sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Paladino da Moralidade

Desde a mais tenra idade, Wilsinho foi um católico fervoroso. Encontrou em Deus o pai que não teve, pois quando tinha apenas um ano de vida, uma tragédia aconteceu em sua família. Em uma tarde de domingo de chuva, enquanto sua mãe assistia ao programa Silvio Santos, soou na casa um estampido seco e alto. Quando Dona Pierina chegou no quarto, seu marido já estava morto, caído no chão. Por um infortúnio da vida a arma disparara enquanto era limpada, acertando em cheio no coração de todos eles. Mesmo viúva com um filho para criar, Dona Pierina pôde manter um bom padrão de vida, pois o soldo de Capitão foi mais do que suficiente para sustentar a pequena família. Ela tinha muito orgulho de dizer que nunca precisara de outro homem, que seu filho sempre estivera em primeiro lugar, que jamais colocara dentro de casa um marmanjo a maltratar o seu menino e a respingar urina no chão do banheiro. Alguns dizem que não foram bem esses os motivos de ela ter ficado eternamente viúva, mas isso é especulação e não vem ao caso. Ela era uma mulher prática e uma mãe amorosa, isso é o que interessa. Sentindo-se sozinha, com medo de ser assaltada, ou de qualquer forma amedrontada por algum homem que a imaginasse uma pobre e indefesa viúva, convidou a sua melhor amiga para morar com eles, e juntas criaram o Wilsinho com todo o amor. Elas foram incansáveis. Nada faltou ao menino, cumpriram com esmero o papel de pai e mãe. Muito católicas, todos os domingos a pequena família ia a igreja e, aos 12 anos, Wilsinho tornou-se o coroinha predileto do padre Josué. Um exemplo de bom menino, como o padre dizia em alto e bom tom. O tempo passou, Wilsinho se formou, casou, fez concurso para juiz de direito, e teve dois filhos adoráveis. Dona Pierina, até ser consumida pelo mal de Alzheimer, teve um orgulho imenso do filho. A amiga da mãe, não se sabe a razão, quando Wilsinho tinha 13 anos, foi embora para Recife, e eles nunca mais ouviram falar dela. Mas voltando ao Wilsinho, ele havia definitivamente herdado a perseverança da mãe, seguia suas escolhas e cumpria com as suas obrigações até o final. Para seu desgosto, no quinto ano de casado, já estava para lá de cansado da mulher e dos filhos, mas mesmo assim decidiu ficar com eles até o mais amargo fim. Não era gente de roer a corda. Para agüentar o tirão, passou cada vez mais a se dedicar ao trabalho e a Igreja. Logo se destacou como um juiz conservador, que lutava pela moral e pelos bons costumes. Era contrário a união estável, ao reconhecimento das relações homoafetivas, e a adoção por gays. Um verdadeiro paladino da justiça. Mas eram nas palestras mensais que fazia na igreja, sobre o matrimônio e o povo de Deus, que ele brilhava mesmo. Com a voz alta e emocionada, fazia sempre o mesmo discurso “- Meus caros, o casamento é um sacramento sagrado, não é possível que a sociedade e a igreja tolerem essas aberrações que andam por aí. Sexo é muito importante, mas deve ser feito somente entre homem e mulher. As novelas e os artistas andam pregando o contrário. São todos doentes, pecadores que terão que ajustar suas contas com Deus. Devemos nos unir para rejeitar essa imoralidade, esses indecentes. Até alguns juízes estão sucumbindo a isso, considerando essas relações pecaminosas entre pederastas ou sapatões como relações jurídicas homoafetivas. Isso é um crime contra Deus. Precisamos lutar pelos princípios bíblicos, pelo fortalecimento da Igreja e do povo de Deus. Não é possível que a sociedade apóie os artistas e políticos que, para ganharem notoriedade ou votos, estimulam essa doença que está a destruir o mundo. Vamos boicotar as televisões que estimulam essa desgraça, os políticos que apóiam essa pouca vergonha, protestar contra os juízes que reconhecem seus direitos, blá, blá, blá, blá.”. Sua esposa achava aquilo tudo um saco, mas com medo de ofender o marido sempre dizia “- Você esteve magnífico. Pena que nossos filhos não estejam aqui para ouvir os aplausos.”. Mas ele tinha um lado “B” desconhecido por todos, um fetiche por motoristas de taxi. Isso era algo maior do que ele. Nas tardes em que não havia audiências, ele saía mais cedo do tribunal, escolhia um taxi a dedo, sentava na frente, perguntava ao motorista como estava o dia, e logo lhe mostrava R$ 300,00 dizendo-lhe que bastaria que fossem para o seu apartamento na Glória por 15 minutos. Quando o motorista relutava, ele dizia “- Pensa bem, em 15 minutos você dá uma gozadinha e ainda leva trezentas pratas. Moleza.”. Depois voltava para casa como se nada tivesse acontecido, jantava e começava a provocar sua mulher. Culpava-a pela má-educação e irresponsabilidade dos filhos. Falava que eles nunca estavam em casa. Que precisavam ser mais duros com eles, que a filha estava ficando uma desvairada, que qualquer dia iria dar um mal passo e aparecer grávida. Logo depois, detonava com o filho. Dizia que ele era uma vergonha, que estava sempre drogado, que nunca iria se formar. Responsabilizava a família da mulher pelo caos familiar. Dizia que eles eram uma má influência, e que os filhos tinham puxado ao lado dela. Que não queria mais a amizade da filha com a prima, e que o filho estava ficando igual ao seu cunhado, um abobado da maconha. Acusava a esposa de não fazer nada. Ameaçava de cortar o carro, o celular, a internet, e o cartão de crédito de todos eles, inclusive o dela. Completava seu discurso, dizendo que tinham que pôr limites, que qualquer dia os outros juízes iriam falar que ele não consegue colocar ordem nem na própria casa. Para se aliviar, nos domingos ia a Missa e confessava: “Padre, pequei. Sodomizei e fui sodomizado.” O Padre lhe censurava, mandava rezar 50 Pai Nossos e 30 Ave Marias, e lhe dizia para não fazer mais isso, que além de ser pecado, era perigoso. Mas na outra semana, lá estava ele a repetir a mesma história no confessionário. Uma certa tarde, ele resolveu mudar. Ao invés de assediar um taxista resolveu visitar uma sauna só de homens. Ele havia lido um anuncio na internet e ficara extremamente excitado com a idéia. Ao chegar, perguntou ao funcionário como funcionava. Ele lhe explicou que a casa oferecia uma sauna seca e uma úmida, e também cabines individuais. Que ele receberia uma chave e que dentro do armário haveria uma tolha e dois preservativos. Ao entrar na sauna úmida, ele viu o vulto de um corpo atlético e bronzeado. Se tratava de um jovem com no máximo 20 anos, pois ainda não era muito encorpado, bem ao seu gosto. Se aproximou falando “Vem cá garoto que eu vou te levar pro céu”. Foi quando ele ouviu: “Pai?”.

