sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011



Retrospectiva 2011
Dois mil e onze foi um bom ano? Acho que sim, mas tenho dúvidas. Não foi um ano como 2001 tenho certeza, mas talvez em 2021 eu venha achar que foi excelente. O fato é que eu cheguei até o final, o que já é ótimo, pois no ano passado o que havia era apenas a perspectiva de um ano, com votos de boas festas recebidos de vários amigos. Para minha surpresa, e com o auxílio da internet, em 2011 reencontrei velhos amigos de infância, me reaproximei de outros, e pude estar mais próximo dos diversos amigos que tenho por esse mundo a fora e a dentro. Não foi nesse ano que encontrei o derradeiro amor da minha vida mas, pensando bem, foi um ano no mínimo interessante sob essa ótica também. Acho que o Santo Antônio que me foi presenteado por uma velha amiga que mora em Verona ajudou muito. Também não foi nesse ano que eu ganhei na mega sena, me tornei um advogado famoso, ou publiquei meu livro de contos. Mas foi muito bom trabalhar nesse ano. Encarei desafios, trabalhei em assuntos interessantes, com colegas que para minha sorte são também grandes amigos, interagi enfim com pessoas que muito me acrescentaram tanto sob o ponto de vista profissional quanto humano. Além de sobreviver ao ataque de um elefante, cuidadosamente registrado pela minha máquina fotográfica, exterminei a facadas uma dor que me infernizava a vida, e posso dizer que pela primeira vez em três anos fiz as pazes com as minhas pernas. Viva a cirurgia. Fui feliz para o hospital pois acreditava que daria certo e deu. Essa foi a terceira vez que operei minhas pernas, mas todas valeram muito. Acho que logo estarei esquiando, mergulhando ou voando novamente. Aguardem pelas fotos. Só não estarei soltando foguetes na hora da virada porque tenho medo de me queimar, e porque o passar do tempo trouxe outro pequeno probleminha. Agora é no pescoço. É dose eu sei, mas estou otimista. Hum, já ia esquecendo, comprei também um apartamento em um local lindo, que em 2012 vou reformar para usá-lo nos finais de semana. Melhores momentos de 2011: La Boheme no Metropolitan, Giuglio Cesare na Opera Garnier, um passeio incrível em Paris, com uma surpresa linda pela manhã, uma noitada em Maputo, um Safári no Kruger Park, a Páscoa com a família, uma viagem para Salvador, ver a expressão do meu sobrinho ao assistir pela primeira vez um musical (Um violinista no telhado), assistir Luzes da Cidade e o Lago dos Cisnes no Municipal, os sessenta anos de uma tia querida, um passeio pelo Central Park com a minha irmã mais velha e sobrinha, a Bípede Falante me cuidando, um jantar com grandes amigos há poucas semanas atrás no Alessandro e Federico. Só não considero um ano maravilhoso porque houve baixas, e isso afasta a possibilidade de ter sido um ano aprovado com louvor. Desejo a todos um feliz 2012, e que aproveitem cada dia intensamente, porque o tempo presente é o único garantido. Beijos e abraços.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um feliz Natal

Eu adoro árvores, sejam frondosas, grandes, pequenas, verdes, vermelhas ou amarelas. Algumas eu gosto pela imponência, outras por sua elegância ou delicadeza, pelas suas folhas, pela sua sombra, ou até mesmo pela falta de galhos. Sejam elas vivas, sejam elas genealógicas, ou de Natal, elas me encantam por tudo o que simbolizam. Mas as minhas favoritas são as árvores de afeto, aquelas que crescem lentamente, muitas vezes de forma desorganizada, com galhos mais fortes ou fracos, dependendo do sol, da água, dos cuidados e das intempéries enfim. Para vocês eu fiz essa árvore de Natal, repleta de ornamentos que representam memórias, desejos, aspirações, sonhos de uma vida melhor, de encontro, de paz, e de crescimento contínuo das relações afetivas. Que as nossas diferentes árvores de afeto sejam adubadas com muito amor, carinho e zelo, para que possam crescer bem, com muitos galhos, folhas, cores ou formatos. Um feliz Natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um bom verão para todos

A chegada de mais um verão no hemisfério Sul, lembrou-me de alguns verões particularmente inesquecíveis para mim, e de um belíssimo filme chamado “Verão de 42”, que conta a história de um jovem que se apaixona pela primeira vez por uma mulher casada, que no decorrer da história perde o marido e se envolve com ele. Além da história, a música de Michel Legrand é maravilhosa e a atriz principal é belíssima. Não resisti e transcrevi o início do filme, que permanece incrivelmente atual, pois fala de sentimentos atemporais como o amor, paixão, insegurança, e das perdas que ocorrem durante a vida a fora, e que na juventude têm uma dimensão maior ainda:

“E aquela casa, era a casa dela.
E nada, depois que a vi pela primeira vez, e ninguém que conheci depois, conseguiu me deixar tão assustado e confuso. Por que ninguém que conheci me fez sentir tão certo, tão inseguro, tão importante, e tão insignificante.”



Espero que esse verão também seja algo que valha a pena recordar para todos nós.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Natal, Ano Novo e os Direitos Humanos

Natal e ano novo são datas importantes para reflexão. Meu desejo para 2012 é que as pessoas pensem e reflitam sobre a importância dos princípios contidos da Declaração Universal dos Direito Humanos. Transcrevo apenas os primeiros artigos, pois é fácil encontrá-la na íntegra na Internet.
“Artigo I
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
Artigo II
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Artigo III
Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”

Todos nós precisamos aplicar tais princípios sem reservas. Os seres humanos têm um lado violento, intolerante, racista, preconceituoso, xenófabo, e precisamos refletir sobre o absurdo de cultivarmos noções pré-concebidas, sentimentos tão mesquinhos e que incitam ao ódio e propagam sofrimento.

