quinta-feira, 10 de junho de 2010

Invadida pelos sem terra.

A mulher do saco azul não foi feliz. Acreditava em contos de fadas, e aprendeu a duras penas que a vida é como ela é. Teve alguns momentos bons é verdade, mas estava desapontada. Chegou a exteriorizar que há muitos anos não era feliz, que não sabia se queria continuar a viver. Dentre os momentos bons, gostava de contar que uma vez, em uma festa, o violinista parou em sua frente e tocou Fascinação para ela. Isso a emocionou de verdade. Ela se comovia com gestos singelos, com uma música, poesia, obra de arte, ou causos de gente de sítio. Queria tanto ser valorizada, compreendida. Amada pelas suas reais qualidades. Ser lida por quem não conhecia sua linguagem. Quanta ingenuidade. Não acertou nunca, por mais que tenha se esforçado. Fez más escolhas e pagou um preço caro por isso. O chicote foi inclemente. A morte percebeu tanta fragilidade e a chamou cedo. Ironicamente, mesmo refugiada entre os que verdadeiramente a amaram, teve seu pedaço de terra invadido pelos sem terra, e acabou socada em um saco azul. Pobre mulher do saco azul. Nem depois de morta pôde descansar em paz. Que vida, e que morte. Cruzes.

4 comentários:

  1. E que texto!

    Não te parece que, em essência, todas as mulheres são iguais? Vivemos de sonhos, de ilusões, até que a vida vem e se mostra, dá o tombo, e pronto! Nos desiludimos totalmente, e de tudo. O melhor seria mudar o foco, não sei, e idealizar coisas reais. Quem sabe assim, descansaremos em paz.

    Abraço, meu caro!

    P.S.: Como estás?

    ResponderExcluir
  2. Querida Angel,
    Obrigado pelas tuas palavras.
    No fundo tantos os homens quanto as mulheres são iguais. Vivemos de sonhos e de desilusões, com pequenos intervalos de felicidade. O problema é que os sonhos são diferentes, e a dose de generosidade é bem diferente de pessoa para pessoa.
    Mudando de assunto, esse Terráqueo está ensaiando os primeiros passos e aprendendo como caminhar. Melhoro um pouco a cada dia.

    Abraço,
    Terráqueo

    ResponderExcluir
  3. Texto maravilhoso, parabéns.
    Me lembrei do velho do saco, terror das crianças. Talvez o saco azul fosse o terror em forma de cor. Pobre mulher.

    ResponderExcluir
  4. Na minha pequena cidade natal havia várias figuras que lembravam o velho do saco, e lembrei disso ao escrever o texto. Ao escrever, lembrei também daqueles que enchem o saco de qualquer pessoa. Obrigado pelo elogio ao texto. Bj.,

    Terráqueo

    ResponderExcluir

Encontrei seres