segunda-feira, 6 de junho de 2011

O sedutor

Embora tivesse um gosto extremamente refinado para artes, uma formação cultural rara, e fosse um desbravador dos sete mares, ele era famoso pelo pão-durismo. Quando seus amigos zombavam, ele logo respondia que jamais alimentaria a inflação pagando preços exorbitantes, que achava um absurdo gastar uma fortuna com um terno ou com um carro que iriam se desmanchar com o tempo. Sem qualquer pejo, falava que só não era econômico com duas coisas: sua coleção de CDs e com sexo, nessa ordem, que fique bem claro. A coleção de CDs era imensa, pois não havia semana em que não comprasse vários títulos, os quais eram guardados em numerosas estantes fechadas com vidro. Mas contrariando a teoria de que quem é econômico com coisas é também pão-duro com amor, ele era capaz de qualquer loucura quando apaixonado, era até generoso. E foi em busca de mais uma estante, que ele conheceu Lucilene, morena de lábios carnudos, olhos grandes, cabelos escuros e cacheados, e dona de um par de coxas largas e de seios fartos que não saíram mais da sua cabeça. Ele tentou disfarçar, perguntou o seu nome, enrolou um pouco, mas a moça não deu muito papo. Estava trabalhando e era extremamente profissional. Sabia como era difícil arrumar um emprego, e que seu salário faria falta na casa em que vivia com a mãe e com os dois irmãos menores no Grajaú. A loja era boa, com filiais em 18 cidades, e Lucilene acreditava que com o tempo haveria por certo a chance de se tornar supervisora de vendas, e com isso pagar a tão sonhada faculdade de administração. Era importante então manter o foco, pois na empresa havia uma política de metas rígidas, e quem não realizasse o número de vendas esperados por três meses consecutivos, ou fosse visto de bate-papo, seria sumariamente despedido. Como era persistente, Carlos orquestrou um plano para seduzi-la. Iria sistematicamente a loja efetuar pequenas compras, até que ela finalmente cedesse aos seus encantos. E foi assim que Carlos pela primeira vez comprou um aparelho de ar condicionado, comprou uma televisão com tela plana, trocou sua cama por um modelo “colonial”, equipou sua cozinha com uma torradeira, e adquiriu até mesmo um aspirador de pó. Astuto, deu um jeito de ser atendido por ela, todas as vezes, que por mais gentil que fosse, fingia não estar entendendo as intenções do moço. Ele resolveu então mudar a abordagem, convidá-la diretamente para sair, jantar fora, ir ao cinema, dar-lhe parabéns pela beleza e inteligência, mas isso não adiantou. Ela gostava do Wladimir, um jovem mecânico, frequentador da mesma igreja, cuja visão dos braços fortes e morenos a enchiam de desejo. Depois de diversas investidas, Carlos foi ficando enlouquecido, não conseguia mais segurar seus ímpetos, a obsessão por Lucilene invadiu seus pensamentos e sonhos. Ela teria que ser sua, ainda que por uma única noite, custasse o que custasse. E foi assim que ele decidiu dar sua derradeira cartada. Às 7 horas da noite esperou a moça na parada de ônibus e, quando ela se aproximou, caminhou ao seu encontro, puxou do bolso um maço de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), e colocou a dinheirama toda na mão da moça. Disse-lhe que para receber essa quantia, precisaria apenas visitar-lhe uma vez. Aturdida e envergonhada, a moça não sabia o que fazer. Olhou para o lado, e percebeu o risinho de canto de olho de um transeunte e o olhar de reprovação de uma senhora. Mas isso era muito dinheiro. Ela jamais havia tocado em um bolo de notas de R$100,00 tão grande em sua vida. O diabo e a tentação tomaram sua mente. Embora seu corpo e lábios dissessem que não, o olhar da moça revelou sua ganância. Carlos percebeu o conflito e, ousado, partiu para o ataque. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, tacou-lhe um beijo, o qual foi respondido, de forma automática, com um retumbante tabefe que chamou a atenção dos passantes. Humilhado pelo tabefe e pela sequência de xingamentos, Carlos pegou o dinheiro de volta e partiu com ódio. Para esquecer o ocorrido, evitou o centro comercial em que Lucilene trabalhava por quase um ano, até que em um final de tarde foi obrigado a pisar no local, para comemorar o aniversário de um velho amigo. Tentando evitar Lucilene, passou rapidamente pelos dois primeiros andares, dirigindo-se, sem olhar para os lados, para a choperia marcada. Depois de muitos chopes, ele resolveu partir. Quando estava quase em frente a escada rolante deu de cara com Lucilene, que explodira para os lados e para frente. Incrédulo, ele percebeu que seus lindos seios fartos haviam crescido demais, suas coxas se avantajado, e que seus cabelos cacheados estavam alisados por muito henê, um total desastre. Mesmo assim, como obsessão é obsessão, a velha tara voltou a bater. Impulsivo, ele se aproximou da moça e sem qualquer receio falou: - Lucilene, você tem que ser minha. Eu te dou R$ 1.000,00 por essa noite. Indignada, ela disse com cara de ódio: - Mas no ano passado você me ofereceu R$ 5.000,00. Foi quando o lado geminiano de Carlos berrou, e ele respondeu: - Quem mandou você barangar. O final dessa história ficou tão feio, que eu achei melhor terminar por aqui.

6 comentários:

  1. Por vezes é melhor terminar logo a história. O a gente fica sem jeito ou ficam os personagens e não há mais volta a dar.

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  2. Que estória incrível!, Terráqueo. Está tão real, tão convincente que nem parece ficção. Gosto tanto dos teus contos, têm sempre uma pitada de humor, de ironia, e a estória flui
    de uma forma tão natural que a gente ler de um fôlego só!

    beijos

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  3. Constantino, briguei muito com o final do conto, não sabendo se iria adiante ou não. Cheguei a pensar em um final mais ameno: "No dia seguinte, sentindo necessidade de falar, confidenciou com um amigo, que, tremendo bocudo, espalhou a história e ainda escreveu um conto baseado nela. O mais engraçado, é que com a fama de pão-duro do moço, alguns acham que é tudo gozação e outros que ele até ofereceu a grana mas não pagaria. Ninguém, no entanto, considera a hipótese da história ter efetivamente acontecido." Abs.


    Cirandeira, isso tudo é a mais pura ficção, mas adoro ver as pessoas achando que aconteceu comigo ou com pessoas conhecidas. Obrigado pelo elogio. Bjs.

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  4. ahahahahaha
    Pois eu adorei a frase final. Deu o toque perfeito de loucura ao texto :)
    beijoss

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  5. Ela podia ter respondido:

    "Eu não sou a garota de Ipanema
    Mas você também não é um Tom Jobim"

    Vander Lee em Subindo a Ladeira

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  6. Eu acho que ele achava que fazia o estilo "Baba Baby". Bjs.

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Encontrei seres