de idade chegar e, sem qualquer empurração materna, sentar espontaneamente no seu colo para também falar no Skype com a priminha que está assistindo o jogo na Nova Zelândia. Não tem dindo que não fique felicíssimo e orgulhoso de um afilhado desses, que ainda por cima passou na seleção do Santo Agostinho e faz as perguntas mais embaraçosas para todos. Quando a resposta não é muito sincera ela pergunta: "Por que as pessoas mentem?", colocando a sua mãe na maior saia justa.
A vista da sacada era tão bonita, que várias vezes me distrai no jogo prestando atenção no Cristo e na floresta. Compreensível nao?





sábado, 19 de junho de 2010

Década Careta

Essa década está muito careta. Tudo igual. Madonna está igual ao que era. Lady Gaga copia Madonna, que já havia copiado o Michael Jackson e a Marilyn Monroe. Amy ainda se salva um pouco. No Brasil, não há nada genial, e até por aqui tudo é bonitinho, bem cuidado, feito com esmero. O profissionalismo está matando a arte. Que saudades dos anos 80, com aquele exagero todo, com aquelas cores contrastantes, e com as dificuldade tecnológicas que mostravam o improviso e que nos lembravam sempre que aquilo era uma alusão a algo que se queria mostrar. Agora com efeitos especiais quase ilimitados, as coisas parecem realmente mágicas, fantásticas. Ficaram sérias, reais. Perdeu-se o lado lúdico. Não precisamos mais imaginar. Tudo está pronto. Viramos meros espectadores sem espaço para sonhar. Que saudades da Olivia Newton-John, de seu cabelinho impecável, do seu figurino quase carnavalesco, dos seus efeitos especiais coloridíssimos, que têm até um barulinho quando acontecem, e que lembram os cafonérrimos filmes de ficção científica. Os anos 80 foram um luxo.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Doces Memórias

"- Acorda. Deixa de ser preguiçoso. Levanta.
- Pára, ta frio. Quero dormir mais um pouco.
- O dia está lindo. Tem sol, o céu esta azul, tudo está em flor. Quero tanto te mostrar as novidades. Vamos....
- Não puxa as minhas cobertas, isso não vale, chata, ta bem...."

Web Manha

Para aqueles cujos os joelhos não dobram, as pernas não descansam, as articulações falham uma a uma, as seringas picam incessavelmente, 10, 20, 50, 100, 130 vezes por mês, durante anos, fazem trações nos ossos, choques elétricos que tentam inutilmente religar músculos desobedientes, submetem-se ao calor e ao frio extremo, somente tenho duas coisas a dizer: Désolé e um dia isso tudo passa.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tortura Psicológica

Não se deve torturar alguém porque viveu outros amores. O que importa é o sentimento presente, a vontade de um futuro juntos. Ciúmes já é terrível, mas daquilo que não existe mais é tortura.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Depois de um comentário antipático, socorro-me da Canção do Amor e da Melodia Sentimental para agradar meus leitores e aplacar a dor

Remédios, choques elétricos, aparelhos de ultrassom, massagens, trações e alongamentos não conseguem aplacar a dor e a angústia. Somente algo muito lindo e poderoso pode fazer com que a dor seja momentaneamente esquecida.
Estranho, mas o mesmo Brasil que cultua o futebol ao ponto de parar quando tem jogo da copa, pouco espaço dá para um dos seus maiores músicos e para sua mais importante soprano. Há três anos foi tarefa de gincana encontrar a Floresta dos Amazonas, de Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Os CDs desse compositor brasileiro, quase desconhecido pelas novas gerações, são muito limitados. Existem pouquíssimos títulos a disposição. O engraçado que naquela mesma época entrei em uma loja de CDs em Toronto, e perguntei se eles conheciam Vila-Lobos. O vendedor quase se ofendeu. Disse que claro que sim. Que eles vendiam uma grande variedade de CDs do Villa, que era gênio conhecido por todos. Fiquei pasmo com a variedade de opções. Essa gravação com a Bidu Sayão regida pelo próprio Vila é maravilhosa. Meu CD já está gasto de tanto rodar.



Selecionei também uma gravação das Bachianas n˚5 com a soprano brasileira Rosana Lamosa. Já tive o prazer de assisti-la em algumas operas e ela é muito boa.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Comentário Antipático

Pobre Brasil. Só pára quando há um jogo de futebol na copa do mundo. O resto, seja um escândalo envolvendo o planalto, ministros, o congresso nacional ou o judiciário, passa batido. Jamais vi o Brasil inteiro parar em busca de justiça. Pior ainda, quando se tem um time medíocre que ganha de forma sofrida de um time quase de segunda divisão.

sábado, 12 de junho de 2010

Para os corações partidos.

