quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A purificação

A relação do Eduardo com hospitais vinha da infância. Como seu pai era um dos poucos médicos da cidade em que nascera, no dia do seu nascimento, as freiras do hospital local tocaram os sinos às 7 da manha, cantaram uma música no quarto de Eduardo, e colocaram um laço azul e outro rosa na porta, para a emoção da sua mãe que havia tido um casal de gêmeos, e que adorava contar essa história. O desejo do seu pai por um filho médico era grande, e ele insistia em levar o filho no hospital todos os sábados antes de irem para o sítio olhar vacas, pastagens e galinhas. Várias vezes Eduardo teve que visitar o berçário, salas de cirurgia e embora, escondido na biblioteca, ele devorasse os livros de medicina e revistas do pai, nada adiantou. Eduardo não gostava do cheiro de hospital e do ambiente pesado e triste. Seu pai e sua mãe lhe falaram repetidas vezes que hospitais eram também locais de muita alegria, de nascimentos e de cura. Mas aquilo não era para o Eduardo definitivamente. Para ele, pior do que isso, somente o mugir das vacas, cheiro de cavalo, o barulho das cigarras, e o radinho de algum peão sintonizado em uma programa com música sertaneja. Vendo que o filho não seria médico, seu pai lhe disse que ele poderia ser o quisesse, mas que ele não gostaria que Eduardo fosse advogado, profissão tida por ele como a favorita dos picaretas, mas que era a que ele sempre quisera, mas não tinha coragem de mencionar. E foi assim que Eduardo resolveu ser economista, mas foi só fazer as cadeiras relacionadas ao Direito para mudar de curso. Seu pai apenas pediu que ele não interrompesse o primeiro curso, que ele fizesse os dois cursos de forma concomitante e, sem reclamar, pagou as duas faculdades para o filho. Eduardo já estava formado em economia e formando-se em direito quando o pai todo contente veio lhe mostrar os fórceps alemães que havia ganhado da viúva de um velho amigo médico, e que eram de uma qualidade ímpar, que não se via mais nos anos 80. Claro, que além de mostrar os fórceps, ele ainda explicou para o Eduardo como ele deveria posicioná-los, fazendo questão de colocá-los nas suas mãos. Só de tocar nos instrumentos, Eduardo sentiu um frio na espinha. Ele não disse nada para o pai, mas entendeu claramente que o desejo do filho médico permanecia. Passaram-se os anos e Eduardo já com quarenta e tantos vai visitar o pai doente, que por ser médico sabia que lhe restavam poucos meses de vida. O pai lhe conta que tem um lugar que ele queria lhe mostrar, e com muito sacrifício se arruma e leva o filho para conhecer as novas instalações de uma clínica médica com salas de cirurgia, repouso, etc. Penalizado pela situação do pai, Eduardo olhou tudo pacientemente e fez rasgados elogios. Desde os tempos em que o pai era vivo, Eduardo lutava contra uma dor constante nas pernas que insistia em incomodar. Após vários anos de tratamento, infiltrações semanais, cirurgias em ambas as pernas, muita fisioterapia e musculação, Eduardo achou que quase todos os seus problemas haviam desaparecido e que as suas dores logo fariam parte do passado. Mas sem qualquer cerimônia uma dor diferente começou a surgir justamente quando ele estava em uma viagem. No avião de retorno ao Brasil, ele chegou a pensar que estaria com uma trombose, pois aquela dor lhe era estranha, forte, formigava, parecia que estava com o pé inchando dentro de um gesso, e irradiava-se pelo lado e pela base do pé até a canela, fazendo-o lembrar da época em que teve que engessar os dois braços com fraturas múltiplas. Ao chegar no Brasil, Eduardo correu para o seu médico que só de olhar e tocar no local diagnosticou uma síndrome nada grave, mas que causa muita dor, e que somente é resolvida pelo modo cirúrgico. Para desencargo de consciência eles fariam mais uma série de infiltrações, que provavelmente não funcionariam. Eles tentaram por algumas semanas, mas como previsto, o tratamento clínico nada adiantou. Na segunda semana de tratamento a perna de Eduardo piorou muito, seu pé ficou extremamente dolorido, a sensação de dormência aumentou, e para compensar o pé com problemas, ele começou a forçar as outras articulações que começaram a também a doer. Foi então que Eduardo entrou em desespero, e pediu para ser operado com a maior urgência possível. Seu pedido foi atendido e Eduardo foi internado em uma das melhores clínicas do Rio de Janeiro, famosa por atender atores e celebridades. Eduardo já havia feito as outras cirurgias nessa clínica, mas ficou meio chateado quando foi fazer os exames necessários a cirurgia, e ao entrar no belo saguão em estilo inglês, ficou com a mão toda melecada, o que lhe deu um desconforto imenso. Para escapar da meleca, revolveu empurrar a porta pressionando a madeira, a sensação foi pior ainda. Mas como o tempo urgia, no dia seguinte ele estava cedo na clínica. Ao entrar no quarto para se trocar, ficou ainda mais chateado quando viu um chumaço de cabelos curtos na pia do banheiro, e outro sobre o porta papel higiênico. Pelo cumprimento dos cabelos, Eduardo imaginou tratarem-se do último paciente que provavelmente os havia perdido em razão de alguma quimioterapia. Lhe pareceu até um deboche o papel mencionando “desinfected”. Como Eduardo