quinta-feira, 24 de junho de 2010

Maré de Sorte

Havia uma importante reunião marcada para às 9 horas, e seu gerente havia explicado que era muito importante a presença de todos. Seu colega mais próximo, tremendo debochado, pegava no pé da garota e dizia que ela tinha sempre uma história triste para contar. De vez em quando eram os cachorros que precisavam ir ao veterinário, um parente doente, um piriri, um assalto, etc. Ele sabia que as desculpas eram verdadeiras, mas não perderia jamais a oportunidade de torrar a paciência da doce Bibiana. Embora jovem, ela tinha grande experiência em uma área difícil, era educada, solicita, generosa. Cuidava da sua família e amigos com muito esmero. Um exemplo de ser humano digno, confiável e inteligente. Ainda por cima, era a maior gata. Pele bronzeada, longos cabelos negros, sempre com vestidos justos e bem cortados, parecia uma princesa. Como ela não podia se atrasar, acordou cedo e pegou o frescão (ônibus) do Leblon para a Cidade com bastante antecedência. Logo estava distraída pela paisagem. As ondas estavam imensas, e quebravam na areia com grande estardalhaço, uma delícia. Pensou que era uma privilegiada por viver em uma cidade tão linda, e poder usufruir desse bem estar no caminho para o trabalho. De repente, uma mulher entrou no ônibus e reclamou para o motorista que o ar condicionado não estava funcionando. O motorista educadamente informou que o ar estava funcionando, que ela podia sentar. Minutos depois, entra uma senhora e faz a mesma reclamação. A resposta foi repetida, mas com menos convicção. Bibiana verificou que realmente o ar havia parado de funcionar e que estava ficando quente. No meio de Copacabana, a primeira mulher pediu para o motorista parar e solicitou seu dinheiro de volta, já que o ar condicionado não funcionava. Ele disse que poderia parar, mas não tinha como devolver o dinheiro, pois se assim procedesse ele teria que pagar a passagem. Alterada, ela disse em alto e bom tom que queria seu dinheiro, ordenou que ele parasse e que lhe ressarcisse a passagem imediatamente. O motorista parou, mas disse que não poderia lhe ressarcir, que havia um setor de reclamações de empresa, e que ela poderia buscar o ressarcimento diretamente com eles. Cada vez mais furiosa, ela levantou o dedo em riste e disse que ele era a empresa, e que ela exigia o dinheiro ali e na hora. Sua reclamação não era pelo dinheiro, mas pelo princípio de que o consumidor não pode ser enganado. Não poderiam cobrar pelo ar condicionado, se o ar estava estragado. O pobre diabo novamente repetiu que não podia. Ela respondeu que então ele deveria continuar parado, para que ela pegasse o próximo ônibus sem ter que comprar nova passagem. Ele explicou que o próximo ônibus somente passaria em 20 minutos. Ela aumentou o barraco, e o motorista permaneceu parado, sem saber como proceder. Bibiana decidiu intervir. Explicou que havia outras pessoas com compromissos, e que ela, por favor, fosse gentil e liberasse o ônibus. A mulher falou que ela não se metesse, que eles que esperassem, se ela tinha pressa, pegasse um taxi. Bibiana respondeu que ela estava sendo incrivelmente desrespeitosa com todos os passageiros, que ela refletisse melhor sobre isso. A mulher logo falou: “Cala boca franguinha, se não calar vou encher a tua cara de tapas. A última que se meteu comigo perdeu um dente.”. Bibiana perdeu a paciência e disse: “Não se atreva que eu te coloco atrás das grades.”. Um garotão engraçadinho, mal educado, logo berrou: “Briga de mulher! Briga de mulher! Cuspida! Cuspida!”. Bibiana ficou ainda mais chocada, quase começou a chorar. Ela estava brigando por todos, e ainda havia alguém afim de expô-la a uma situação mais ridícula e até perigosa. Para sua surpresa, a mulher finalmente decidiu partir. Chamou todos de babacas e disse: "Vou embora, mas vocês vão todos a m.". Foi quando alguém berrou: “Finalmente essa bruaca vai embora.”. Outro gritou: “Espírito de porco, mal comida.”. Pra que? A megera mudou de idéia e disse: “Não vou mais.”. Nesse momento um senhor ligou para a polícia, e pediu ajuda. A doida esbravejou, mandou todos se danarem, mas caiu na real e partiu. O motorista tentou dar a partida, mas para a surpresa de todos, o ônibus não ligou. Bibiana teve então que pegar um taxi. Quando chegou no aterro do Flamengo, as vias estavam congestionadas em razão de uma acidente. Para piorar, ainda teve que parar em um banco no centro para sacar dinheiro e pagar o motorista. Pra lá de atrasada, pensou que todo mundo a esperava, e que novamente seria alvo de um comentário sem graça do seu colega. Às 10 horas, finalmente chegou ao trabalho. Entrou esbaforida na sala de reuniões justamente no momento em que as pessoas estavam se despedindo. Não deu para não perceber o olhar de censura do seu gerente e o sorriso de canto de lábio do seu coleguinha de estimação. No dia seguinte, Bibiana acordou cedo, pegou o mesmo ônibus e no caminho abriu o jornal. Logo na capa estava escrito: “Turista francesa espancada por mulher em Copacabana. O motivo foi que a turista não quis ceder seu taxi para a apressada agressora. Seu estado é grave.”. Será?