Nem o tempo consegue neutralizar de forma definitiva a dor da perda de um grande amor. Sempre ficam, com maior ou menor intensidade, um buraco no estômago, as lembranças inconvenientes e os pesadelos que lhe roubam o sono. Minha tia me disse novamente, e eu sei que ela está certa, que o único remédio eficaz para curar essa dor é um novo amor. Mas se sabemos disso, por que demoramos tanto tempo para encontrar o novo amor? Ora, porque não é fácil. Pelo menos para quem tem tipo, e não pressa. Encontrar alguém que atenda as nossas expectativas e exigências que são cada vez maiores conforme a idade avança é tarefa de gincana. Onde encontrar essa pessoa capaz de preencher nossos requisitos afetivos, culturais, sociais, econômicos e nossas fantasias sexuais? Essa equação é dificílima. Já ouvi que essa pessoa pode estar em qualquer lugar. Mas por mais cara de pau que sejamos, não dá para assediar todo mundo para tirar a teima. Assim, o novo amor pode realmente estar na fila ao lado, mas acabamos perdendo a chance. E não me diga que devemos ser menos exigentes, porque quanto mais distante for o novo amor daquilo que buscamos, mais difícil será o convívio. Quem gosta realmente de funk, cerveja e quadra de samba, não será boa companhia para quem a isso detesta, e vice-versa. E se não rolar a atração de cara, é melhor desistir, pois mesmo quando é grande no início, diminui progressivamente com o tempo. Já ouvi que isso não é regra absoluta se os dois não forem muito chegados, pois as amizades e casamentos por conveniência muitas vezes funcionam. Mas é só isso que se quer? Acho que quem está nessa situação não se cura por inteiro da dor do último amor. Assim, presos a lembrança da última relação, quando ficamos fragilizados, carentes e nas datas significativas, como a do dia dos namorados, esquecemos tudo o que foi ruim, as razões que impossibilitaram que a relação prosseguisse, e apelamos para atitudes transloucadas do tipo mandarmos cartões, telefonemas para dizer que te amo, e-mails, torpedos, ou até mesmo tomamos um porre, que pode ser sozinho ou com amigos na mesma situação. Os mais discretos pelo menos fazem isso em casa, porque sair no dia dos namorados sozinho é ainda mais torturante, um verdadeiro mico. É pior a sensação de incompetência quando olhamos todos aqueles casais felizes, com olhares apaixonados, se bem que a metade deles já está de saco cheio. Mas ficou combinado que no dia 12 de Junho todo mundo está feliz, mesmo quando já está uma chatice, para não falar em tédio terminal. Assim, na certeza de não ser lido, como se fazia nos programas de rádio do interior, dedico a música "Chega de Saudade" ao último grande amor. Todavia, se eu estiver sendo lido, favor sintonizar na outra estação e ouvir "Nunca, nem que o mundo caia sobre mim, nem se Deus mandar, nem mesmo assim, as pazes contigo eu farei.”



A Mãe Preta

Seu coração é inigualável. Primeiro ela adotou três filhos com um amor e zelo imensos. Um amor tão forte e generoso, que a mãe biológica entendeu e passou a lhe amar também. Depois, mesmo desprotegida diante da vida, adotou mais uma menina e, como era muito boa mãe, adotou ainda a mãe dos três primeiros filhos. Corações assim tão amorosos existem, mas são muito raros. Sorte de quem os conhece. Obrigado mãe preta.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

E Vadim criou a Bardot

E deus criou a mulher.

Esse filme de 1956 vale a pena ser revisto. Trata de um triângulo amoroso formado por uma mulher que casa com o irmão do homem por quem está apaixonada. A fotografia do filme que se passa em Saint Tropez, a trilha sonora, e a Bardot são impagáveis. Embora alguns aspectos do filme para a moral desse milênio estejam superados, o conflito principal poderia acontecer nos dias de hoje. O que para mim começou como um filme tolo, foi crescendo, se tornando imprevisível, com um suspense bárbaro, e com uma análise social impressionante. Roger Vadim também explorou os aspectos psicológicos dos personagens com maestria. Era sem dúvida um grande diretor. Nota 1000 para o filme. É um show. Quanto a BB, ela supera tudo o que se pode imaginar, sem jamais ser explícita ou óbvia. Está mais do que explicada a razão de ter se tornado um símbolo sexual por várias décadas. Roger Vadim fez dela sua mulher e uma estrela. Quando ela dança o mambo, está de enlouquecer. Na época em que o filme foi lançado, os padrecos não aguentaram e conseguiram que fosse proibido em vários países. Freud explica. Se você não tiver uma Bípede Irmã para lhe dar a caixa de DVDs da Bardot, corra para a loja mais próxima e compre você mesmo. Vale muito a pena.



quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dissolução

As memórias ficam cada vez mais tênues e duvidosas. Não há mais a certeza da voz, do cheiro, e do que se achava bom ou ruim. Os traços misturam-se com os de outras pessoas, as lembranças com cidades e paisagens reais e imaginárias. As frases fundem-se com outros textos, com diálogos perdidos, ouvidos ou fantasiados. O tempo acaba por dissolver tudo no caldeirão de loucuras da humanidade, até que nada mais exista. Apenas a morte absoluta.

Invadida pelos sem terra.

A mulher do saco azul não foi feliz. Acreditava em contos de fadas, e aprendeu a duras penas que a vida é como ela é. Teve alguns momentos bons é verdade, mas estava desapontada. Chegou a exteriorizar que há muitos anos não era feliz, que não sabia se queria continuar a viver. Dentre os momentos bons, gostava de contar que uma vez, em uma festa, o violinista parou em sua frente e tocou Fascinação para ela. Isso a emocionou de verdade. Ela se comovia com gestos singelos, com uma música, poesia, obra de arte, ou causos de gente de sítio. Queria tanto ser valorizada, compreendida. Amada pelas suas reais qualidades. Ser lida por quem não conhecia sua linguagem. Quanta ingenuidade. Não acertou nunca, por mais que tenha se esforçado. Fez más escolhas e pagou um preço caro por isso. O chicote foi inclemente. A morte percebeu tanta fragilidade e a chamou cedo. Ironicamente, mesmo refugiada entre os que verdadeiramente a amaram, teve seu pedaço de terra invadido pelos sem terra, e acabou socada em um saco azul. Pobre mulher do saco azul. Nem depois de morta pôde descansar em paz. Que vida, e que morte. Cruzes.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Muito triste para pensar em um título

Fiquei sabendo há poucos minutos do suicídio de uma amiga dos tempos da faculdade. Ela era extremamente doce e carinhosa. Tenho recordações engraçadíssimas da gente estudando, voltando para casa, saindo para dançar, e fazendo as provas em conjunto para a irritação dos professores. Teve um professor mais experto que chegou a nos separar durante uma prova. Embora bonita, com uma ótima condição financeira, e apaixonada pelo marido, não foi feliz. A última vez que nos vimos foi em 2002, em um aeroporto. Como nossos vôos atrasaram cerca de 5 horas, pudemos colocar os assuntos em dia. Descobrimos que nossas vidas tinham diversas semelhanças. Ambos morávamos longe de nossas famílias, havíamos saído dos nossos círculos sociais, e apostávamos em relações afetivas complicadas. Foi muito bonita a forma com que ela abriu seu coração me contando momentos bem difíceis que havia passado, mas que mesmo assim continuava lutando para ser feliz, acreditanto em um futuro melhor. Ela também ficou impressionada quando eu lembrei das suas músicas preferidas em 1986 (eram do Kid Abelha e do The Smiths), do número do seu apartamento, da sua blusa estampada azul e rosa, e das suas meias com pompom (éramos bem jovens naquela época e a Xuxa estava na moda). Estou muito triste por ela, e guardarei para sempre a imagem da última vez que nos vimos. Ela havia se transformado em uma mulher interessante e chique. Estava com o cabelo um pouco acima dos ombros e usava um lencinho no pescoço. Bem internacional. Quem me contou do fato, mencionou que o suicida sempre dirige sua morte contra alguém. Acho que isso pode acontecer, mas não sempre. Penso que na maioria das vezes a pessoa está tão sem esperança no futuro, tão devastada, que somente quer parar de sofrer, desligar. Dirige sua morte contra si mesma. Não pensa nas conseqüências dos seus atos perante os terceiros, pois se pensasse efetivamente não o faria. Não se lembra nesse momento no sofrimento que irá causar as pessoas que ela sabe que a amam, como a família por exemplo, e tampouco será movida fundamentalmente pelo sentimento de vingança, por mais raiva que tenha. Move-se muito mais pelo desespero, pelo sofrimento insuportável. Um grande beijo para essa amiga, que guardarei para sempre como uma pessoa doce, gentil e íntegra. Nessas horas me confortaria tanto acreditar em Deus, que algo continua, mas não creio. Somente consigo ficar triste e lamentar.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Baba Baby e Maria Gadu

Porque eu adoro essa música, e literalmente babo pela Maria Gadu.