Vale a pena também assistir ao importante discurso da Hillary Clinton realizado em 06 de dezembro passado, em celebração ao Dia dos Direitos Humanos, que além de salientar a importância da Declaração, tocar nos problemas do racismo, intolerância religiosa, direitos da mulher, de forma inusitada apoiou com veemência a defesa dos GLBT. Trazer esse assunto às Nações Unidas e fazer as solicitações que ela fez, quando milhares de pessoas estão sendo tratadas com intolerância, sendo torturadas, presas, sofrendo estupros coletivos e corretivos, levando chibatadas, sendo consideradas criminosas e executadas em seus países, simplesmente por terem outra orientação sexual, é um marco histórico nas Nações Unidas e, embora alguns possam considerar que foram apenas palavras ditas por mais um político cínico, para uma elite indiferente em Genebra, dentro de uma organização sem força, é no mínimo um bom começo. Acredito na sinceridade do discurso, e que isso trará uma repercussão positiva para toda a humanidade, ainda que a longo prazo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Amor à primeira vista.

Quando seu olhar brilhava, nada o detinha e ele vivia esse amor até as últimas conseqüências. Ele era um romântico, acreditava piamente que o amor ocorre com o primeiro olhar, ou nunca ocorre. E foi em busca de uma tela para seu clínica psiquiátrica, que Pablo conheceu Vitória, em uma galeria de arte em Ipanema. Ela era uma jovem artista plástica com talento limitado, mas que decidira um dia que precisava sair do interior e morar na cidade grande. Como não havia se formado em nada, optou por se tornar pintora, afinal a arte está muito mais nos olhos do expectador do que no trabalho do próprio artista, e ela havia ficado impressionada ao saber quanto sua prima de Campinas havia pago pelas obras de um japonês, que se assemelhavam muito às manchas que ela fizera na escola primária. Como não havia tempo, e nem um ateliê gabaritado na sua pequena cidade, ela foi ao Rio, comprou alguns livros, visitou algumas exposições, leu sobre o abstracionismo, e ficou convencida de que a verdadeira arte é a abstrata, a arte sem qualquer figura ou referência que possam sugerir algum tema, e que portanto a única coisa que importava era a cor sobre a superfície. Criativa, habilidosa e simpática, logo caiu nas graças dos críticos cariocas que passaram a rotulá-la como inovadora. Fazia seus trabalhos com manchas, pigmentos e colagens. Já havia pintado com café, argila, piche, e até feito uma série inteira pintada com sangue humano, o que foi uma sensação na cidade. Teve um jovem ator famoso que comprou cinco de uma só vez para sua coleção. Só não continuou com essa técnica em razão da dificuldade em conseguir um estoque razoável do material para jogar em suas telas e porque fora aberto um inquérito policial para que ela esclarecesse a origem do sangue usado. Ela chegou a fazer experiências com o sangue de galinhas mortas, e até com sangue de vaca, mas o melhor efeito era o do sangue humano. Pablo estava decorando seu consultório, mas não queria nada que pudesse de qualquer forma dar aos seus pacientes qualquer dica sobre sua personalidade. Acreditava que quanto menos seus pacientes soubessem sobre ele, melhor ele poderia analisá-los. Assim, após ouvir o discurso da Vitória sobre o abstracionismo, concluiu que seus quadros seriam perfeitos para sua decoração neutra, moderna, fria e impessoal. Vitória percebeu que ele havia ficado encantando, e gentilmente ofereceu-se para levar algumas telas para que ele pudesse ver qual ficaria melhor no ambiente. Ao chegar na clínica, jogou o maior charme para cima de Pablo, que imediatamente puxou-lhe contra o seu corpo e a possuiu em cima do próprio divã. Ela gostou da pegada do rapaz, e em pouco tempo estavam vivendo juntos. Sua relação foi muito bem, até que no terceiro ano ele descobriu que ela estava tendo um caso com outro artista. Pablo sofreu como um cão, emagreceu, perdeu o sono, jurou nunca mais se apaixonar. A gota d’água foi quando ela lhe confidenciou que estava grávida do outro, mas que queria que ele assumisse a filha como sua, pois o artista dera no pé. Ele ficou furioso com o pedido, e ela o ameaçou com escândalos e processos, mas ele não caiu nessa. Apenas sentiu-se ainda mais infeliz. O tempo passou, Vitória teve Vitórinha, e ele ficou alguns anos sem se apaixonar de verdade, até que um dia ele olha para uma moça no metrô, entra no mesmo vagão e começa a olhá-la. Não muito alta, ela tinha um corpo perfeito, sua pele era branca, seu cabelo era preto, e seus olhos eram de um castanho muito escuro. Tomado de um impulso incontrolável, ele se aproxima, entrega seu cartão, e pede seu telefone. Impressionada com a segurança do Pablo, e também pela sua beleza e virilidade, ela vai direto com ele para um café, e mais tarde para seu apartamento. Seu nome era Laura, e ela lhe confidenciou que estava terminando um namoro de anos. Fogosos, a dupla se entrega a uma maratona interminável de malabarismos sexuais durante semanas. Pablo lhe perguntava com insistência quando ela terminaria o namoro, e ela lhe dizia que ainda não estava pronta. E foi justamente quando ela estava quase decidindo por ele, que ele encontrou Vitória no Arpoador. As recordações foram imediatas, ele esqueceu tudo o que havia sofrido, e os dois saíram de mãos dadas do lugar. No dia seguinte Laura lhe telefona, mas é Vitória que atende. Furiosa com Pablo, ela pediu que ele nunca mais a procurasse. Passados dois meses, Vitória lhe diz que precisava de mais, que um homem só não a satisfazia, e como ele não era “open minded” para permitir seus encontros com outros, era melhor serem somente amigos. Devastado, Pablo correu para Laura, que sequer atendeu seus telefonemas. Enviou-lhe uma série de mensagens, e-mails, flores, bombons, mas ela estava irredutível. Decidira ficar com seu antigo namorado, e nada a afastaria do altar. Como a insistência era grande, ela o bloqueou das suas redes sociais e e-mails, e pediu novamente que nunca mais a procurasse. Disse-lhe que estava com medo, que iria a policia se tal fixação continuasse. Como ela não atendia suas ligações, ele passou a pedir o celular dos seus amigos somente para ouvir a voz da moça. Em uma ocasião ela retornou a chamada para o celular de um dos amigos perguntando a razão da ligação e quem ele era. Cara de pau, o amigo respondeu que não iria cair nesse golpe, que ela queria saber quem ele era para depois pedir um resgate e desligou na sua cara. Um dia, depois de meses sem saber da Laura, Pablo a vê na praia e liga para esse mesmo amigo que estava fotografando árvores e orquídeas no Jardim Botânico, e lhe pede que ele o encontre imediatamente na paia em Ipanema porque a Laura estava por lá. Seu amigo foi direto para a praia, tendo em punho sua poderosa máquina fotográfica. Diante daquela objetiva, Pablo lhe pede que ele fotografe a Laura, que percebe a situação e fica o tempo todo cuidando o fotógrafo. Por mais que ele tenha tentado disfarçar, foi impossível fotografá-la para a frustração do Pablo. O tempo passou, o noivo de Laura lhe deu um belo fora, ela se mudou para São Paulo, mas a obsessão do Pablo continuou. Numa sexta-feira a noitinha, o amigo de Pablo por acaso a vê caminhando no calçadão de Ipanema, e descobre pelo “Facebook” que ela estava no Rio em razão de uma festa badalada que ocorreria no morro da Urca. Ele avisa o Pablo que, mesmo com medo de subir de bondinho, vai a festa com uma estagiária da clínica, e desfila em frente a Laura como se ela sequer existisse. No dia seguinte, sabendo que ela amava Ipanema, Pablo