sábado, 4 de dezembro de 2010

Os indiscretos

Nos anos 80, uma amiga depressiva, estudante de psicologia, convidou Eduardo para ver um filme que entrava fundo na questão da sexualidade. Segundo ela, embora a história se passasse no Japão, a temática era universal. Ele há muito tinha curiosidade sobre o filme que, quando estreou no Brasil nos anos 70, gerou grande polêmica e desagradou profundamente à igreja. Além disso, ele jamais havia esquecido que ouviu uma respeitável senhora, confidenciar na beira da praia às amigas, que a japonesinha do Império dos Sentidos era fichinha perto dela. Bem, em nome da amizade, do affair incipiente entre os dois, e da curiosidade que a japonesinha lhe despertava, ele disse que sim. Talvez isso aquecesse o casal, e eles repetissem as cenas em casa mais tarde. Rumaram então para a badalada Sala Vogue, local em que passavam os filmes de arte ou do agrado do intelectuais locais, na Porto Alegre dos anos 80, compraram pipoca, refrigerantes, e começaram a assistir ao filme. Ele imaginou que seria um filme com uma linda gueixa submissa, mergulhando cegamente em todas as fantasias do seu amante e senhor. Mas o filme não era nada disso. Era filme cabeça mesmo, e o que começou ruim foi piorando. Não bastasse a sonoridade do idioma japonês não lhe agradar aos ouvidos, o filme era lento, e o casal era muito chato, sem charme algum. Lá pelas tantas, eles começaram a se esgoelar e a amiga de Eduardo explicou que a morte seria o grande orgasmo. Ah tá, respondeu Eduardo. Ele ainda foi bem durante as famosas cenas em que o casal brincava com ovos cozidos. Mas quando ela cortou os testículos do vivente, algo aconteceu e ele não conseguiu mais ver o filme. Enquanto tentava disfarçar o mal estar, tratou de pensar em outras coisas, nas provas que teria nos próximos dias, nos trabalhos com data para entregar, e perdeu totalmente o interesse no filme e até pela deprê , que adorou a cena e fez divagações profundas sobre o tema. Naquela ocasião, Eduardo ficou muito impressionado pelo fato de a cena da castração ter lhe causado tamanho mal estar. Por que tamanha reação? Que complexo seria esse? Isso lhe rendeu várias sessões de análise tempos depois. Passaram-se os anos, e no bar em que Eduardo jantava toda segunda-feira com os amigos, ele foi apresentado a uma linda moçoila que se achava a tal e que fazia questão de deixar isso claro. Na noite da apresentação, sem nenhum constrangimento, ela lhe disse que sabia tudo e mais um pouco sobre sexo, e que achava papai e mamãe coisa de gente sem imaginação. Que se o amante fosse pouco criativo, ela não repetia. A sábia criatura lhe confidenciou, ainda, que seu filme predileto era 9 semanas e meia de amor e que não esperava menos de um bom amante. Disse isso olhando fundo nos olhos de Eduardo. Finalizando, deixou claro que lhe visitaria nos próximos dias. Ele gelou. Sabia que como amante, ele era bem meia boca, do tipo convencional mesmo, e que ela contaria detalhe por detalhe da transa ao seu grupo de amigos. Não, ele não queria ser a nova chacota da turma. Eram famosas as histórias que ela contava sobre o noivo, filho de um rico empresário, que na cama falava que nem criancinha, e que lhe dizia que tinha “piguixa” quando não queria sexo. Assim, toda vez que o noivo chegava, as pessoas logo começavam a falar que estavam cansadas, com preguiça, em frente ao pobre diabo que nada entendia. Sua melhor amiga e mentora, era ainda mais indiscreta. Contava a todos a fixação do namorado em levar uma dedada, e que achava o fim da picada todos os sábados ter que jantar um churrasco e transar com ele logo depois. Segundo ela, o cheiro da carne e do alho exalavam, cortando-lhe totalmente a tesão e, por esse motivo, ela acabava fingindo o orgasmo sempre. Por essas e outras, também quando seu namorado chegava, todos colocavam os dedos indicadores sobre a mesa e desatavam a rir na frente do incauto, que nada entendia. Quando a moçoila ligou dizendo que iria lhe visitar, Eduardo tratou de pensar um modo de impressioná-la. Lembrou do velho filme visto nos anos 80, e resolveu que iria reproduzir as melhores cenas dos dois filmes. Essa combinação do cinema japonês com o americano seria perfeita. Ela iria gostar. Assim, logo após alguns "drinks", ele começou a repetir algumas cenas dos filmes, mergulharam os morangos no champagne, brincaram com mel, com sorvete e com a bebida que era depositada sobre várias partes do corpo da moça, deixando-a excitadíssima, e a cama toda lambuzada. O ápice da noite foi quando ele teve a brilhante ideia de reproduzir a cena dos ovos. Mas como estava quente, e deu “piguixa” de ir até a cozinha colocar os ovos a ferver, o moço pegou do balde de champagne umas pedras de gelo, introduziu na mocinha, e pediu para ela cacarejar feito galinha. Ela que não se mixava para nada, imediatamente começou fazer a dança da galinha, e a berrar cocoricó. Para a surpresa dos dois, o gelo literalmente esfriou a moçoila, que não conseguiu fazer mais nada naquela noite. Depois disso, ainda se viram mais duas vezes, e optaram por um sexo mais seguro, do tipo papai e mamãe mesmo. Segundo ela contou aos amigos de Eduardo, ele era no máximo um 5,5. Era enfadonho mesmo. Ele até que ficou honrado, pois as notas atribuídas por ela aos demais parceiros, normalmente eram bem mais baixas. Umas semanas depois, Eduardo encontrou na praia a melhor amiga de sua irmã que, dentro do mar, comentou com ele que soube que ele tinha tido um caso com a fulana. Como eles haviam crescido juntos, ele confirmou, mas lhe pediu discrição total. Conhecendo bem a moça, sua amiga começou a rir, e ele acabou por comentar a cena da dança da galinha e do cocoricó. Sua amiga quase se afogou de tanto rir. Para surpresa de Eduardo, essa amiga, que ele julgava um túmulo, acabou contando a história para a maior fofoqueira da cidade, que não se agüentou e ligou para a própria moçoila. Furiosa com a indiscrição de Eduardo, ela lhe passou a tal descompostura. Disse-lhe que isso era de uma falta de categoria absoluta. Que jamais se comenta o que acontece entre quatro paredes. Que ele não era o cavalheiro que ela imaginava ter conhecido. Que jamais havia visto tamanha indiscrição. Eduardo reconheceu que havia sido um canalha, pediu-lhe desculpas, e aprendeu uma grande lição: Não se comenta com ninguém os segredos de alcova. Quanto à moça, ela casou, teve dois filhos, e segue com o marido, que está cada vez mais com cara de piguixa.

