sábado, 17 de dezembro de 2011

Amor à primeira vista.

Quando seu olhar brilhava, nada o detinha e ele vivia esse amor até as últimas conseqüências. Ele era um romântico, acreditava piamente que o amor ocorre com o primeiro olhar, ou nunca ocorre. E foi em busca de uma tela para seu clínica psiquiátrica, que Pablo conheceu Vitória, em uma galeria de arte em Ipanema. Ela era uma jovem artista plástica com talento limitado, mas que decidira um dia que precisava sair do interior e morar na cidade grande. Como não havia se formado em nada, optou por se tornar pintora, afinal a arte está muito mais nos olhos do expectador do que no trabalho do próprio artista, e ela havia ficado impressionada ao saber quanto sua prima de Campinas havia pago pelas obras de um japonês, que se assemelhavam muito às manchas que ela fizera na escola primária. Como não havia tempo, e nem um ateliê gabaritado na sua pequena cidade, ela foi ao Rio, comprou alguns livros, visitou algumas exposições, leu sobre o abstracionismo, e ficou convencida de que a verdadeira arte é a abstrata, a arte sem qualquer figura ou referência que possam sugerir algum tema, e que portanto a única coisa que importava era a cor sobre a superfície. Criativa, habilidosa e simpática, logo caiu nas graças dos críticos cariocas que passaram a rotulá-la como inovadora. Fazia seus trabalhos com manchas, pigmentos e colagens. Já havia pintado com café, argila, piche, e até feito uma série inteira pintada com sangue humano, o que foi uma sensação na cidade. Teve um jovem ator famoso que comprou cinco de uma só vez para sua coleção. Só não continuou com essa técnica em razão da dificuldade em conseguir um estoque razoável do material para jogar em suas telas e porque fora aberto um inquérito policial para que ela esclarecesse a origem do sangue usado. Ela chegou a fazer experiências com o sangue de galinhas mortas, e até com sangue de vaca, mas o melhor efeito era o do sangue humano. Pablo estava decorando seu consultório, mas não queria nada que pudesse de qualquer forma dar aos seus pacientes qualquer dica sobre sua personalidade. Acreditava que quanto menos seus pacientes soubessem sobre ele, melhor ele poderia analisá-los. Assim, após ouvir o discurso da Vitória sobre o abstracionismo, concluiu que seus quadros seriam perfeitos para sua decoração neutra, moderna, fria e impessoal. Vitória percebeu que ele havia ficado encantando, e gentilmente ofereceu-se para levar algumas telas para que ele pudesse ver qual ficaria melhor no ambiente. Ao chegar na clínica, jogou o maior charme para cima de Pablo, que imediatamente puxou-lhe contra o seu corpo e a possuiu em cima do próprio divã. Ela gostou da pegada do rapaz, e em pouco tempo estavam vivendo juntos. Sua relação foi muito bem, até que no terceiro ano ele descobriu que ela estava tendo um caso com outro artista. Pablo sofreu como um cão, emagreceu, perdeu o sono, jurou nunca mais se apaixonar. A gota d’água foi quando ela lhe confidenciou que estava grávida do outro, mas que queria que ele assumisse a filha como sua, pois o artista dera no pé. Ele ficou furioso com o pedido, e ela o ameaçou com escândalos e processos, mas ele não caiu nessa. Apenas sentiu-se ainda mais infeliz. O tempo passou, Vitória teve Vitórinha, e ele ficou alguns anos sem se apaixonar de verdade, até que um dia ele olha para uma moça no metrô, entra no mesmo vagão e começa a olhá-la. Não muito alta, ela tinha um corpo perfeito, sua pele era branca, seu cabelo era preto, e seus olhos eram de um castanho muito escuro. Tomado de um impulso incontrolável, ele se aproxima, entrega seu cartão, e pede seu telefone. Impressionada com a segurança do Pablo, e também pela sua beleza e virilidade, ela vai direto com ele para um café, e mais tarde para seu apartamento. Seu nome era Laura, e