pede para o amigo lhe acompanhar até a praia para que ele tivesse companhia quando a encontrasse. Ao chegarem na praia, sentaram-se a dez metros de Laura que, fingindo não estar prestando atenção, pediu a sua amiga que ela olhasse para os dois. O amigo de Pablo percebe que a amiga de Laura estava olhando para ver se eles estavam olhando e que ela percebe que ele também estava olhando para ver se elas estavam olhando. E assim passam em torno de uma hora no jogo do eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que eu sei que você sabe. Os amigos dos ex-amantes já estavam quase falando entre si e com vontade de gargalhar da dupla, quando Pablo resolveu mergulhar. A novidade foi que Laura ao vê-lo entrar no mar, esperou um pouco e dirigiu-se ao moço, que a cumprimentou e seguiu sem parar. Ela foi embora e, para a surpresa de Pablo, uma hora depois lhe telefonou convidando-o para ir a sua casa, antes que ela viajasse de volta para São Paulo. Ele disse que estava cheio de areia, salgado, com a roupa molhada e que passaria em casa antes. Decidida, ela disse que iria encontrá-lo na sua própria casa. Pablo não acreditou, isso era a felicidade suprema. Após uma transada espetacular, ela fala para ele que ele precisava malhar mais, que ele estava menos inchado, que tinha até um início de barriguinha. Ele que, por sua vez, inexplicavelmente após a transa, passara a sentir um vazio imenso e a vê-la com outros olhos, respondeu: “ - E você minha querida, quando vai começar a exercitar o seu cérebro?”. Ela ainda veio um outro fim de semana para o Rio, saíram juntos na sexta, e Pablo ligou do próprio Carioca da Gema ao amigo, para apresentá-lo por telefone à Laura. O amigo pôde escutar ela perguntando: “- esse seu amigo é aquele maluco da máquina fotográfica?”. Mas no sábado, Laura lhe diz que tinha um compromisso, o aniversário de uma amiga, e que nenhum homem era convidado. Ele entendeu o adeus, mas não sentiu muito não, pois ao ser adicionado por Laura novamente no “Facebook” ficara chocado com o português da mocinha, que agradecia aos amigos a “maguinifica compania”. Vaidoso, Pablo decidira se preparar para seu grande e definitivo amor, que um dia iria acontecer. Procurou um dermatologista para tratar da pele, um “personal” para acabar com a barriga, e um urologista para enfrentar o mais delicado dos seus complexos. O médico lhe explicou que somente com uma cirurgia dolorida conseguiria desentortar seu membro e sugeriu que ele aproveitasse a ocasião para acrescentar alguns centímetros. Passado o momento da vaidade ferida, Pablo fez a cirurgia, mas algo deu errado, e em decorrência de uma fibrose, o que era torto e para cima ficou curvo para baixo dificultando a prática sexual através de uma série de posições. Ele quis fazer uma outra cirurgia para corrigir o problema, mas o médico lhe explicou que ele teria que esperar um bom tempo, pois uma outra cirurgia de imediato poderia deixar sequelas. Pablo já não dormia mais de tristeza e desanimo quando viu uma jovem alta, magérrima, com cabelos loiros armados para cima, olhos violetas e seios enormes de silicone, dentro de um vestido preto colado ao corpo, marchando sobre uma sandália rosa choque de quinze centímetros no saguão do aeroporto Santos Dumont. Seu nome era Alícia, e atração entre eles foi imediata. Ela disse para ele segui-la discretamente até o banheiro feminino do andar de baixo que estava vazio. Enlouquecidos, entraram no banheiro e dirigiram-se para a cabine. A moça era tão especial que rapidamente encontrou uma posição que permitiu a ambos a concretização do ato sexual sem qualquer problema. Eles estavam quase chegando ao clímax, quando alguém entrou no banheiro e disse “credo”, não foi bem essa a palavra é claro. Envergonhados, eles decidiram esperar um pouco, mas outras mulheres chegaram. Como os vôos estavam chamando, eles decidiram enfrentar a platéia. E foi com a maior naturalidade que Pablo abriu a porta e disse a todas as senhoras presentes que sua amiga não estava bem, que estava vomitando muito e querendo desmaiar. Ninguém respondeu, e eles se mandaram antes que fossem presos por atentado ao pudor. Três dias depois, eles se encontraram novamente, e ela lhe ensinou a posição 68 e meio, que era algo entre a 68 e a 69 do Kama Sutra, que enlouqueceu o Pablo e fez ele se apaixonar como nunca havia sonhado. Passou a dizer o tempo todo “Delícia de Alícia, Alícia que Delícia”, para o deboche dos seus amigos que se matavam de rir. Um mês depois Pablo a convida para se unir a ele a uma viagem para Nova Iorque, o que ela prontamente aceita. Ao chegarem no JFK, o funcionário da imigração ao ver aquele ser tão colorido e exuberante, cujos olhos violeta contrastavam com os olhos castanhos do passaporte, a leva para uma sala em que uma família inteira de mexicanos prestava esclarecimentos. Alícia explica que é uma "personal stylist", que está na companhia do noivo, um famoso psiquiatra brasileiro, e mostra que tem dinheiro na bolsa. Com o olho treinado, o funcionário repara no seu extravagante Rolex de ouro, na sua bolsa Louis Vuitton enorme, nos seus óculos Versace, no seu casaco de pele tigrada, e a libera. Curiosamente, pergunta se ela conhece a “Frick Collection”, museu situado na 5a. Avenida, que estava com uma exposição fantástica de arte italiana. Ela disse que não, e ele então pega um papelzinho, escreve “frick” em cima, cola na capa do seu passaporte, e a deixa passar. Pablo não engoliu a história da exposição e entendeu o deboche do funcionário que estava apenas sinalizando para os demais que ela era uma doida inofensiva, uma “freak”. Com pena da Alícia, ele nada disse. Em Nova Iorque a moça mostrou-se ainda mais desinibida, especialmente para utilizar o cartão de crédito do Pablo. Foram vários cremes, perfumes, sapatos, bolsas, vestidos, chapéus, óculos, colares, “langeries”, ela praticamente renovou seu guarda roupas inteiro sem qualquer constrangimento. Apaixonado, mesmo sentindo no bolso, Pablo não reclamou, pois ele queria muito fazer feliz aquele ser tão especial. Uma semana depois, na hora de embarcar para o Rio, Alícia lhe chama e diz que precisava de um tempo, que havia recebido ligações e mensagens de seu ex-namorado, um usineiro baiano, e que ela iria partir direto para Ilhéus tão logo chegasse ao Brasil. Eles entraram no avião e o pau comeu. Embora estivessem na primeira classe, o vocabulário dos dois foi abaixo da crítica. A vontade de Pablo era de estrangular a perua, que ainda falou bem alto o problema do moço. Ao chegarem no Brasil, ela recolheu suas três malas e partiu. Mas a vida continuou e o Pablo não se entregou. Voltou ao médico, corrigiu seu probleminha, e um dia encontrou uma antiga colega da universidade em um congresso de psiquiatria. Começaram a sair como amigos, contaram suas mágoas, e acabaram por dar muitas risadas dos seus sofrimentos. Em um fim de semana, beberam demais e resolveram transar para ver como seria. Foi bom, satisfatório, um seis dentro de uma escala de zero a dez, e eles continuaram a se ver e a transar sem qualquer cobrança ou expectativa. Depois de dois anos, perceberam que tinham pulado a paixão, que essa jamais seria a conexão entre os dois, que a paixão decorre de fantasias que ao se desfazerem esvaziam a relação, que o que havia entre eles era muito maior, era algo real baseado na confiança, no respeito, carinho, cumplicidade, que eles haviam encontrado o amor. Logo depois eles casaram e no mês que vem terão um bebê a ser batizado com o nome do seu melhor amigo: “Eduardo”.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Palavra Ausente

