sábado, 3 de dezembro de 2011

Os amores de Luciamara

Como as coisas não iam muito bem no Brasil, Adair decidira tentar a sorte na China. No início, Luciamara não gostou muito da idéia, pois detestava todos os produtos chineses, que para ela eram sem qualidade, falsificados e cafonas. Isso sem falar que comiam cachorro e macaco, tinham espalhado a gripe pelo mundo, e falavam um idioma que ela jamais conseguiria entender. Por outro lado, Luciamara viu nessa decisão a chance de finalmente marcar a data do casamento, e para ela foi uma surpresa quando Adair, depois de onze longos anos de dedicação exclusiva, lhe falou que preferia ir sozinho e que se tudo desse certo mandaria buscá-la dentro de um ano. Luciamara chorou cachoeiras, reclamou do mundo, culpou a sogra, porém esperou. No primeiro ano ainda recebeu algumas ligações e cartões, mas no segundo Adair simplesmente silenciou, sequer atendeu seus telefonemas. Foi quando Luciamara decidiu mudar de ares, se divertir um pouco. Com um grupo de amigas, que conhecera no vigilantes do peso, partiu para Salvador. Foi só chegar naquela terra abençoada que Luciamara conheceu um engenheiro alto, forte, bronzeado, de cabelos castanhos e olhos verdes chamado Rafael, e que ainda por cima também morava na Ilha do Governador. Ele já estava nos seus quarenta e alguns é verdade, mas ela também não cozinhava na primeira fervura. Contrariando todos os seus princípios católicos e a regra passada pela irmã mais velha de que somente deveria dar no segundo encontro, Luciamara entregou-se a uma frenética noite de amor. A química foi imensa, e eles passaram o fim de semana inteiro praticamente no hotel, para a surpresa de suas amigas e para o falatório das demais senhoras da excursão. Dois dias antes da data prevista para o seu regresso ao Rio, ele teve que voltar, pois havia muito trabalho a ser feito. Luciamara estranhou que ele não lhe telefonou como havia sido combinado. Encafifada, ligou para o trabalho de Rafael e quase enlouqueceu quando lhe informaram que ele levara um tiro e estava entre a vida e a morte na UTI do Hospital do Fundão. Desesperada, ela correu para o hospital onde aos prantos se apresentou à família e aos demais, como a namorada de Rafael. Eles se olharam surpresos, especialmente porque a mulher de Rafael também estava presente. Sentindo-se rejeitada, traída e humilhada novamente, Luciamara resolveu se afastar por definitivo, embora tenha ligado para a enfermaria todos os dias para saber notícias. Rafael era forte, gostava de viver e não se entregou. Tanto lutou que em um mês pôde voltar ao trabalho. Só não teve forças para ligar para a Luciamara, que agarrada ao seu Santo Antônio tinha certeza que Rafael a procuraria. Duro mesmo foi quando Luciamara leu no jornal que Rafael havia morrido em razão de um outro tiro, e que haviam finalmente descoberto que o autor dos disparos era um funcionário demitido por ele. Penalizada com a situação de Luciamara, uma colega da escola em que ela prestava coordenação pedagógica lhe confidenciou que arrumara marido no site "www.amorperfeito.com.br". Com pose de superioridade, Luciamara falou que não precisava desse tipo de ajuda, e que ela se viraria muito bem, mas foi só chegar em casa que entrou no site e criou um perfil um tanto quanto melhorado. A foto nem era tão antiga, tinha apenas quatro anos, mas fora tirada em uma época em que Luciamara, estraçalhada por uma gastrite, havia perdido 8 quilos, posteriormente recuperados com juros e correção monetária. E não é que o site funcionou. Em dois dias Luciamara marcou um jantar com um homem descrito como alto, magro e bem sucedido. Luciamara produziu-se toda para a ocasião. Carregou na maquilagem, comprou uma capa esvoaçante de organza preta, e empuleirada em uma plataforma altíssima, adentrou no local marcado. A primeira impressão do seu candidato a marido foi que a namorada do Batman havia chegado. Ele também não era exatamente o que dizia a bula, embora efetivamente fosse alto (1m90), esbelto (pesava 70k), e bem sucedido (possuía uma loja de roupas no Saara), o cabelo pintado de preto não ajudava muito, parecia peruca, sem falar que o gajo usava uma camisa justa de cor vinho, com gola “V”, da qual saía um tufo enorme de pelos pretos. Aqueles pelos todos em um formato triangular imediatamente lhe lembraram uma vagina e, pudica que ela era, não conseguiu mais olhar para o rapaz. Passou os 5 minutos inteiros do encontro olhando para o alto. Tão fixado estava seu olhar para o lustre, que ela nem percebeu quando ele, sem pagar a conta, levantou-se da mesa e partiu. Preocupada com o futuro, Luciamara decidiu ser menos exigente, e aceitou finalmente conhecer o sobrinho da sua vizinha, que segundo ela era um amor de pessoa. A própria encarnação da bondade e “finesse”, um verdadeiro lorde inglês. Dono de um escritório contábil, Wilsinho não era muito bonito. De estatura baixa, cabelo grisalho e calvo, com a testa sempre suada em razão do excesso de peso e respiração ofegante, ele estava longe de lhe provocar qualquer excitação. Muito pelo contrário, lhe dava até uma gastura. Mas como o tempo corria rápido, ela faria o que fosse necessário para que sua mãe parasse de dizer que tinha alma de solteirona. O namoro fluiu bem, Wilsinho era realmente muito educado. Fora criado pela avó que não poupara recursos, amor e dedicação para fazê-lo um homem de bem. E ele era respeitador, muito respeitador, tão respeitador que após três meses de namoro nada acontecera. No início ela até achara isso bom, porque beijar aquele beiço enorme e babado seria realmente difícil, mas depois ela começou a cair na real. E isso aconteceu justamente quando a avó de Wilsinho, com 93 anos de idade, veio a falecer. Wilsinho ficou transtornado, chorava alto e falava repetidamente: “Minha vovó, tão jovem e tão cheia de vida morreu. Isso não poderia ter acontecido.”. Foi quando seu primo mais jovem chegou e disse: “Por que você não comprou um caixão de criança? A vovó encolheu tanto que só ocupa a metade do caixão.”. Ao ouvir aquilo, Luciamara desatou a gargalhar de forma convulsiva no velório. Quanto mais Wilsinho reclamava e chorava, mais ela gargalhava. Ofendido pela falta de sensibilidade da moça, Wilsinho pediu que ela nunca mais o procurasse, e rejeitou todos os pedidos de desculpas intentados por Luciamara nos diversos meses que se seguiram. Luciamara já estava conformada com seu futuro de tristeza e solidão, quando o novo professor de filosofia a convidou para ir a uma festa que ocorria uma vez por mês, nos mais diversos locais, e que era frequentada por intelectuais, artistas, gente famosa e moderna. Por falta de outros programas, ela acabou por aceitar o convite. Na festa, ela pôde perceber que os homens presentes estavam mais interessados em fazer amigos e que as mulheres queriam fazer novas amigas. Foi quando seu colega lhe disse que se ela estava tendo dificuldades de encontrar companhia, ela deveria duplicar suas chances de conhecer alguém, que ela não deveria descartar alguém em razão de sua preferência sexual. Ela falou que não era fanchona, que isso contrariava a bíblia, e para tranquilizar-se desatou a beber. Ele contra argumentou que se ela não havia experimentado, não poderia saber se era ou não era, e que amor é um sentimento, algo muito mais sublime do que sexo. Ela já estava bem tontinha, quando uma moçoila de pele clara, cabelos negros e ondulados se aproximou e sorrindo lhe disse: - Como vai Luciamara, lembra de mim? Eu sou a Valmi do clube da Ilha, mas agora todo mundo me chama de Val.”. Luciamara lembrou imediatamente, e ficou bastante surpresa ao ver que a outrora feiosa, tímida e desengonçada Valmi da aula de natação, havia se transformado em uma mulher deslumbrante e sem papas na língua. Valmi era uma verdadeira mulher alfa, e foi logo colocando a mão no ombro da Luciamara e dizendo: “Você não caminhava, você triunfava na Ilha. Você pescava triunfando.”. Luciamara não conseguiu entender tais afirmações, e a Valmi lhe deu uma chave de pescoço e beijou a sua boca. No começo ela achou aquilo estranho, mas depois abriu seus lábios e deixou rolar. Naquela noite, Valmi lhe convidou para a sua casa, e Luciamara acabou passando o sábado e o domingo por lá também. Poucos meses depois, Luciamara mudou para o elegante apartamento da Val no Leblon e, dois anos depois, o irmão da Valmi doou sêmen para a fertilização de Luciamara. Elas tiveram um filho adorável, chamado Lucio Mario, que chama as duas de mãe, e foram felizes por um bom tempo, até que a Val a trocou por uma outra garota bem mais jovem, chamada Maria. Ah, Adair foi preso na China, acusado de traição e fusilado em praça pública. A esposa de Rafael ficou contentíssima com o recebimento do seguro. O gajo da gola "V", cujos tufos de pelo no decote agora lembram uma aranha caranguejeira, continua sem sucesso algum a procura de uma noiva, Wilsinho ficou hipertenso, teve um AVC e ninguém entende o que ele diz, e Maria chutou a Val por um homem.

