quarta-feira, 30 de junho de 2010

Deus não gosta de pobre

Uma amiga tentara lhe convencer que Deus não gosta de pobre. Que se gostasse, não destinaria aos pobres as piores mazelas. Corroborava sua teoria afirmando que quando ocorre uma enchente são os pobres que perdem tudo, quando dá uma chuvarada são os pobres que são soterrados, que quando dá um terremoto são os pobres que se ferram de novo, que quando há uma explosão geralmente são os pobres que se ferem, etc., e que por esse motivo – Deus não gosta de pobre – deveríamos enganar a Deus jamais se queixando de pobreza, estando sempre bem vestidos, morando em bons endereços, com a cabeça erguida não importa quão por baixo estejamos. Contava que no dia que se separou do marido, falou que a única coisa que ele tinha a mais do que ela era dinheiro, que ele lhe respondeu que disso ela iria sentir muita falta, e que de fato ele tinha razão. Concluía seu arrazoado mencionando que quando viu que iria ficar duríssima, foi a um Leilão de artes e arrematou algumas peças para que Deus ficasse em dúvida quanto ao seu estado de pobreza e não a castigasse ainda mais. Depois disso, Deus passou a olhá-la novamente com simpatia e ela ganhou, na justiça, o reajuste de uma pensão mensal vitalícia deixada por seu pai, que lhe salvou da bancarrota. Eduardo argumentava que essa sua teoria era furada. Que tudo não passava de uma engraçada coincidência. Primeiro, porque é impossível a existência de um ser que criou tudo e a todos, que tudo sabe, tudo vê, e que no dia do juízo final nos julgará inclemente. Segundo, porque mesmo que Deus existisse, seria injusto dizer que ele não gosta apenas dos pobres. Se Deus foi o criador do mundo, ele não gosta de ninguém, pois maltrata todos os seres do planeta. Todos temos perdas irreparáveis, insucessos, ricos e pobres sofrem com doenças, com a perda dos seus entes queridos, de seus amores, e são invariavelmente humilhados dentro ou fora de casa. Essa teoria, embora divertida, não teria o menor fundamento. O fato é que mesmo sendo ateu, aquilo ficou martelando na cabeça de Eduardo, que depois de uma sucessão de bordoadas e fracassos achou melhor se garantir e não provocar ainda mais a ira de Deus, caso ele existisse. Como as coisas no Brasil não estavam dando certo, decidiu ir para o país com a maior concentração de ricos do planeta, a Suíça. Ele já havia morado em Genebra, e lembrava que havia sido um tempo feliz. Assim, arrumou um contrato por 6 meses naquelas terras, juntou seus caraminguás e dessa vez rumou para Lausanne. Mesmo estando bem arrumado, parece que Deus desconfiou que ele não era um deles, e passou a pregar-lhe peças. Ao chegar, quase foi deportado pois a despachante suíça encarregada de seus papéis esquecera de anexar sua certidão de nascimento. Somente escapou da deportação porque como já havia morado lá, conseguiu, depois de muita conversa, convencer a funcionária da imigração de que esse documento já constava em seus arquivos. Teve sorte de principiante ao informar que era agnóstico, pois se tivesse informado na imigração que era católico, protestante, macumbeiro ou o que quer que fosse, teria o dízimo recolhido de seu parco contra-cheque todos os meses. Passados alguns dias, ao abrir o elevador quebrou o vidro da porta. Ele não entendeu como isso seria possível pois não havia esbarrado em nada, havia apenas puxado a porta. Mesmo assim, procurou a administradora do imóvel e pediu que lhe enviassem a conta. Chegou a ficar envergonhado, sentindo-se quase um troglodita tupiniquim que nem uma porta de elevador sabe abrir. Dois dias depois o vidro estava trocado, mas no terceiro já estava quebrado novamente. Foi quando Eduardo percebeu que o problema era o vidro fininho de quinta categoria. Como estava se sentindo solitário, resolveu fazer ginástica na melhor academia da cidade. Ficou impressionadíssimo. Coisa de primeiro mundo. A academia ficava em um pequeno “Shopping Center”, e contava com várias salas de ginástica, saunas que mudavam de cores e reproduziam o barulho das florestas, áreas de descanso, e com um complexo de piscinas de bolhas. Além da enorme piscina em que bolhas saiam das laterais, gerando uma corrente, ainda havia outras piscinas pequenas para relaxamento, nas quais as pessoas tentavam andar contra a corrente. Super relaxante. Um luxo. Depois de ficar uma hora de molho n’água, era hora de voltar para casa. Quando chegou no vestiário, para sua surpresa haviam roubado seus tênis comprados a preço de ouro em uma