Adorando esse livro de contos. Marcelo Moutinho foge um pouco do realismo tão em voga na literatura brasileira e norte-americana e, sob uma ótica impressionista, narra cenas do cotidiano. Recomendo muito. Esse autor ainda será muito estudado, podem acreditar.

Segue abaixo um pequeno trecho do conto "Cavalos Marinhos":
"As caixas tomam todo o apartamento: minhas coisas.
Me ocorre agora que não houve tempo para adeus, nenhum rito capaz de dramatizar em gestos a partida. As cigarras não anunciaram a chuva.
É possível que em alguns anos fique apenas a imagem dele, a voz de quem se vai sempre desaparece mesmo. Talvez as piadas privadas, os fracassos forjados na cumplicidade, o inventário dos afetos trocados sem noção de urgência.
Nesse hiato entre o que foi e o que virá, despeço-me das caixas - não é a derradeira despedida, espero -..."

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O mar da Guanabara

Estava para amanhecer e em um ritmo lento ele era conduzido por entre as velhas fontes e esculturas francesas, em frente a Baía de Guanabara. De repente, um vento suave sussurou um murmúrio, que tornou-se cada vez mais forte e audível, a medida que transformava-se em ventania. A voz era doce, e ele ficou hipnotizado enquanto ela lhe dizia: “- O mar da Guanabara é o mais perigoso dos mares. Com o seu espelho enorme ele prende as imagens refletidas e capta as palavras ditas e pensadas, as quais são deixadas em suspensão permanente. Se você mergulhar, encontrará as palavras e as memórias dos que por aqui passaram, e principalmente os sentimentos que todos fazem questão de esconder. Se queres te conhecer, vem, mergulhe agora. Lembrarás de tudo o que sentiste, terás pleno conhecimento de ti mesmo, serás mais justo nas tuas decisões.". Sem muito refletir ele mergulha, encontra os primeiros gugus e dadas, os sons de antiga canções de ninar, a voz amorosa da mãe, os cumprimentos pela formatura, até chocar-se com uma voz distante que um dia destroçara seu coração. Falta-lhe o ar, e o peso e a velocidade das palavras aumentam não lhe deixando voltar à superfície. A corrente que elas fazem é muito forte, e seu retorno é bloqueado pela água turva e densa das memórias, que lhe atordoam, lhe deixam triste, furioso, vingativo, com ódio das pessoas, até que o seu coração para de bater. Minutos depois, reanimado por um grupo de pescadores, ele acorda na beira da praia. Ele olha para todos e, com total indiferença, lhes agradece. Levanta-se, olha para o mar e compreende que unido novamente às suas memórias, ele realmente detinha todo o conhecimento da sua vida, mas que havia perdido a capacidade de esquecer, de perdoar as pessoas, de amar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Flume

Embora minhas pernas nem sempre me obedeçam, eu me movo pelos sonhos, pelo ar, pela vontade de estar próximo e, mesmo com os passos da dor, cruzo terras e oceanos para encontrar àqueles que amo.


