quarta-feira, 14 de julho de 2010

Sou muito honesto

Não foi fácil conseguir um taxi. O céu parecia que ia desabar e as pessoas estavam saindo do trabalho. O congestionamento era enorme e o carro praticamente não andava. De repente, o motorista acelerou bruscamente e o carro se moveu um metro e meio, quase esmagando um senhor que, por entre os carros, atravessava a rua. Eduardo gritou “cuidado” e o motorista lhe respondeu que não teria problema algum caso atropelasse o cidadão, pois ele estava atravessando a rua em um local impróprio. Surpreso com a resposta, Eduardo tentou argumentar, explicando que não era bem assim. Que não se pode lesionar ou matar uma pessoa porque ela atravessou em local impróprio. Ainda mais se o trânsito estiver parado e várias pessoas estiverem fazendo o mesmo. Os motoristas devem sempre fazer o possível para evitar acidentes. Irritado, o motorista começou então um longo arrazoado de que poderia alegar que não viu, que ninguém poderia provar nada contra ele, que tudo acabaria como suicídio, que testemunhas se arrumam. Com receio de não conseguir outro taxi, Eduardo decidiu ficar quieto. Esse fato lhe lembrou um antigo caso em que um executivo, de última hora, o contratou para representá-lo como advogado em uma audiência no Juizado Especial Civil e Criminal. O executivo havia atropelado um bêbado que se jogara em frente ao seu carro e que, milagrosamente, não sofreu nenhuma lesão séria. Além disso, ele havia prestado socorro e pagado todas as despesas do atendimento médico. Seria uma audiência protocolar muito simples, em que o Juiz perguntaria a vítima se ela tinha ou não interesse em processar civil e criminalmente o motorista que a atropelara. Um pouco antes da audiência, o atropelado chegou acompanhado da sua mulher. Quando Eduardo viu seu rosto ficou apavorado. Ele tinha um olho na testa e o outro no meio do rosto. Eduardo discretamente virou para seu cliente e sussurou: “Mas você me disse que ele não se machucou, que não ficou com nenhuma sequela. Ele parece um monstro”. O cliente então respondeu: “Imagina o meu susto quando ele se virou e eu vi o rosto dele, ele já era assim.”. Durante a audiência, o Juiz perguntou se o atropelado gostaria de mover um processo criminal e de solicitar alguma indenização pelo acidente. Muito honesto, o pobre diabo respondeu que não. Que ele estava bem, que o acidente havia sido sua culpa, e que ele tinha sido socorrido. O Juiz então olhando fixamente para o seu rosto insistiu: “O senhor tem certeza de que não gostaria de pedir uma indenização pelos problemas causados pelo acidente?”. Foi quando sua mulher interveio e disse: “Doutor, ele já era assim, foi atropelado há dois anos por um outro carro.”. Para corroborar sua afirmação, ela fez um gesto com o braço e com a mão em frente a própria boca, indicando que ele bebia. Eduardo estava absorto por essa memória, quando foi capturado pelo rádio que trazia as últimas notícias sobre o “Caso Bruno”, famoso goleiro do Flamengo acusado de seqüestrar a mãe do filho recém nascido, torturá-la por dias, mandar matá-la, jogar pedaços do corpo para serem comidos por 4 cachorros “rottweilers”, e de sumir com os os restos da moça, tudo isso em um sítio usado reiteradamente por um ex-policial de Minas Gerais para executar e desaparecer com pessoas. O motorista voltou então a falar dizendo: “Um idiota esse Bruno. Devia ter feito isso com planejamento, com no máximo mais duas pessoas, pois alguém sempre abre o bico.”. Eduardo ficou com o estômago embrulhado, mas achou melhor silenciar, pois ainda estava longe do destino, e seria muito difícil conseguir outro táxi naquele horário. Se sentindo com razão, o motorista começou um empolgado discurso. Disse que acreditava ser verdadeira a notícia de que a polícia de Minas Gerais havia sido informada, alguns meses antes, de que outras duas pessoas também haviam sido torturadas, executadas naquele local e dadas para os famosos “rottweilers”. Contou que por seis anos fora policial, e que na polícia todo mundo sabe quem presta esses serviços, mas que ninguém toma providências ou tem coragem de abrir o bico, são um por todos e todos por um. Que na polícia tudo funcionava abaixo de dinheiro, até os policiais tinham que pagar para trabalhar. Aqueles que queriam patrulhar as ruas "de carro" ou "de moto" tinham que pagar para o seu superior. Que quem não pagava, acabava a pé, nos piores locais, com as piores tarefas, e que sem dinheiro nada andava no Brasil mesmo. Confessou que para patrulhar as ruas “de carro”, ele teve que pagar ao seu superior durante anos, que fazia o mesmo com o seu superior imediato, em uma cadeia de sucessivas propinas. Eduardo se fez de bobo, e perguntou: "Esses pagamentos não diminuíram seus rendimentos?". O motorista lhe respondeu que não, que ele chegava para o garotão ou traficante e “mineirava” (alusão à prática tida como comum na polícia de Minas Gerais), dizendo: "Ou perde a droga e a grana ou vai para a cadeia?". Eduardo, então, fez a pergunta que não deveria ter feito: “Por qual motivo o Sr. foi expulso da corporação?”. O motorista se ofendeu e disse: “O que é isso Dr.? Não fui expulso não! Sou muito honesto. Quando eu cansei de "mineirar", pedi para sair da polícia e comprei um taxi.".

8 comentários:

  1. Oscilei entre o riso e o horror.Muito boa história. Bem contada, com a cara do nosso infeliz Brasil.

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  2. Excepcional! E agente vai levando... essa vida.

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  3. Agradeço...
    principalmente...
    você...
    querido leitor...
    e escritor...talentoso...
    por me inspirar...

    Beijos
    Leca

    que...
    vai...
    levando...

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  4. Bípede, esse conto foi baseado em um diálogo real. Esse é o Brasil.

    Tarde, obrigado pelo elogio.

    Leca, adorei o teu comentário. Você tem sempre uma leveza que encanta. Obrigado. Bjs.

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  5. Terráqueo. Assustador perceber que esse Texto é a personificação do contexto brasileiro. Muito bem elaborado, inteligente e ótima leitura. amei, copiei para guardá-lo comigo. Obrigada. volto sempre e aprecio seus posts. Parabéns por esse muito bom mesmo!
    Com amor e carinho,
    Sílvia
    PS.: Há novas Postagens minhas no meu Blog. Sinta-se bem vindo!
    http://www.silviacostardi.com/

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  6. Silvia, é uma pena que parte da realidade brasileira seja tão violenta. Muito obrigado pelo incentivo. Um grande abraço,
    Terráqueo

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  7. No Brasil, até a honestidade é relativa... Dependendo do ponto de vista e das circunstâncias tudo é permitido e desculpado. Está longe ainda o dia em que nos livraremos do "jeitinho", da "lei do Gérson" e de outros "costumes". Mas mantenho a esperança, quem sabe com mais 500 anos...

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  8. darling achei genial e ao mesmo tempo lamentável um grande beijo

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