loja de Ipanema. Foi reclamar na recepção e ouviu um “ désolé monsieur”, tem muitos ladrões por aqui, e um “Bonsoir”. Felizmente, sobraram suas havaianas, o carro tinha aquecimento, e ele voltou para casa dirigindo de chinelo de dedo mesmo. Na mesma semana, foi ao banco abrir sua conta. Ele se esforçou tanto para enganar a Deus, que pensaram que ele era um milionário e o levaram para uma sala própria para magnatas. A educada funcionária lhe deu boas vindas, lhe explicou os serviços do banco, e lhe perguntou quanto gostaria de depositar. Informou que era muito importante demonstrar a origem do dinheiro se ele tencionasse trazer mais de US$ 30.000,00, e que se ele quisesse poderiam lhe ajudar a encontrar uma casa “au bord du lac”. Com 5 ou 6 milhões eles já conseguiriam qualquer coisa razoável para ele, meio longe é verdade. Eduardo ficou constrangido, disse que a princípio preferia manter seus investimentos no Brasil, mas que talvez em um futuro próximo solicitasse seu auxílio. Na realidade, pensava em utilizar sua conta apenas para o pagamento do aluguel e das despesas mensais. A funcionária fez uma cara de desapontada, mas lhe abriu a conta. No sábado, ele acordou cedo e foi comprar uns tênis. Chegou em uma loja moderníssima, especializada em artigos esportivos. Deu o famoso “Bonjour”, e pediu que o funcionário lhe desse um determinado modelo para provar. O funcionário lhe perguntou a numeração. Eduardo disse que não sabia, que no Brasil era 41, que teria que experimentar para saber. Para sua surpresa, levou um outro “désolé” (sinto muito = dane-se). Se ele não sabia o número, não poderiam lhe fornecer os tênis. Eduardo ainda tentou explicar que ele poderia experimentar um par ou dois para saber qual a numeração. Foi quando ele levou então o seu primeiro “pas du tout monsieur” (absolutamente = nem por um cacete). Na segunda loja foi mais esperto, espiou os números abaixo dos tênis e chutou uma numeração. Errou é claro, mas pôde pelo menos ter um ponto de partida. Alguns dias depois, recebeu seu cartão bancário. Inacreditavelmente, seu nome estava escrito errado. Voltou ao Banco, mofou na fila, para ser finalmente ser atendido por uma mal humorada funcionária. Ela imediatamente lhe informou que iriam descontar US$ 40,00 da sua conta para a emissão do novo cartão, tendo em vista que Eduardo havia fornecido seu nome errado. Eduardo ficou furioso, e disse que depois de 43 anos estava certo que sabia escrever seu nome. Exigiu as fichas, e ela envergonhada reconheceu o erro, disse o “désolé”, dessa vez do fundo do coração, e pediu que ele aguardasse a nova via em casa. Uns três dias após, ele recebeu um aviso de correspondência, informando que havia algo para ele no correio central. Achando que podia ser algum documento importante, Eduardo foi aos correios e solicitou sua correspondência. Após esperar 45 minutos em pé pelo funcionário que desapareceu com o papelzinho, ouviu um “désolé monsieur”, nós perdemos sua correspondência. Eduardo argumentou que eles deveriam procurar melhor, que poderia ser algo importante. Foi quando o funcionário lhe disse para não se preocupar, porque se for algo importante, lhe mandam de novo. Eduardo achou melhor ir embora para não se incomodar. Na semana seguinte, Eduardo recebeu em casa o cartão da “insurance maladie”. Para variar o nome também estava errado, mas dessa vez Eduardo nem se importou. Ele havia entendido que os serviços na Suíça eram assim mesmo, já estava começando a acreditar em Deus e em castigo divino, e a achar que tudo isso estava acontecendo porque na Suíça era ainda mais evidente a sua pobreza. Com o inverno mais forte, em um sábado Eduardo foi surpreendido por uma nevasca em Lausanne. De dentro do seu apartamento achou tudo muito lindo. Somente caiu na real quando percebeu que como a sua rua era numa baixada sem movimento, eles somente passaram o trator para retirar a neve no meio da tarde, e que por esse motivo nem os carros nem os ônibus podiam chegar ou sair. Na segunda-feira pela manhã, seu carro estava totalmente coberto pela neve, e com uma pazinha pequena e uma média começou a remover o gelo. Em minutos seus pés e seu terno estavam encharcados. Seus dedos congelaram, e ele não conseguia mais mover a mão nem para abrir a porta do edifício. Quando finalmente entrou em casa, deixou sua mão de molho na água morna uns 5 minutos para que voltasse ao normal. A sensibilidade causada pela queimadura de gelo doeu um mês. Daquele dia em diante, passou a acordar mais