terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O mar da Guanabara

Estava para amanhecer e em um ritmo lento ele era conduzido por entre as velhas fontes e esculturas francesas, em frente a Baía de Guanabara. De repente, um vento suave sussurou um murmúrio, que tornou-se cada vez mais forte e audível, a medida que transformava-se em ventania. A voz era doce, e ele ficou hipnotizado enquanto ela lhe dizia: “- O mar da Guanabara é o mais perigoso dos mares. Com o seu espelho enorme ele prende as imagens refletidas e capta as palavras ditas e pensadas, as quais são deixadas em suspensão permanente. Se você mergulhar, encontrará as palavras e as memórias dos que por aqui passaram, e principalmente os sentimentos que todos fazem questão de esconder. Se queres te conhecer, vem, mergulhe agora. Lembrarás de tudo o que sentiste, terás pleno conhecimento de ti mesmo, serás mais justo nas tuas decisões.". Sem muito refletir ele mergulha, encontra os primeiros gugus e dadas, os sons de antiga canções de ninar, a voz amorosa da mãe, os cumprimentos pela formatura, até chocar-se com uma voz distante que um dia destroçara seu coração. Falta-lhe o ar, e o peso e a velocidade das palavras aumentam não lhe deixando voltar à superfície. A corrente que elas fazem é muito forte, e seu retorno é bloqueado pela água turva e densa das memórias, que lhe atordoam, lhe deixam triste, furioso, vingativo, com ódio das pessoas, até que o seu coração para de bater. Minutos depois, reanimado por um grupo de pescadores, ele acorda na beira da praia. Ele olha para todos e, com total indiferença, lhes agradece. Levanta-se, olha para o mar e compreende que unido novamente às suas memórias, ele realmente detinha todo o conhecimento da sua vida, mas que havia perdido a capacidade de esquecer, de perdoar as pessoas, de amar.

2 comentários:

  1. Hoje esse conto foi escrito pra mim...
    Beijos, te ligo essa semana.
    Mel

    ResponderExcluir
  2. Que bom Mel, espero que tenha te melhorado o dia de alguma forma. Beijos, saudades.

    ResponderExcluir

Encontrei seres