terça-feira, 22 de junho de 2010

Te joga

Carioquíssima da gema, não havia situação que Shirley Anne não tirasse de letra. Conhecia a alma humana como poucos, e usava seus conhecimentos psicanalíticos para resolver até as mais singelas situações do dia a dia. Nem as noites de lei seca a impediam de se encontrar com os amigos e tomar quantas caipiroscas lhe apetecesse por medo de ter sua carteira de motorista apreendida. Quando avistava uma blitz policial, imediatamente reduzia a velocidade, acendia a luz interna, abria o vidro e cumprimentava os guardas dizendo: - Parabéns pela campanha, isso está reduzindo em muito o número de acidentes. Fico bem mais tranqüila quando minha filha sai de casa à noite. Dito isso dava seu sorriso, e seguia em frente.
Xica havia saído à mãe. Era bronzeada, usava cabelos longos, roupas coloridas, cuidadosamente escolhidas em lojas conhecidas somente por quem sabe, e acessórios retrôs comprados em brechós do Rio, Paris e Nova Iorque. Tinha a displicência dos bem nascidos, uma generosidade e uma educação rara. Figurinha manjada nas estréias teatrais, lançamentos de livros, e desfiles de moda, era também presente em badaladas Raves situadas no cais do porto ou em Vargem Grande. Publicitária, tomou-se de encantos por um colega de trabalho, que sonhava ser ator, e em pouco tempo estavam íntimos, com uma cumplicidade que deixava a todos enciumados, inclusive seu noivo. Falava nele o tempo todo: - Carlito disse isso; - Carlito fez aquilo; - Carlito é que sabe; - Tadinho do Carlito; - Perseguem o Carlito; - Demitiram o Carlito; - O que fazer para ajudar o Carlito?