Flume
I am my mother's only one
It's enough

I wear my garment so it shows
Now you know

Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon

I am my mother on the wall, with us all
I move in water, shore to shore;
Nothing's more

Only love is all maroon
Lapping lakes like leary loons
Leaving rope burns
Reddish ruse

Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon

Calha
O sou o único de minha mãe
É o bastante

Eu visto minhas roupas para que seja visível
Agora você sabe

Só o amor é todo cor de vinho
Penas grudentas em uma calha
O céu é o ventre e ela a lua

Eu sou minha mãe na parede, com todos nós
Eu me movo pela água, de margem à margem
Nada mais

Só o amor é todo cor de vinho
Lagos envolventes feito patos prudentes
Deixando a corda queimar
Avermelhado ardente

Só o amor é todo cor de vinho
Penas grudentas em uma calha
O céu é o ventre e ela a lua

A purificação

A relação do Eduardo com hospitais vinha da infância. Como seu pai era um dos poucos médicos da cidade em que nascera, no dia do seu nascimento, as freiras do hospital local tocaram os sinos às 7 da manha, cantaram uma música no quarto de Eduardo, e colocaram um laço azul e outro rosa na porta, para a emoção da sua mãe que havia tido um casal de gêmeos, e que adorava contar essa história. O desejo do seu pai por um filho médico era grande, e ele insistia em levar o filho no hospital todos os sábados antes de irem para o sítio olhar vacas, pastagens e galinhas. Várias vezes Eduardo teve que visitar o berçário, salas de cirurgia e embora, escondido na biblioteca, ele devorasse os livros de medicina e revistas do pai, nada adiantou. Eduardo não gostava do cheiro de hospital e do ambiente pesado e triste. Seu pai e sua mãe lhe falaram repetidas vezes que hospitais eram também locais de muita alegria, de nascimentos e de cura. Mas aquilo não era para o Eduardo definitivamente. Para ele, pior do que isso, somente o mugir das vacas, cheiro de cavalo, o barulho das cigarras, e o radinho de algum peão sintonizado em uma programa com música sertaneja. Vendo que o filho não seria médico, seu pai lhe disse que ele poderia ser o quisesse, mas que ele não gostaria que Eduardo fosse advogado, profissão tida por ele como a favorita dos picaretas, mas que era a que ele sempre quisera, mas não tinha coragem de mencionar. E foi assim que Eduardo resolveu ser economista, mas foi só fazer as cadeiras relacionadas ao Direito para mudar de curso. Seu pai apenas pediu que ele não interrompesse o primeiro curso, que ele fizesse os dois cursos de forma concomitante e, sem reclamar, pagou as duas faculdades para o filho. Eduardo já estava formado em economia e formando-se em direito quando o pai todo contente veio lhe mostrar os fórceps alemães que havia ganhado da viúva de um velho amigo médico, e que eram de uma qualidade ímpar, que não se via mais nos anos 80. Claro, que além de mostrar os fórceps, ele ainda explicou para o Eduardo como ele deveria posicioná-los, fazendo questão de colocá-los nas suas mãos. Só de tocar nos instrumentos, Eduardo sentiu um frio na espinha. Ele não disse nada para o pai, mas entendeu claramente que o desejo do filho médico permanecia. Passaram-se os anos e Eduardo já com quarenta e tantos vai visitar o pai doente, que por ser médico sabia que lhe restavam poucos meses de vida. O pai lhe conta que tem um lugar que ele queria lhe mostrar, e com muito sacrifício se arruma e leva o filho para conhecer as novas instalações de uma clínica médica com salas de cirurgia, repouso, etc. Penalizado pela situação do pai, Eduardo olhou tudo pacientemente e fez rasgados elogios. Desde os tempos em que o pai era vivo, Eduardo lutava contra uma dor constante nas pernas que insistia em incomodar. Após vários anos de tratamento, infiltrações semanais, cirurgias em ambas as pernas, muita fisioterapia e musculação, Eduardo achou que quase todos os seus problemas haviam desaparecido e que as suas dores logo fariam parte do passado. Mas sem qualquer cerimônia uma dor diferente começou a surgir justamente quando ele estava em uma viagem. No avião de retorno ao Brasil, ele chegou a pensar que estaria com uma trombose, pois aquela dor lhe era estranha, forte, formigava, parecia que estava com o pé inchando dentro de um gesso, e irradiava-se pelo lado e pela base do pé até a canela, fazendo-o lembrar da época em que teve que engessar os dois braços com fraturas múltiplas. Ao chegar no Brasil, Eduardo correu para o seu médico que só de olhar e tocar no local diagnosticou uma síndrome nada grave, mas que causa muita dor, e que somente é resolvida pelo modo cirúrgico. Para desencargo de consciência eles fariam mais uma série de infiltrações, que provavelmente não funcionariam. Eles tentaram por algumas semanas, mas como previsto, o tratamento clínico nada adiantou. Na segunda semana de tratamento a perna de Eduardo piorou muito, seu pé ficou extremamente dolorido, a sensação de dormência aumentou, e para compensar o pé com problemas, ele começou a forçar as outras articulações que começaram a também a doer. Foi então que Eduardo entrou em desespero, e pediu para ser operado com a maior urgência possível. Seu pedido foi atendido e Eduardo foi internado em uma das melhores clínicas do Rio de Janeiro, famosa por atender atores e celebridades. Eduardo já havia feito as outras cirurgias nessa clínica, mas ficou meio chateado quando foi fazer os exames necessários a cirurgia, e ao entrar no belo saguão em estilo inglês, ficou com a mão toda melecada, o que lhe deu um desconforto imenso. Para escapar da meleca, revolveu empurrar a porta pressionando a madeira, a sensação foi pior ainda. Mas como o tempo urgia, no dia seguinte ele estava cedo na clínica. Ao entrar no quarto para se trocar, ficou ainda mais chateado quando viu um chumaço de cabelos curtos na pia do banheiro, e outro sobre o porta papel higiênico. Pelo cumprimento dos cabelos, Eduardo imaginou tratarem-se do último paciente que provavelmente os havia perdido em razão de alguma quimioterapia. Lhe pareceu até um deboche o papel mencionando “desinfected”. Como Eduardo já havia entendido que ligar para a portaria não adiantaria nada, e que em minutos ele seria