cedo, vestir as botas de neve, a calça, as luvas e a jaqueta de “ski” para retirar a neve, voltar para casa, trocar de roupa e só então dirigir para o trabalho. Diante de tanta neve, Eduardo decidiu ir para a França, esquiar nas montanhas de Mégeve, a mais chique das estações francesas (Deus haveria de cair nessa e ficar contente com ele). Com medo de se perder, foi de ônibus mesmo, erro esse que provavelmente despertou a ira de Deus. Após se espatifar no chão várias vezes, Eduardo parou em um restaurante em frente a estação rodoviária e comeu uma lasanha. Pouco depois de começar a viagem de volta para a Suíça, ele sentiu uma pontada no estômago. O molho de tomate estava estragado. Olhou para trás e percebeu que não havia banheiro. Falando em inglês, pois não havia jeito de soltar sua língua em francês, pediu para parar na primeira estação possível. Levou um outro ““désolé monsieur”, não é possível parar até Genebra. Agora serão duas horas e meia de decida. Se você estava doente, não deveria ter entrado no ônibus.”. Eduardo fez um esforço sobrenatural para se segurar. Imaginou que se algo acontecesse eles o retirariam do ônibus e, com a temperatura de – 15c., logo estaria congelado. Nem a policia lhe daria carona nessas circunstâncias. Era melhor fazer toda a força para não deixar nada escapar. Ao avistar a imigração suíça pediu para descer ali mesmo, mas “désolé” não foi atendido. Finalmente, Eduardo chegou na estação de ônibus de Genebra. Correu para o banheiro desesperado, mas ao entrar percebeu que havia uns 4 ou 5 homens se picando, e uns outros tantos se tocando. Ficou com medo de ser assaltado e levar uma seringada, e com as últimas forças correu para um hotel ali perto. Perguntou ao porteiro aonde ficava o banheiro. O gentil cavalheiro lhe explicou que os banheiros eram somente para os hóspedes e que ele não poderia usá-los. Eduardo insistiu, levou um outro “désolé”. Foi quando não se agüentando mais berrou: “Monsieur, je suis desesperé monsieur. Ou-est-ce le toilete? Je suis desesperé!”. Milagrosamente, o suíço se tocou e apontou na direção correta. As temperaturas caíram mais ainda, aconteceram as maiores nevascas das últimas décadas, o aeroporto passou a cancelar a maioria dos vôos, os trens não puderam mais partir, e Eduardo foi obrigado então a ficar um mês na Suíça sem poder viajar. Uma noite, ao chegar em casa do trabalho, o teto do elevador caiu em sua cabeça. Por pouco não abriu um rombo na testa. Foi quando Eduardo percebeu que o vidro que escondia a lâmpada, estava colado com fita adesiva, no melhor estilo cortição do Grajaú. Puto da vida, ele decidiu que voltaria ao Brasil, que não ficaria mais nenhum dia naquele fim de mundo. Sua cama era péssima, seu telefone não funcionava, a internet estava sempre fora do ar, a TV era de 10 polegadas, com apenas 4 canais que se repetiam em francês, alemão e italiano, e a limpeza do apartamento que deveria ser feita uma vez por semana acontecia na prática de duas em duas, ou seja, ele estava vivendo em um nível de pobreza que fatalmente atrairia a ira de Deus contra ele. Era melhor dar o fora antes que morresse afogado no lago ou soterrado por uma avalanche. Numa cochilada de Deus, conseguiu dar uma reviravolta no destino, mudar para um lugar melhor, com uma garagem coberta inclusive. Em fevereiro, ficou muito satisfeito quando soube que o correio suíço havia entregado, na véspera do Carnaval, os presentes de Natal que ele havia enviado para o Brasil para serem entregues com urgência ainda na primeira semana de dezembro. Ela já havia dado esses presentes como perdidos porque toda vez que ia reclamar nos correios eles diziam “désolé” pois não tinham como localizar a remessa no sistema. Em março o tempo melhorou, e Eduardo voltou a gostar da Suíça. Com o final das nevascas, o aeroporto voltou a funcionar normalmente e Eduardo decidiu ir para Londres com os amigos. Passagens compradas, hotel pago, um vulcão explode, deixando a Europa inteira paralisada. Deus fizera mais uma pequena vingançinha contra ele. Se ele estivesse pagando o dízimo provavelmente nada disso teria acontecido. Eduardo entrou em pânico, pois estava quase na hora de voltar ao Brasil e ele contava os dias para voltar para sua terra, sua família e amigos. Para ele, ficar uma semana a mais seria uma eternidade. Ao voltar para o seu amado Brasil, quando do avião ele viu o Corcovado, o Cristo Redentor e a favela logo embaixo, teve certeza: “Deus existe mesmo, é brasileiro, e não gosta de pobre.”.