ela lhe confidenciou que estava terminando um namoro de anos. Fogosos, a dupla se entrega a uma maratona interminável de malabarismos sexuais durante semanas. Pablo lhe perguntava com insistência quando ela terminaria o namoro, e ela lhe dizia que ainda não estava pronta. E foi justamente quando ela estava quase decidindo por ele, que ele encontrou Vitória no Arpoador. As recordações foram imediatas, ele esqueceu tudo o que havia sofrido, e os dois saíram de mãos dadas do lugar. No dia seguinte Laura lhe telefona, mas é Vitória que atende. Furiosa com Pablo, ela pediu que ele nunca mais a procurasse. Passados dois meses, Vitória lhe diz que precisava de mais, que um homem só não a satisfazia, e como ele não era “open minded” para permitir seus encontros com outros, era melhor serem somente amigos. Devastado, Pablo correu para Laura, que sequer atendeu seus telefonemas. Enviou-lhe uma série de mensagens, e-mails, flores, bombons, mas ela estava irredutível. Decidira ficar com seu antigo namorado, e nada a afastaria do altar. Como a insistência era grande, ela o bloqueou das suas redes sociais e e-mails, e pediu novamente que nunca mais a procurasse. Disse-lhe que estava com medo, que iria a policia se tal fixação continuasse. Como ela não atendia suas ligações, ele passou a pedir o celular dos seus amigos somente para ouvir a voz da moça. Em uma ocasião ela retornou a chamada para o celular de um dos amigos perguntando a razão da ligação e quem ele era. Cara de pau, o amigo respondeu que não iria cair nesse golpe, que ela queria saber quem ele era para depois pedir um resgate e desligou na sua cara. Um dia, depois de meses sem saber da Laura, Pablo a vê na praia e liga para esse mesmo amigo que estava fotografando árvores e orquídeas no Jardim Botânico, e lhe pede que ele o encontre imediatamente na paia em Ipanema porque a Laura estava por lá. Seu amigo foi direto para a praia, tendo em punho sua poderosa máquina fotográfica. Diante daquela objetiva, Pablo lhe pede que ele fotografe a Laura, que percebe a situação e fica o tempo todo cuidando o fotógrafo. Por mais que ele tenha tentado disfarçar, foi impossível fotografá-la para a frustração do Pablo. O tempo passou, o noivo de Laura lhe deu um belo fora, ela se mudou para São Paulo, mas a obsessão do Pablo continuou. Numa sexta-feira a noitinha, o amigo de Pablo por acaso a vê caminhando no calçadão de Ipanema, e descobre pelo “Facebook” que ela estava no Rio em razão de uma festa badalada que ocorreria no morro da Urca. Ele avisa o Pablo que, mesmo com medo de subir de bondinho, vai a festa com uma estagiária da clínica, e desfila em frente a Laura como se ela sequer existisse. No dia seguinte, sabendo que ela amava Ipanema, Pablo pede para o amigo lhe acompanhar até a praia para que ele tivesse companhia quando a encontrasse. Ao chegarem na praia, sentaram-se a dez metros de Laura que, fingindo não estar prestando atenção, pediu a sua amiga que ela olhasse para os dois. O amigo de Pablo percebe que a amiga de Laura estava olhando para ver se eles estavam olhando e que ela percebe que ele também estava olhando para ver se elas estavam olhando. E assim passam em torno de uma hora no jogo do eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que eu sei que você sabe. Os amigos dos ex-amantes já estavam quase falando entre si e com vontade de gargalhar da dupla, quando Pablo resolveu mergulhar. A novidade foi que Laura ao vê-lo entrar no mar, esperou um pouco e dirigiu-se ao moço, que a cumprimentou e seguiu sem parar. Ela foi embora e, para a surpresa de Pablo, uma hora depois lhe telefonou convidando-o para ir a sua casa, antes que ela viajasse de volta para São Paulo. Ele disse que estava cheio de areia, salgado, com a roupa molhada e que passaria em casa antes. Decidida, ela disse que iria encontrá-lo na sua própria casa. Pablo não acreditou, isso era a felicidade suprema. Após uma transada espetacular, ela fala para ele que ele precisava malhar mais, que ele estava menos inchado, que tinha até um início de barriguinha. Ele que, por sua vez, inexplicavelmente após a transa, passara a sentir um vazio imenso e a vê-la com outros olhos, respondeu: “ - E você minha querida, quando vai começar a exercitar o seu cérebro?”