Desempregado, a situação do Carlito foi piorando. Em apenas três meses seus míseros tostões foram consumidos, e o pessoal da república de artistas gentilmente pediu que ele cedesse seu espaço para um outro aspirante a ator que podia pagar o aluguel. O pobre Carlito estava desesperado. Começou a falar que não valia a pena viver, que não via saída, que o seu fim era próximo. Sua única razão de viver era a estréia de sua primeira peça teatral prevista para ocorrer em três meses. Ele havia transformado em monólogo, uma peça teatral escrita para vários personagens. Coisa de gênio, Xica e Carlito confidenciavam para os amigos. Uma pena é que ela iria estrear em um teatro pequeno de Copacabana, e a renda prevista não seria muito grande. Mas esse era apenas o começo. Logo ele ficaria conhecido, entraria para a Globo, e o céu seria o limite. Xica ficou penalisadíssima quando escutou do próprio Carlito, aos prantos, que ele havia sido despejado da república, e que como seus pais eram pobres, moravam no interior de Minas, teria que voltar para Barbacena por uns tempos, adiando seu projeto de vida. Aflita, falou que ele poderia ficar em sua casa por uma semana. Que nesse tempo ele encontraria uma solução, um lugar barato para ficar. Ele poderia fazer uns bicos enquanto isso como garçon ou em lojas, afinal o Natal se aproximava e as lojas e restaurantes estavam contratando. Envergonhado, Carlito recusou o convite, agradeceu o carinho, ponderou que o noivo de Xica não gostava dele, mas acabou ficando. Embora pequeno, o apartamento da Xica era em Ipanema, próximo ao mar, contava com dois quartos, uma sala com sacada, e como se isso já não fosse o máximo, ainda tinha uma vista para o Corcovado. Carlito se acostumou rapidamente. E não ficou apenas por uma semana. Ficou por duas, por três, por um mês, dois meses e mais. Já a Xica, ela foi ficando é de saco cheio mas, como tinha bom coração, não sabia como despejar o amigo. Que situação. Até a mãe de Xica simpatizava com o rapaz. Ele havia mexido com seu lado maternal. O casamento de Xica estava próximo, e então combinaram que ele poderia ficar até o final do mês, pois o apartamento entraria em obras, e ele teria que sair para dar espaço para os móveis e roupas do noivo. No dia combinado, Carlito pediu para somente sair depois que a amiga já houvesse ido para o trabalho, porque era muito sentimental e detestava despedidas. Além disso, eles continuariam a se falar todos os dias. Não havia razão para melodramas e choradeiras. Apenas se deram dois beijinhos e tchau amor. À noitinha, Xica chegou em casa feliz. Finalmente só, poderia transitar com seu noivo livremente, sem ninguém para incomodar. Abriu uma cerveja, sentou na rede, e acabou por adormecer. Ao acordar, decidiu tomar um banho e colocar uma roupa mais confortável. Encheu a banheira de sais e espumas, e ficou lá uma hora relaxando. Que banho gostoso. Depois, dirigiu-se ao seu quarto para vestir algo confortável. Mas que surpresa. Seu armário estava vazio. Apenas sobraram as sandálias, os tênis e os sapatos. Até os chinelos e tamancos haviam desaparecido. Seus vestidos, chapéus, colares, acessórios, camisolas e roupas íntimas haviam simplesmente partido com o Carlito. Ligou para Carlito várias vezes, mas ele não atendeu. Procurou pelos amigos em comum, mas ninguém sabia do rapaz. Não é possível. Carlito jamais faria isso com ela. Que decepção com o gênero humano. Seu melhor amigo vender suas roupas para faturar uns trocados. Isso seria muita baixaria. Furiosa, foi ao teatro e soube que ele não aparecia por lá há dois meses. Ele sumira misteriosamente, sem deixar vestígios. Recuperada do baque, Xica casou, foi para Nova Iorque em lua de mel, comprou novas roupas e seguiu sua vida. Na volta, soube por um conhecido que Carlito morava na Glória e estava preparando sua estréia teatral finalmente. Movida por uma profunda ira, foi ao endereço de Carlito que, com medo do escândalo e da polícia (ela ameaçava dar queixa), permitiu sua entrada. Ele confessou que sua atitude fora impensada. Que não havia lhe roubado em razão do dinheiro ou intencionalmentte. O motivo é que ele estava apaixonado pelas roupas. Como ele não tinha o que fazer, um dia experimentara por brincadeira um vestido, depois um colar, um chapéu e uma pulseira. Isso se tornou uma compulsão, e logo ele começou a curtir sua langerie, roupa íntima, tamancos e sandálias. Xica ficou chocada, disse que ele estava doente, que não sabia o que fazer e foi embora. Procurou imediatamente sua mãe que, após fazer a análise psicológica do caso, chegou a conclusão que, mesmo assim, isso fora uma tremenda maldade. Insandecida de ódio, Shirley Anne ligou para o rapaz e disse: - Carlito, aqui é a Shirley Anne. A Shirley é uma psicanalista boazinha, mas a Anne é uma mãe enlouquecida. Carlito, sobe no telhado e te joga. Te joga Carlito! Se você não se jogar eu vou aí e te jogo.
Carlito pediu desculpas, desligou o telefone, decidiu deixar o tempo rolar e a zanga da Anne passar. Na noite seguinte, Shirley Anne foi jantar com amigos, pediu umas caipiroscas, e contou para todos o caso. Como havia outros psicanalistas, foram diversos os interpretaços. Na volta, Shirley Anne avistou uma blitz, acendeu a luz, abriu o vidro, sorriu, deu parabéns, e foi parada. Como recusou-se a fazer o teste do bafômetro, perdeu sua carteira de motorista por um ano. Que raiva do Carlito.

6 comentários:

  1. Ei, Terráqueo, quando é que você vai publicar um conto no Contos Marginais?

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  2. Adorei!!!
    Pois é, eu também pergunto. Textos bons assim têm de circular, ser lidos por muitas pessoas, não podem ficar presos no blog, reféns dos amigos, familiares e seguidores. Bota pra ferver!

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  3. Terráqueo,

    esse texto é sensacional!!!! Adorei!!!

    Virei fã....

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  4. Meu caro anônimo. Não sei quem você é, mas por favor volte sempre. Obrigado.

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  5. Como sempre, adorei! Que imaginação fantástica e que voltas surpreendentes. Parabéns!
    Estrela do Mar

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  6. Caros amigos, fico muito incentivado com as mensagens de vocês.

    Um grande abraço,
    Terráqueo

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