12 comentários:

  1. Se tudo isso não for mera coincidência e a semelhança com a realidade não for por acaso, por favor, depois me conte que são as tais galinhas :)
    beijos

    ResponderExcluir
  2. Isso é pura ficção científica. Só faltou o monstro da fossa. BJs.

    ResponderExcluir
  3. Darling, tenho sérias dúvidas do quanto esse texto é pura ficção científica, ou se minha memória é criativa mesmo, um grande beijo. adorei a foto do email.

    ResponderExcluir
  4. Darling, Isso é fcção pura. Seria o cúmulo da indiscrição eu contar uma história verdaeira. Bjs.

    ResponderExcluir
  5. Que imaginação, hein Terráqueo. Meus parabéns!
    Às vezes a ficção pode tornar-se realidade, e
    vice-versa, não necessariamente com os mesmos
    personagens :))

    beijo

    ResponderExcluir
  6. Se é ficção você se superou na dança da galinha. Adorei.
    Beijos, Mel

    ResponderExcluir
  7. Mas se ela comentava, porque ele não podia comentar? E a igualdade de direitos? rs
    De qualquer forma, rendeu uma excelente história.
    Bjs ;)

    ResponderExcluir
  8. Minhas queridas leitoras. Isso é 100% ficção. Invenção da pura. Eu jamais seria tão indiscreto de publicar uma história verdadeira. Seria de uma indelicadeza absoluta, e eu não quero ser processado. Me divirto muito em pensar que vocês pensam que conto histórias pessoais. Um grande beijo, vocês alegram minha vida.

    ResponderExcluir
  9. Olhe só, em nenhum momento cheguei a pensar
    que estivesses relatando um caso pessoal. Sempre achei que escreves muito bem, que tua imaginação é mesmo fabulosaa!, podes acreditar.
    O que quis dizer é que existe um fio muito
    tênue entre a ficção e a realidade. Por isso,
    é perfeitamente natural que a imaginação possa
    realizar-se. Ou não?m Essa estória que nos contaste é perfeitamente factível, embora não
    tenha acontecido contigo...não sabemos se "a vida imita a arte" ou se é o contrário. Quem é que sabe? De qq maneira, adoro tuas estórias!

    beijo

    ResponderExcluir
  10. Cirandeira, e eu adoro as tuas visitas. Fico super contente com as tuas visitas e comentários. Um grande beijo.

    ResponderExcluir
  11. "Mas como estava quente, e deu “piguixa” de ir até a cozinha colocar os ovos a ferver, o moço pegou do balde de champagne umas pedras de gelo". Ri muito. Ao menos é bem criativo esse Eduardo, e terá ótimas estórias para contar.

    Abraço, Terráqueo!

    ResponderExcluir
  12. Esse Eduardo é um péssimo amante. Aonde já se viu colocar gelo? Isso só poderia esfriar a moça. Um grande abraço.

    ResponderExcluir

Encontrei seres