anestesiado, resolveu ele mesmo limpar a sujeira, para não passar tão mal no retorno. O assistente do anestesista chegou, lhe mostrou um Dormonid, apelidado de boa noite Cinderela, e lhe disse que aquele remedinho iria lhe derrubar. Eduardo falou que achava que não seria suficiente, que há muitos anos tomava Dormonid para suportar as longas viagens aéreas que fazia, e que demorava a pegar no sono. Ao chegar na sala de cirurgia, Eduardo acordou, quis ver o médico, a cirurgia, etc., para o desespero do anestesista que não conseguia lhe apagar. Pelo grau de sedação, o médico acreditou que o Eduardo, que já não havia dormido direito as duas noites anteriores, dormiria até a tardinha, e enviou-lhe para o quarto em que ficaria supervisionado pela enfermagem da clínica. Mas o Eduardo era duro na queda, e logo depois da cirurgia acordou lépido e fagueiro, ligou para os familiares, agradeceu suas mensagens de face book, e chamou a enfermagem pois estava louco de fome e sede. A enfermeira lhe disse que seu almoço seria servido às 15 horas e desapareceu. Eduardo também pediu para colocar um pijama, pois ele receberia visitas, e ela disse que faria isso depois. Por volta das duas e meia da tarde, a enfermeira retornou, ele cobrou o almoço e ela lhe disse que ele deveria esperar até às 15horas. Para a sorte do Eduardo, um casal de amigos chegou para lhe visitar. Passam às 15horas, 15h30, 16 horas, 16h15 e ninguém aparece. Eduardo, além de faminto, em razão do jejum de 20 horas, mesmo anestesiado da cintura para baixo, sentia sua bexiga explodir, seu abdômen inchar e doer, e apertava a campainha para a enfermagem insistentemente, que nunca mais apareceu. Sua amiga, achando aquilo o fim da picada foi duas vezes no posto da enfermagem, mas eles nada fizeram. Desesperado, Eduardo ligou para a clínica do seu médico pedindo socorro, e somente após isso apareceram uma série de pessoas da ouvidoria da clínica perguntando qual era a reclamação do Eduardo, do que ele não havia gostado. Ele começou por destacar a falta de higiene da belíssima clínica e narrou todos os fatos acima. Depois de tanta reclamação, o pessoal da clínica passou a ter o desempenho imaginado, mas como consequência da anestesia e de ele ter ficado tanto tempo segurando a urina, ele teve um bloqueio de bexiga (bexigoma) que lhe causou uma cólica e uma dificuldade incrível para voltar a urinar normalmente, etc, o que além de desagradável é bem perigoso. Engraçado foi quando às 17 chegaram com o café da tarde para o Eduardo que consistia em leite (Eduardo é alérgico, vomita na certa), suco de abacaxi (ele tem gastrite) e café preto. Eduardo disse que estava esperando o almoço, e a atendente lhe informou que naquele horário não havia mais almoço. Logo depois, apareceu a nutricionista, dizendo que havia mandado aquele café enquanto preparavam o almoço, pois ela sequer havia sido informada que o Eduardo estava hospitalizado, mas que logo o almoço seria servido, o que de fato aconteceu por volta das 18 horas. Sua médica lhe visitou, sua acompanhante chegou, e Eduardo achou que teria uma noite melhor, mas não teve. A anestesia sumiu, a dor se apresentou e ele passou a noite inteira sem piscar o olho. No entanto, sua acompanhante lhe surpreendeu. Tratava-se de uma enfermeira relativamente jovem, bonita, preste a casar, apaixonada pelo noivo, e que estava muito contente pois havia finalmente encontrado uma casa para alugar. Vendo que a dor de Eduardo não sumia, falou que acreditava em Deus e que pertencia a Igreja messiânica, fundada no Japão em 1935, por Mokiti Okada, também denominado Meishu-Sama, que significa o Senhor da Luz. Explicou-lhe que essa é uma religião que acredita na reencarnação e nos antepassados, frisando, com um aviso de não esqueça, que o nosso sangue são os nossos antepassados. Uma religião que tem como objetivo a criação do paraíso terrestre, que deve se desenvolver na mesma proporção do progresso material, com maior aceitação ao livre arbítrio, e que o bem e o belo andem juntos. Definiu “Paraíso Terrestre” como o mundo ideal ou mundos felizes, onde a trilogia verdade, bem, belo, atua de maneira a erradicar a doença, a pobreza e o conflito. Destacou que somente quando for estabelecido o paraíso no mundo a humanidade será feliz. Eduardo estava achando tudo maravilhoso, até que ela explicou que todas as dores e mazelas fazem parte da nossa purificação e que se tomamos remédios, essa purificação é impedida, fica prejudicada, suja pela medicação. Eduardo não gostou do que ouviu, pois por esse critério tudo o que passou até hoje nada lhe ajudaria a enfrentar o dia do juízo final. Delicada que era, a enfermeira pediu licença para lhe ministrar o Johrei. Ele lhe disse que precisava saber o que era isso antes de aceitar, e lembrou imediatamente de que quando menino, no meio da roça, quebrou os dois braços ao cair de um carretão e o capataz resolveu ele mesmo consertar as fraturas, o que o levou a se esconder para baixo do carretão e a gritar pelo pai. Ela lhe explicou que ele não seria tocado, que se tratava de um banho de luz, enviado por Deus e pelo Senhor da Luz, através da medalha que trazia no pescoço. Eduardo aceitou, e ela explicou que ele sentiria um calor, o que efetivamente ele sentiu. A delicadeza da enfermeira foi imensa, e diversas vezes durante a noite, na penumbra do quarto, ele pôde percebê-la com a mão erguida em sua direção dando-lhe o banho de luz. Chato que só ele, Eduardo perguntou-lhe o que ela faria se tivesse um filho doente, se ela interromperia a medicação em nome da purificação. Ele lhe falou que sim, que seu irmão quase morrera, que a sua mãe suspendera medicação e passara a tratá-lo com os banhos de luz, e que em razão disso ele milagrosamente havia sido curado. Eduardo perguntou se isso não poderia ter sido consequência da medicação, e ela lhe afirmou que não. Eduardo apagou a luz, tentou dormir, mas a dor não deixou. Vencido pela dor, às 4 da manhã decidiu escrever um conto, enquanto esperava o café previsto para às 6 horas, mas que até o momento em que Eduardo finalizou esse conto, ainda não havia chegado.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Terráqueo vai a luta para vencer

