domingo, 18 de julho de 2010

Ciúmes e Dostoiévski

Em os Irmãos Karamazov, Dostoiévski fez a mais brilhante análise sobre o ciúme que eu já li.

“Otelo não poderia se conformar com a traição por nada neste mundo –deixar de perdoar não deixaria, mas se conformar , não, embora fosse de alma pacata e pura como a alma de uma criança. Não é o mesmo que acontece com o verdadeiro cimento: é difícil imaginar a que esse ou aquele ciumento pode acomodar-se e conformar-se e o que pode perdoar! Os ciumentos são os primeiros a perdoar, e isso todas as mulheres sabem. O ciumento pode e é capaz de perdoar depressa demais (claro, apos uma terrível cena inicial), por exemplo, uma traição já quase provada, os abraços e beijos já presenciados por ele mesmo, se, por exemplo, puder ao mesmo tempo asseverar-se, de alguma maneira, de que isso aconteceu “pela última vez” e que a partir desse momento seu rival desaparecerá, irá para o fim do mundo, ou ele mesmo o levará para algum lugar em que esse terrível rival não voltará a aparecer. É claro que a conciliação acontecerá apenas por uma hora, porque mesmo que o rival tenha realmente desaparecido, amanhã mesmo ele inventará outro, um novo, e voltará a ter ciúmes. Poder-se-ia pensar: que amor é esse que precisa ser tão vigiado, de que vale um amor que precisa ser tão intensamente vigiado? Pois é isso que nunca irá compreender o verdadeiro ciumento, não obstante, palavra, entre eles aparecem pessoas até de coração elevado. Também é digno de nota que, estando essas mesmas pessoas de corações elevados em algum cubículo, escutando atrás da porta e espionando, ainda que, com “seus corações elevados”, compreendam claramente toda a desonra em que caíram voluntariamente, mesmo assim nunca sentem remorso, ao menos enquanto se encontram nesse cubículo.”

Acho perfeita a análise de Dostoiévski. Os ciumentos não sentem remorso. Acrescento que eles somente sossegam quando, dominados pelo ciúme, destroem o objeto de adoração e o seu amor passa.

A minha dúvida é se o ciúmes masculino é igual ao feminino? Até acho que sim, que as diferenças são mais de pessoa para pessoa do que de gênero, mas qual a sua opinião a respeito?

10 comentários:

  1. UAU! Que belo texto vc pescou pra discutir. Muito bom mesmo. Agora, quanto ao ciúme, pura patologia. Dai concordo contigo, varia apenas de pessoa para paessoa e não tem nada a ver com gênero. Porém, acrescento um dado: há variação de intensidade, tanto no sofrimento do doente quanto no do objeto obsidiado, conforme a cultura. Cultura em sentido amplo, como também no grau de informação do indivíduo que sofre da doença. Entenda cultura como a influência do meio, ou seja, se é latino, anglosaxão, oriental etc. E também, se foi instruído, se é letrado, intelectual, operário, etc etc...

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  2. Terráqueo, agora, não posso responder (mesmo porque ainda não pensei em que categoria e grau me incluo), mas, à noite ou amanhã de manhã, volto para opinar, que eu gosto de opinar :) Bjs.

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  3. Sou mais propensa a ver o ciúme, assim como a
    inveja, como uma doença emocional. E como tal, pode acometer qualquer pessoa, de qualquer
    classe social ou de qualquer cultura, já que
    as doenças não são um "privilégio" de ninguém.
    Existem ocorrências de casos em todos os quadrantes do planeta, evidentemente que com maior ou menor intensidade. Talvez existam variações na forma como se manifesta entre
    homens e mulheres - estas, são mais declaradas,
    escandalosas e atribuem a culpa (via de regra)à
    rival. Já os homens, são mais agressivos e até
    matam, em geral, a "amada"! Em ambos os casos creio não se tratar de amor, mas de doença...!
    Para usar uma palavra daqui de teu blog, diris
    que esse tema tem muito "pano pra manga"!

    Beijooo

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  4. Perdi o comentário que estava escrevendo. Vou começar tudo de novo! :)

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  5. Então, lá vou de novo, a campeã universal de perder comentários tentar retomar o que estava dizendo, pois dizia eu que havia vasculhado as minhas gavetinhas atrás do meu ciúmes e que elas, para minha surpresa, estavam quase vazias, porque a minha natureza não é ciumenta ou foi reprimida pela pobre moça do saco azul, aquela que me dizia que não é uma boa estratégia demonstrar o que se sente, logo, ela vencida em poucas batalhas, mas, enfim, voltando ao ciúmes, eu tive poucos, tão poucos e sempre tão justificados pela provocação acintosa de alguém, que mal posso falar sobre ele, mas, mesmo assim falo, porque falante sou, e imagino que o ciumento, o de verdade, que sofre e desiste do que ama ou o destrói, é, como disse a Cirandeira, alguém que está adoecendo por uma dor que, raramente, tem a ver com a pessoa a quem ama. E quem adoece, precisa de ajuda, não de piedade.

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  6. Continuando, tive alguns namorados ciumentos. Enjoeei a todos, porque o ciúmes é uma coisa muito enjoativa. Um batia nos outros rapazes porque achava que estavam me paquerando; outro apertava a minha mão porque achava que era eu a paqueradora; e o outro não queria que eu colocasse os pés na rua, só faltava me comprar uma burca. Não aguentei nenhum. Todos definitivamente devolvidos sem remetente e sem remorso algum :)

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  7. Tarde,

    Gostei muito do teu comentário, mas eu acho que o despertar do ciúme não tem tanto a ver com a cultura. O que muda conforme a cultura são as consequências, pois em alguns países é possível a tortura física para se obter a confissão, e inclusive o apedrejamento. Conheci pessoas cultíssimas, bondosas, cosmopolitas, que quando invadidas pelo ciúme mudavam totalmente.

    Cirandeira,
    Concordo que o ciúme seja uma doença, que nada tem a ver com a pessoa amada, e como doença precisa de tratamento. E é interessante mesmo sua comparação entre o homem e a mulher. Vejo os homens aniquilando o objeto amado, tentando de todas as formas baixar sua auto-estima, menos prezando-a, retirando suas qualidades. Já as mulheres, atacam muito mais a outra que, nesse caso, vira a destruidora vulgar.

    Bípede, I see what you mean. Adorei teus comentários. Acho que pude reconhecer os três cavalheiros. Vendo de fora, as histórias chegam a ser engraçado. A do aperto de mão é fantástica. Só não compro a de que foram devolvidos "sem remorso". Essas devoluções tem sempre um alto custo emocional.

    Beijos e abraços a todos.

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  8. Terráqueo, sinceramente, a devolução foi um alívio :) Eu sou de ir até o fim, não deixo nada no reservatório, insisto enquanto há água, mas quando não tem mais uma gota, não tem. E aí é assim. No fundo, todo mundo entende e valoriza o empenho. Todos os meus ex-namorados me querem bem e vice-versa. Acho que o "método" funciona.

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  9. O ciúme às vezes tem a ver com baixa estima e insegurança. Não se sentindo à altura do ser amado ou com medo de perde-lo, manifesta-se o ciúme. Às vezes vira doença. Às vezes vira morte. Mas sempre causa dor. No meu livro de poemas amor não deve rimar com dor e por isso procuro me afastar do ciúme e dos ciumentos.

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  10. Estava lendo este trecho do livro e achei fantástico. Achei que deveria colocá-lo na internet. Pesquisando no Google encontrei o seu blog. Perfeito! Vou copiá-lo na integra para o meu (mencionando a referência). Parabéns.

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Encontrei seres