sábado, 23 de outubro de 2010

O espectador

Desde menino ele passava a semana inteira esperando a matinê de Sábado. Na cadeira do cinema, ele ia a guerra, voava com Buck Rogers, viajava com Flash Gordon, e dançava com a mocinha. Logo apaixonou-se pela Elizabeth, Vivien, Marilyn, Natalie, Grace e Ava. Quando não estava a olhar imagens, estava a ler histórias. Na hora de casar, não escolheu muito. A primeira que apareceu com cara de boa moça dos filmes dos anos 50, foi pedida em casamento. O que interessava era o rosto e o figurino, o resto ele dava um jeito. Mas a vida se impôs, com a mulher vieram os filhos, e o trabalho passou a demandá-lo cada vez mais no mundo real. Que maçada. Quanto ao trabalho, não havia nada a fazer, pois era essencial para sua sobrevivência e para sua chegada ao paraíso. Somente através do trabalho altruísta as portas do céu lhe seriam abertas, e uma boa reencarnação lhe seria garantida, mas quanto a família, ela podia esperar. Jamais brincou com os filhos, ou teve uma conversa mais íntima. A única concessão que fazia a um dos filhos, era levá-lo ao cinema quase todas as noites, mesmo que a sessão fosse imprópria. Ele entendia essa necessidade do filho de também ir ao cinema. As demais, jamais entendeu. Foi um excelente provedor é verdade. A beleza da mulher diminuiu, os filhos passaram a criticá-lo, e cada vez mais isolado em seus filmes, o espectador ficou. Até mesmo, durante as festas de família e dias festivos passou a refugiar-se em seus filmes, atrasando os jantares e a vida de todos. Com o tempo, a tecnologia chegou e sua coleção de livros, discos, filmes, Cds e Dvds não parou de crescer. Como um polvo, seus teres tomaram conta do casarão, projetado e decorado no melhor estilo dos filmes norte-americanos. Mas o mundo girou com pressa, ele perdeu sua mulher, sem jamais tê-la conhecido, afastou-se totalmente da família e passou a ver mais e mais filmes. Como não gostava de esquentar o jantar, arrumou alguém para quebrar esse galho, reclamando, no entanto, que a pobre criatura não tinha nível cultural para assistir seus filmes. Dizia que ela era burra, mas precisava dela para cuidar-lhe. Definiu seu segundo casamento como um “Romance de Outono”. O filho retrucou que o que para ele era um “Romance de Outono”, para ela seria a “A Primavera de uma Solteirona.”. Ele que não era de achar graça, riu bastante, e perguntou aonde o filho havia visto esse filme, se estava a venda em DVD. Quando percebeu que estava prestes a morrer, inesperadamente olhou para o filho e disse: "Meu caso é grave. Nem um milagre me salva. Viva, viaje, não deixe de comprar o que você gosta, de ir aonde você quiser, aproveite a vida, ela passa muito rápido.". Meses depois morreu, infelizmente não teve tempo para ver "O Nosso Lar".

8 comentários:

  1. Nem sei se dou risada ou se choro. Pobre do pobre, perdeu o nosso lar!!
    bjs.

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  2. Essa foi sem dúvida uma perda irreparável para ele.

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  3. Somos todos um pouco espectadores e as vezes quando a vida não é exatamente o que esperamos, é bom ter algo com que sonhar, uma pena quando isso se torna maior que a realidade e deixamos de dar valor ao que realmente importa, um beijo.

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  4. Há muitas formas de expressar o amor. Para uns é coisa fácil. A outros, beira o impossível. Mas o amor entre pais e filhos é incondicional e ultrapassa limitações humanas de tempo e espaço... Alguém já disse que de tudo, fica o amor. Sempre o amor. Um beijo.

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  5. O amor sempre fica. Disso não há dúvida.

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  6. Me deu uma tristeza ao ler esse texto... Às vezes sinto que o tempo está passando muito depressa e que estou perdendo algo. É um sentimento intangível (como todo sentimento, aliás rs) mas ao mesmo tempo sólido, pesado, opressor... Ainda bem que isso só ocorre de vez em quando e logo se esvai. A depressão, eu imagino, deve ser sentir isso o tempo todo, sentir que a vida não tem sentido, sentir que a morte pode ser um alívio para a dor da existência. A falta de amor deve ser um passo definitivo nessa direção...

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  7. A falta de amor torna a vida cinza, sem sentido. Que bom que existem pessoas como você que com sua poesia, cores e atitudes, alegram e dão tanta esperança aos outros. Beijos.

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Encontrei seres