Como eu sou um ser que insiste em andar, amanhã volto ao estaleiro e enfrento sem medo, mas inteiramente dopado, o bisturi. O jeito é levar na esportiva e curtir a anestesia e o descanso forçado. Da última vez os remédios para a dor e febre me derrubaram totalmente. Dormi em uma semana, o que eu não durmo em um mês, sem dizer que quando voltei da anestesia achei que estava em um outro lugar, um lugar calmo, silencioso, que tem um lindo lago, montanhas com neve e que falam francês. Daí me dei conta que eu estava vivo e só podia estar delirando, porque se eu tivesse morrido teria ido para o paraíso que é quente, barulhento, desorganizado, com muito sol, areia e mar, e que certamente deve ser muito parecido com o meu Rio de Janeiro.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Os amores de Luciamara

Como as coisas não iam muito bem no Brasil, Adair decidira tentar a sorte na China. No início, Luciamara não gostou muito da idéia, pois detestava todos os produtos chineses, que para ela eram sem qualidade, falsificados e cafonas. Isso sem falar que comiam cachorro e macaco, tinham espalhado a gripe pelo mundo, e falavam um idioma que ela jamais conseguiria entender. Por outro lado, Luciamara viu nessa decisão a chance de finalmente marcar a data do casamento, e para ela foi uma surpresa quando Adair, depois de onze longos anos de dedicação exclusiva, lhe falou que preferia ir sozinho e que se tudo desse certo mandaria buscá-la dentro de um ano. Luciamara chorou cachoeiras, reclamou do mundo, culpou a sogra, porém esperou. No primeiro ano ainda recebeu algumas ligações e cartões, mas no segundo Adair simplesmente silenciou, sequer atendeu seus telefonemas. Foi quando Luciamara decidiu mudar de ares, se divertir um pouco. Com um grupo de amigas, que conhecera no vigilantes do peso, partiu para Salvador. Foi só chegar naquela terra abençoada que Luciamara conheceu um engenheiro alto, forte, bronzeado, de cabelos castanhos e olhos verdes chamado Rafael, e que ainda por cima também morava na Ilha do Governador. Ele já estava nos seus quarenta e alguns é verdade, mas ela também não cozinhava na primeira fervura. Contrariando todos os seus princípios católicos e a regra passada pela irmã mais velha de que somente deveria dar no segundo encontro, Luciamara entregou-se a uma frenética noite de amor. A química foi imensa, e eles passaram o fim de semana inteiro praticamente no hotel, para a surpresa de suas amigas e para o falatório das demais senhoras da excursão. Dois dias antes da data prevista para o seu regresso ao Rio, ele teve que voltar, pois havia muito trabalho a ser feito. Luciamara estranhou que ele não lhe telefonou como havia sido combinado. Encafifada, ligou para o trabalho de Rafael e quase enlouqueceu quando lhe informaram que ele levara um tiro e estava entre a vida e a morte na UTI do Hospital do Fundão. Desesperada, ela correu para o hospital onde aos prantos se apresentou à família e aos demais, como a namorada de Rafael. Eles se olharam surpresos, especialmente porque a mulher de Rafael também estava presente. Sentindo-se rejeitada, traída e humilhada novamente, Luciamara resolveu se afastar por definitivo, embora tenha ligado para a enfermaria todos os dias para saber notícias. Rafael era forte, gostava de viver e não se entregou. Tanto lutou que em um mês pôde voltar ao trabalho. Só não teve forças para ligar para a Luciamara, que agarrada ao seu Santo Antônio tinha certeza que Rafael a procuraria. Duro mesmo foi quando Luciamara leu no jornal que Rafael havia morrido em razão de um outro tiro, e que haviam finalmente descoberto que o autor dos disparos era um funcionário demitido por ele. Penalizada com a situação de Luciamara, uma colega da escola em que ela prestava coordenação pedagógica lhe confidenciou que arrumara marido no site "www.amorperfeito.com.br". Com pose de superioridade, Luciamara falou que não precisava desse tipo de ajuda, e que ela se viraria muito bem, mas foi só chegar em casa que entrou no site e criou um perfil um tanto quanto melhorado. A foto nem era tão antiga, tinha apenas quatro anos, mas fora tirada em uma época em que Luciamara, estraçalhada por uma gastrite, havia perdido 8 quilos, posteriormente recuperados com juros e correção monetária. E não é que o site funcionou. Em dois dias Luciamara marcou um jantar com um homem descrito como alto, magro e bem sucedido. Luciamara produziu-se toda para a ocasião. Carregou na maquilagem, comprou uma capa esvoaçante de organza preta, e empuleirada em uma plataforma altíssima, adentrou no local marcado. A primeira impressão do seu candidato a marido foi que a namorada do Batman havia chegado. Ele também não era exatamente o que dizia a bula, embora efetivamente fosse alto (1m90), esbelto (pesava 70k), e bem sucedido (possuía uma loja de roupas no Saara), o cabelo pintado de preto não ajudava muito, parecia peruca, sem falar que o gajo usava uma camisa justa de cor vinho, com gola “V”, da qual saía um tufo enorme de pelos pretos. Aqueles pelos todos em um formato triangular imediatamente lhe lembraram uma vagina e, pudica que ela era, não conseguiu mais olhar para o rapaz. Passou os 5 minutos inteiros do encontro olhando para o alto. Tão fixado estava seu olhar para o lustre, que ela nem