. Ela ainda veio um outro fim de semana para o Rio, saíram juntos na sexta, e Pablo ligou do próprio Carioca da Gema ao amigo, para apresentá-lo por telefone à Laura. O amigo pôde escutar ela perguntando: “- esse seu amigo é aquele maluco da máquina fotográfica?”. Mas no sábado, Laura lhe diz que tinha um compromisso, o aniversário de uma amiga, e que nenhum homem era convidado. Ele entendeu o adeus, mas não sentiu muito não, pois ao ser adicionado por Laura novamente no “Facebook” ficara chocado com o português da mocinha, que agradecia aos amigos a “maguinifica compania”. Vaidoso, Pablo decidira se preparar para seu grande e definitivo amor, que um dia iria acontecer. Procurou um dermatologista para tratar da pele, um “personal” para acabar com a barriga, e um urologista para enfrentar o mais delicado dos seus complexos. O médico lhe explicou que somente com uma cirurgia dolorida conseguiria desentortar seu membro e sugeriu que ele aproveitasse a ocasião para acrescentar alguns centímetros. Passado o momento da vaidade ferida, Pablo fez a cirurgia, mas algo deu errado, e em decorrência de uma fibrose, o que era torto e para cima ficou curvo para baixo dificultando a prática sexual através de uma série de posições. Ele quis fazer uma outra cirurgia para corrigir o problema, mas o médico lhe explicou que ele teria que esperar um bom tempo, pois uma outra cirurgia de imediato poderia deixar sequelas. Pablo já não dormia mais de tristeza e desanimo quando viu uma jovem alta, magérrima, com cabelos loiros armados para cima, olhos violetas e seios enormes de silicone, dentro de um vestido preto colado ao corpo, marchando sobre uma sandália rosa choque de quinze centímetros no saguão do aeroporto Santos Dumont. Seu nome era Alícia, e atração entre eles foi imediata. Ela disse para ele segui-la discretamente até o banheiro feminino do andar de baixo que estava vazio. Enlouquecidos, entraram no banheiro e dirigiram-se para a cabine. A moça era tão especial que rapidamente encontrou uma posição que permitiu a ambos a concretização do ato sexual sem qualquer problema. Eles estavam quase chegando ao clímax, quando alguém entrou no banheiro e disse “credo”, não foi bem essa a palavra é claro. Envergonhados, eles decidiram esperar um pouco, mas outras mulheres chegaram. Como os vôos estavam chamando, eles decidiram enfrentar a platéia. E foi com a maior naturalidade que Pablo abriu a porta e disse a todas as senhoras presentes que sua amiga não estava bem, que estava vomitando muito e querendo desmaiar. Ninguém respondeu, e eles se mandaram antes que fossem presos por atentado ao pudor. Três dias depois, eles se encontraram novamente, e ela lhe ensinou a posição 68 e meio, que era algo entre a 68 e a 69 do Kama Sutra, que enlouqueceu o Pablo e fez ele se apaixonar como nunca havia sonhado. Passou a dizer o tempo todo “Delícia de Alícia, Alícia que Delícia”, para o deboche dos seus amigos que se matavam de rir. Um mês depois Pablo a convida para se unir a ele a uma viagem para Nova Iorque, o que ela prontamente aceita. Ao chegarem no JFK, o funcionário da imigração ao ver aquele ser tão colorido e exuberante, cujos olhos violeta contrastavam com os olhos castanhos do passaporte, a leva para uma sala em que uma família inteira de mexicanos prestava esclarecimentos. Alícia explica que é uma "personal stylist", que está na