Amores Impossíveis e Confusos

Um grão de areia se apaixonou por uma estrela do norte. Contou para o mar, que contou para a lua, que contou para a estrela. A estrela envaidecida piscou duas vezes para o grão e silenciou, afinal ela estava no céu e ele na praia. Encabulado, ele decidiu se esconder no mar que, como estava de ressaca, também o rejeitou e o jogou no rochedo. Veio uma ventania e o levou a contragosto para ainda mais longe, para o meio de uma floresta escura e sem lua. Sonhador, o grão de areia espera que uma chuvarada o leve de volta a praia, para que possa novamente ver o luar. A estrela também sofre imensamente, mas por um cometa que passou, a iludiu, e não pôde ficar.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pobre amor que viu nós dois a chorar, e nos fez sonhar e viver, como deixou de existir?

Maravilhoso o bolero "Dejame Recordar" , tema de "A Lei do Desejo".



Quien , de tu vida borrará mis recuerdos
y te hará olvidar este amor
hecho de sangre y dolor
Pobre amor
que nos vio a los dos llorar
y nos hizo tambien soñar y vivir
¿cómo dejó de existir?

Hoy que se ha perdido
déjame recordar
el fuerte latido del adiós del corazón
que se va sin saber a dónde irá
y yo sé que no volverá este amor,
pobre amor

Pobre amor
que nos vio a los dos llorar
y nos hizo tambien soñar y vivir
¿cómo dejó de existir?

Hoy que se ha perdido
déjame recordar
el fuerte latido del adiós del corazón
que se va sin saber a dónde irá
pero sé que que no volverá este amor,
pobre amor

Y así les digo buenas noches,
buenas tardes o buenos días
y con mucho gusto estuve con ustedes, hoy,
y quien sabe, en otra fecha vuelva a estar
y con el mismo gusto

A Lei do Desejo e Maysa (Ne me quites pas)

Nessa madrugada revi depois de muitos anos " A Lei do Desejo", do Almodóvar. Gostei ainda mais . Esse filme não envelheceu ou ficou datado. Contrasta ainda mais com a mesmice dessa década. Adorei quando uma personagem dubla a Maysa, cantando "Ne me quites Pas". A melodia dessa música é tão linda, e a interpretação da Maysa tão perfeita, que me emociona sempre. Gosto tanto da voz e da força da Maysa. Ela realmente sabia ser intensa.

sábado, 5 de junho de 2010

Citação

Nesses tempos de tanta violência no Iran, Iraque, Israel, Palestina, e favelas brasileiras, a seguinte citação vale mais do que nunca:

“Nul n’est innocent, absolument, de ce qu’il pourrait emmpécher. Mais nul n’est coupable, absolument, que de ce qu’il fait.”

“Ninguém é inocente, absolutamente, daquilo que poderia impedir. Mas ninguém é culpado, absolutamente, senão daquilo que faz.”

Do filme do Godard "Para sempre Mozart".

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Como os outros

O cinema francês encarou a questão da paternidade gay com seriedade, mas bom humor. Um homem deseja muito um filho, mas seu companheiro não concorda com a idéia. Como a adoção não é possível, ele contrata uma barriga de aluguel. O problema surge quando os exames para a inseminação ficam prontos e ele descobre que é estéril. Acaba assim, pedindo, ao então ex-companheiro, um pouco de esperma emprestado. A moça engravida do ex-companheiro, mas casa com ele para obter a cidadania. O problema é que ela acaba se apaixonando por ele, ele volta para o ex-companheiro, e as confusões surgem. Muito boa a história, a direção e o final. No Brasil se chama Baby Love e está dando no Telecine.

Lindo, lindo, lindo

A Flauta Mágica - Mozart

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Vídeo Premiado em Festival de Música e Vídeo em Paris

Esse video de 2009 recebeu o prêmio de melhor animação do Protoclip Music Video Festival em Paris, em novembro. Foi filmado parcialmente em Paris e em Los Angeles. Muito legal, adorei os carros antigos. Lembram os anos 60 e 70.
Hermentaire's Chewing-Home

Talentosa

terça-feira, 1 de junho de 2010

O homem de ferro sou eu. Um dia depois e já me sinto normal

Adoro o seu tuzinho.

Falando sério. Os Normais 2 é muito bom. De molho na cama, tenho que manter o bom humor.

Quem não precisa.

Nas cidades vazias, vidas podem ser modificadas. Só é preciso amor.

Ps. Algumas cenas de NY lembram as Cidades Vazias de Paulo Amaral

Encontrei seres