9 comentários:

  1. Adorei Darling, achei engraçado e divertido, beijo.

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  2. Que bom Darling. Eu me diverti ao escrever. Bjs.

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  3. Val cometeu suicídio e Luciamara herdou o apartamento do Leblon onde mora até hoje com o cunhado, o doador de sêmen, que tratou logo de dar uma irmãzinha a Lucio Mario, desta vez utilizando o método natural... rsrs gosto de finais felizes, ou quase. Adorei a história, fazia tempo que vc não escrevia assim. Bjs.

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  4. Lucia, que bom saber as novidades da Luciamara. Fazia tempo que eu não tinha notícias. Vai ver é por isso que me contaram que ela foi vista toda feliz em Santa Tereza. kkk.
    Teu final ficou sensacional. Obrigado pelo carinho.
    Beijos.

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  5. Dez, Marcelo, nota dez. Ri tanto -- e não se deve rir tanto assim no trabalho -- como se fosse a Luciamara no velório da avó do tadinho do Wilsinho.

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  6. Marcelo, tens que colocar as teclas para compartilhar com o facebook e twitter.

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  7. Prezado Maia, que bom que você gostou. Respeito muito tua opinião.

    Vou ver com a minha irmã como faço para compartilhar no FB.
    Um grande abraço.

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  8. Marcelo,
    Foi dos melhores que você já escreveu...morri de rir aqui, vou mandar para a minha mama agora mesmo. Embora adore finais felizes, eu adorei o final dos personagens e achei muito realista.
    Beijos!
    Mel

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  9. Mel, quando eu escrevi eu imaginei vocês duas rindo. Um grande beijo.

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