15 comentários:

  1. Não se pode dizer que foi fatalidade da Bibiana! Definitivamente, não. Quando se tem um compromisso num determinado horário, o ideal é que se saia com muita antecedência. Os portões do vestibular fecharam-se para Bibiana e ela terá que repetir o cursinho por ser tão carioca, tão brasileira, tão impontual e imautra... Acorda, Bibiana! Acorda, levanta e serve um café que o mundo está para acabar.

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  2. Ola, Terráqueo

    Pô cara, gosto dos teus contos, são muito maneiros. O legal é que você sempre cria um desfecho diferente do que parece se enveredar o texto.

    Muito bom mesmo!!!


    Já tô seguindo seu blog cara!


    Forte abraço.

    ##

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  3. Não tenho a menor dúvida, se a história fosse aqui no sul e teria certeza até de quem é a agressora, mas, igual não diria nada com medo de levar uma surra. Adorei :)
    Muito bom!

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  4. Diego, bem-vindo. Por favor volte sempre.

    Bípede,
    O mundo está cheio de feras da penha e mouse burgers.

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  5. Caro anônimo,

    Ao contrário do que você imagina, acordei com bastante antecedência para pegar o meu ônibus. Aliás, estava tão preocupada com a idéia de perder a minha reunião que tive pesadelos à noite. No entanto, acho que você deveria ser um pouco mais como eu, carioca, leve, impontual e, talvez, um pouco imaturo! Não se afobe não que nada é pra já... Como diria um amigo, TE JOGAAAAA ANÔNIMO! O tsunami está passando, mas o mundo não vai acabar! TE JOGAAAAAAAAAAAA!

    bjos

    Bibiana

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  6. Cara Bibiana, estou realizado com a sua visita. É a primeira vez que um personagem ganha vida e vem defender o seu ponto de vista. Algo meio Rosa Púrpura do Caio. Espero que o Anômimo se apresente e lhe responda. Estou gratíssimo por esse momento histórico.
    Um grande beijo,

    Terráqueo

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  7. Caro Terráqueo,
    Acho que a sua personagem - a Bibiana - está sendo um pouco injusta com o Anônimo, que só quer o bem dela e que quer que ela cresça sempre como pessoa e profissional.
    A Bibiana é show!!!!!!! E o Anônimo já percorreu algumas léguas dessa vida... conhece bem essa putada. Por isso, a Bibiana tem que se antenar e escutar as dicas do Anônimo. Viva a Bibiana, viva tu, viva o rabo do tatu!!!

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  8. Pessoas, eu estou com a Bibiana e acho que não dá para viver tendo que sair sempre com muita antecedência de casa. Vira a submissão total a paranóia do trânsito.

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  9. Caro Anônimo,

    Passei mal de rir com a sua mensagem!!! Sei que essa "putada" é f**** mesmo e, por isso, agradeço e prezo muito os seus conselhos!!! Jamanta já aprendeu a lição e está bem mais esperta do que antigamente!!! Obrigada pelas gentis palavras, vc tb é show!!!!!

    Agora, como mera personagem que sou, vou aguardar o meu criador postar novos casos para que eu possa retornar à vida!

    Ah, porrada na putada!!!

    bjosssssss

    Bibiana

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  10. E eu, não sei por que, imaginando a cena, coloquei a cara da procuradora torturadora de crianças de dois anos no corpo da bruaca doida do ônibus! Vai entender...

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  11. Lucia,

    Eu imaginei ela mesmo. Impressionante.

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  12. Muito interessante esse conto e muito boa essa ideia de colocar um dos personagens para
    interagir com o leitor!
    Gostei muito daqui, um espaço que nos oferece
    uma maneira agradável para reflexões e questionamentos. Obrigadíssima.

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  13. Cara Cirandeira,

    Obrigado pela sua visita e comentários. O que impressiona é que não fui eu quem deu vida a Bibiana. O personagem procurou um outro autor para se materializar. Adorei. Volte sempre por favor.

    Abraço,

    Terráqueo

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