percebeu quando ele, sem pagar a conta, levantou-se da mesa e partiu. Preocupada com o futuro, Luciamara decidiu ser menos exigente, e aceitou finalmente conhecer o sobrinho da sua vizinha, que segundo ela era um amor de pessoa. A própria encarnação da bondade e “finesse”, um verdadeiro lorde inglês. Dono de um escritório contábil, Wilsinho não era muito bonito. De estatura baixa, cabelo grisalho e calvo, com a testa sempre suada em razão do excesso de peso e respiração ofegante, ele estava longe de lhe provocar qualquer excitação. Muito pelo contrário, lhe dava até uma gastura. Mas como o tempo corria rápido, ela faria o que fosse necessário para que sua mãe parasse de dizer que tinha alma de solteirona. O namoro fluiu bem, Wilsinho era realmente muito educado. Fora criado pela avó que não poupara recursos, amor e dedicação para fazê-lo um homem de bem. E ele era respeitador, muito respeitador, tão respeitador que após três meses de namoro nada acontecera. No início ela até achara isso bom, porque beijar aquele beiço enorme e babado seria realmente difícil, mas depois ela começou a cair na real. E isso aconteceu justamente quando a avó de Wilsinho, com 93 anos de idade, veio a falecer. Wilsinho ficou transtornado, chorava alto e falava repetidamente: “Minha vovó, tão jovem e tão cheia de vida morreu. Isso não poderia ter acontecido.”. Foi quando seu primo mais jovem chegou e disse: “Por que você não comprou um caixão de criança? A vovó encolheu tanto que só ocupa a metade do caixão.”. Ao ouvir aquilo, Luciamara desatou a gargalhar de forma convulsiva no velório. Quanto mais Wilsinho reclamava e chorava, mais ela gargalhava. Ofendido pela falta de sensibilidade da moça, Wilsinho pediu que ela nunca mais o procurasse, e rejeitou todos os pedidos de desculpas intentados por Luciamara nos diversos meses que se seguiram. Luciamara já estava conformada com seu futuro de tristeza e solidão, quando o novo professor de filosofia a convidou para ir a uma festa que ocorria uma vez por mês, nos mais diversos locais, e que era frequentada por intelectuais, artistas, gente famosa e moderna. Por falta de outros programas, ela acabou por aceitar o convite. Na festa, ela pôde perceber que os homens presentes estavam mais interessados em fazer amigos e que as mulheres queriam fazer novas amigas. Foi quando seu colega lhe disse que se ela estava tendo dificuldades de encontrar companhia, ela deveria duplicar suas chances de conhecer alguém, que ela não deveria descartar alguém em razão de sua preferência sexual. Ela falou que não era fanchona, que isso contrariava a bíblia, e para tranquilizar-se desatou a beber. Ele contra argumentou que se ela não havia experimentado, não poderia saber se era ou não era, e que amor é um sentimento, algo muito mais sublime do que sexo. Ela já estava bem tontinha, quando uma moçoila de pele clara, cabelos negros e ondulados se aproximou e sorrindo lhe disse: - Como vai Luciamara, lembra de mim? Eu sou a Valmi do clube da Ilha, mas agora todo mundo me chama de Val.”. Luciamara lembrou imediatamente, e ficou bastante surpresa ao ver que a outrora feiosa, tímida e desengonçada Valmi da aula de natação, havia se transformado em uma mulher deslumbrante e sem papas na língua. Valmi era uma verdadeira mulher alfa, e foi logo colocando a mão no ombro da Luciamara e dizendo: “Você não caminhava, você triunfava na Ilha. Você pescava triunfando.”. Luciamara não conseguiu entender tais afirmações, e a Valmi lhe deu uma chave de pescoço e beijou a sua boca. No começo ela achou aquilo estranho, mas depois abriu seus lábios e deixou rolar. Naquela noite, Valmi lhe convidou para a sua casa, e Luciamara acabou passando o sábado e o domingo por lá também. Poucos meses depois, Luciamara mudou para o elegante apartamento da Val no Leblon e, dois anos depois, o irmão da Valmi doou sêmen para a fertilização de Luciamara. Elas tiveram um filho adorável, chamado Lucio Mario, que chama as duas de mãe, e foram felizes por um bom tempo, até que a Val a trocou por uma outra garota bem mais jovem, chamada Maria. Ah, Adair foi preso na China, acusado de traição e fusilado em praça pública. A esposa de Rafael ficou contentíssima com o recebimento do seguro. O gajo da gola "V", cujos tufos de pelo no decote agora lembram uma aranha caranguejeira, continua sem sucesso algum a procura de uma noiva, Wilsinho ficou hipertenso, teve um AVC e ninguém entende o que ele diz, e Maria chutou a Val por um homem.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mel minha amiga

A Mel minha amiga tem uma segunda família cujos integrantes foram adotados por ela carinhosamente. Essa família é bem mais estranha do que costumam ser as biológicas. Tem caretas, artistas, gente bonita, feia, e até mesmo um povo que habita o Castelo de Grayskull. Aos seus integrantes ela oferece carinho, ouvidos alertas, olhos ternos, e no momento da adoção um novo sobrenome que pode ser “meu amigo” ou “minha amiga”. Defini-la ou explicá-la seria inútil e impossível. Apenas posso dizer que ela é autêntica e confiável. Que ao seu lado a vida é melhor, as coisas tristes são menos tristes, e às vezes até engraçadas. Ela é tão rara que chego pensar que ela escapou de uma história em quadrinhos. Gosto da Mel minha amiga.

Encontrei seres