companhia do noivo, um famoso psiquiatra brasileiro, e mostra que tem dinheiro na bolsa. Com o olho treinado, o funcionário repara no seu extravagante Rolex de ouro, na sua bolsa Louis Vuitton enorme, nos seus óculos Versace, no seu casaco de pele tigrada, e a libera. Curiosamente, pergunta se ela conhece a “Frick Collection”, museu situado na 5a. Avenida, que estava com uma exposição fantástica de arte italiana. Ela disse que não, e ele então pega um papelzinho, escreve “frick” em cima, cola na capa do seu passaporte, e a deixa passar. Pablo não engoliu a história da exposição e entendeu o deboche do funcionário que estava apenas sinalizando para os demais que ela era uma doida inofensiva, uma “freak”. Com pena da Alícia, ele nada disse. Em Nova Iorque a moça mostrou-se ainda mais desinibida, especialmente para utilizar o cartão de crédito do Pablo. Foram vários cremes, perfumes, sapatos, bolsas, vestidos, chapéus, óculos, colares, “langeries”, ela praticamente renovou seu guarda roupas inteiro sem qualquer constrangimento. Apaixonado, mesmo sentindo no bolso, Pablo não reclamou, pois ele queria muito fazer feliz aquele ser tão especial. Uma semana depois, na hora de embarcar para o Rio, Alícia lhe chama e diz que precisava de um tempo, que havia recebido ligações e mensagens de seu ex-namorado, um usineiro baiano, e que ela iria partir direto para Ilhéus tão logo chegasse ao Brasil. Eles entraram no avião e o pau comeu. Embora estivessem na primeira classe, o vocabulário dos dois foi abaixo da crítica. A vontade de Pablo era de estrangular a perua, que ainda falou bem alto o problema do moço. Ao chegarem no Brasil, ela recolheu suas três malas e partiu. Mas a vida continuou e o Pablo não se entregou. Voltou ao médico, corrigiu seu probleminha, e um dia encontrou uma antiga colega da universidade em um congresso de psiquiatria. Começaram a sair como amigos, contaram suas mágoas, e acabaram por dar muitas risadas dos seus sofrimentos. Em um fim de semana, beberam demais e resolveram transar para ver como seria. Foi bom, satisfatório, um seis dentro de uma escala de zero a dez, e eles continuaram a se ver e a transar sem qualquer cobrança ou expectativa. Depois de dois anos, perceberam que tinham pulado a paixão, que essa jamais seria a conexão entre os dois, que a paixão decorre de fantasias que ao se desfazerem esvaziam a relação, que o que havia entre eles era muito maior, era algo real baseado na confiança, no respeito, carinho, cumplicidade, que eles haviam encontrado o amor. Logo depois eles casaram e no mês que vem terão um bebê a ser batizado com o nome do seu melhor amigo: “Eduardo”.

6 comentários:

  1. Que imaginação incrível, hein Marcelo?! Acho impressionante como consegues de forma ágil e habilidosa desenvolver estórias do nosso cotidiano! Vai em fremte, porque tens muito talento e se levas a sério mesmo, irás longe,
    podes acreditar!
    Quero desejar-te BOAS FESTAS e
    um 2012 cheio contos maravilhosos!

    Um grande abraço e beijos

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  2. Cirandeira, obrigado pelas palavras gentis. Admiro muito o teu carinho com os blogueiros, comigo e com a Bípede em especial. Desejo-lhe um 2012 com muita, saúde, paz e amor. Bjs

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  3. Marcelo,
    Muito divertida a colcha de retalhos que vc monta com tudo o que vê e escuta...
    Beijos!
    Mel

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  4. Mel, é impressionante como a vida real é muito mais criativa do que qualquer mente. Assim, adoro observar as coisas, anoto, e depois faço um mix. E tem gente que acha que as minhas histórias jamais aconteceriam, são fruto apenas da mente de um Terráqueo insano. kkk Um grande beijo.

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