6 comentários:

  1. Por via das dúvidas, a adega está sempre com champagne, na despensa sempre tem frescurinhas e os persas estão à postos! Qualquer dúvida que ELE tenha, eu já adianto: "desolé, mais votre colère n´a pas lieu ici!!!" (ou seja: nem vem, que não tem!")
    huahuahuahuhahuahahahahau

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  2. Terráqueo, nunca ri tanto com a desgraça alheia. E não entendo isso de deus não gostar dos desprovidos. Deve ser porque ele é um grande de um pobre de espírito.

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  3. Oi...
    Flutuei por aqui...
    E te deixo com...
    beijos floridos e belos...
    Leca

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  4. Fantástico texto, que me prendeu do princípio ao fim. Cheio de humor, apesar das desgraças, mas bem dizem que rir é o melhor remédio! Àparte as desgraças, certamente que também será possível destilar desses seis meses um texto de coisas boas. Fui vendo desses momentos passarem por aqui. Tudo o que vivemos nessa vida é como um disco dos antigos - há sempre "um lado B", e compete-nos a nós escolher o que tocamos. Se o som é mau, que ao menos sirva para rir! :)
    Estrela do Mar

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  5. Cara Estrela,

    O lado A foi maravilhoso e deu ensejo a várias postagens, a meses de postagens. Mas eu sempre acho mais engraçado o que deu errado. Por isso explorei esse lado no texto. Um grande beijo,

    Terráqueo

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  6. De-li-ci-o-so! Amei! Uma das qualidades que eu admiro nas pessoas é a capacidade de rir de si próprio, ter um olhar condescentes com as próprias desgraças, isso é sinal de inteligência e bom humor. Parabéns mais uma vez!

    Bjs

    Lúcia

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