10 comentários:

  1. Bom dia.
    Passeando pela net, cheguei até você. Gostei do seu cantinho, com bons textos, lindas fotos. Certamente voltarei mais vezes.
    Aproveito para convidá-la a conhecer FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER..., com histórias de nosso Brasil; e MEU CADERNO DE POESIAS, onde coloco poesias que coleciono desde a minha juventude.
    Um forte abraço.
    Que vença o Brasil !
    Saudações Educacionais!

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  2. Olá Terráqueo

    Acho que existem muitos tipos que se fazem paladinos e que escondem uma “culpa”. Eu tenho, como por costume, desconfiar de figuras assim.

    Muitíssimo bom o texto!!


    Forte abraço

    ##

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  3. Cara Silvana, bem-vinda ao blog. Lhe farei várias visitas também.


    Caro Diego,

    Obrigado pelo incentivo.

    Abraços,

    Terráqueo

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  4. pois é, fazer púpito no telhado de vidro...um dia ele quebra, né?

    gostei muito do teu blog

    um abraço pra ti

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  5. Muito bom o teu texto. Gosto da forma como escreves, do domínio que tens no desenvolvimento da narrativa.
    Esses paladinos, disso ou daquilo, que existem
    espalhados por esse mundo afora, são verdadeiras ervas daninhas. Tenho horror a esse
    tipo de gente.(?)

    Um abraço, e obrigada pela visita, pela gentileza.

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  6. Triste mesmo é a distância entre àqueles que deveriam estar tão perto.

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  7. O mundo está cheio deste tipo de hipócritas, e cheio de falsas morais. Lembrou-me uma frase de Fernando Pessoa: "A moral desinteressada, pela moral só, é misticismo, não é natural nem normal."
    A história, como sempre, muito boa, muito bem contada e com um final surpreendente e irónico. Adorei - claro! :)
    Bj

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  8. Andrea,
    Obrigado pela visita e pelo elogio ao blog. Volte sempre por favor.

    Cirandeira,

    Escrevi esse texto porque venho observando que as pessoas mais preconceituosas, seja sobre o que for, são exatamente aquelas que mais criticam nos outros os seus próprios problemas. Esse conto foi inspirado em várias histórias reais que meus amigos foram me contando.

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  9. Bípede,
    Alguns amores são tão fortes que jamais se distanciam. Outros, quando movidos por paixão mesmo perto distanciam-se um pouco a cada dia.

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  10. Estrela, você arrasou com Fernando Pessoa. Obrigado pelos elogios.
    Abraço,

    Terráqueo

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