já havia entendido que ligar para a portaria não adiantaria nada, e que em minutos ele seria anestesiado, resolveu ele mesmo limpar a sujeira, para não passar tão mal no retorno. O assistente do anestesista chegou, lhe mostrou um Dormonid, apelidado de boa noite Cinderela, e lhe disse que aquele remedinho iria lhe derrubar. Eduardo falou que achava que não seria suficiente, que há muitos anos tomava Dormonid para suportar as longas viagens aéreas que fazia, e que demorava a pegar no sono. Ao chegar na sala de cirurgia, Eduardo acordou, quis ver o médico, a cirurgia, etc., para o desespero do anestesista que não conseguia lhe apagar. Pelo grau de sedação, o médico acreditou que o Eduardo, que já não havia dormido direito as duas noites anteriores, dormiria até a tardinha, e enviou-lhe para o quarto em que ficaria supervisionado pela enfermagem da clínica. Mas o Eduardo era duro na queda, e logo depois da cirurgia acordou lépido e fagueiro, ligou para os familiares, agradeceu suas mensagens de face book, e chamou a enfermagem pois estava louco de fome e sede. A enfermeira lhe disse que seu almoço seria servido às 15 horas e desapareceu. Eduardo também pediu para colocar um pijama, pois ele receberia visitas, e ela disse que faria isso depois. Por volta das duas e meia da tarde, a enfermeira retornou, ele cobrou o almoço e ela lhe disse que ele deveria esperar até às 15horas. Para a sorte do Eduardo, um casal de amigos chegou para lhe visitar. Passam às 15horas, 15h30, 16 horas, 16h15 e ninguém aparece. Eduardo, além de faminto, em razão do jejum de 20 horas, mesmo anestesiado da cintura para baixo, sentia sua bexiga explodir, seu abdômen inchar e doer, e apertava a campainha para a enfermagem insistentemente, que nunca mais apareceu. Sua amiga, achando aquilo o fim da picada foi duas vezes no posto da enfermagem, mas eles nada fizeram. Desesperado, Eduardo ligou para a clínica do seu médico pedindo socorro, e somente após isso apareceram uma série de pessoas da ouvidoria da clínica perguntando qual era a reclamação do Eduardo, do que ele não havia gostado. Ele começou por destacar a falta de higiene da belíssima clínica e narrou todos os fatos acima. Depois de tanta reclamação, o pessoal da clínica passou a ter o desempenho imaginado, mas como consequência da anestesia e de ele ter ficado tanto tempo segurando a urina, ele teve um bloqueio de bexiga (bexigoma) que lhe causou uma cólica e uma dificuldade incrível para voltar a urinar normalmente, etc, o que além de desagradável é bem perigoso. Engraçado foi quando às 17 chegaram com o café da tarde para o Eduardo que consistia em leite (Eduardo é alérgico, vomita na certa), suco de abacaxi (ele tem gastrite) e café preto. Eduardo disse que estava esperando o almoço, e a atendente lhe informou que naquele horário não havia mais almoço. Logo depois, apareceu a nutricionista, dizendo que havia mandado aquele café enquanto preparavam o almoço, pois ela sequer havia sido informada que o Eduardo estava hospitalizado, mas que logo o almoço seria servido, o que de fato aconteceu por volta das 18 horas. Sua médica lhe visitou, sua acompanhante chegou, e Eduardo achou que teria uma noite melhor, mas não teve. A anestesia sumiu, a dor se apresentou e ele passou a noite inteira sem piscar o olho. No entanto, sua acompanhante lhe surpreendeu. Tratava-se de uma enfermeira relativamente jovem, bonita, preste a casar, apaixonada pelo noivo, e que estava muito contente pois havia finalmente encontrado uma casa para alugar. Vendo que a dor de Eduardo não sumia, falou que acreditava em Deus e que pertencia a Igreja messiânica, fundada no Japão em 1935, por Mokiti Okada, também denominado Meishu-Sama, que significa o Senhor da Luz. Explicou-lhe que essa é uma religião que acredita na reencarnação e nos antepassados, frisando, com um aviso de não esqueça, que o nosso sangue são os nossos antepassados. Uma religião que tem como objetivo a criação do paraíso terrestre, que deve se desenvolver na mesma proporção do progresso material, com maior aceitação ao livre arbítrio, e que o bem e o belo andem juntos. Definiu “Paraíso Terrestre” como o mundo ideal ou mundos felizes, onde a trilogia verdade, bem, belo, atua de maneira a erradicar a doença, a pobreza e o conflito. Destacou que somente quando for estabelecido o paraíso no mundo a humanidade será feliz. Eduardo estava achando tudo maravilhoso, até que ela explicou que todas as dores e mazelas fazem parte da nossa purificação e que se tomamos remédios, essa purificação é impedida, fica prejudicada, suja pela medicação. Eduardo não gostou do que ouviu, pois por esse critério tudo o que passou até hoje nada lhe ajudaria a enfrentar o dia do juízo final. Delicada que era, a enfermeira pediu licença para lhe ministrar o Johrei. Ele lhe disse que precisava saber o que era isso antes de aceitar, e lembrou imediatamente de que quando menino, no meio da roça, quebrou os dois braços ao cair de um carretão e o capataz resolveu ele mesmo consertar as fraturas, o que o levou a se esconder para baixo do carretão e a gritar pelo pai. Ela lhe explicou que ele não seria tocado, que se tratava de um banho de luz, enviado por Deus e pelo Senhor da Luz, através da medalha que trazia no pescoço. Eduardo aceitou, e ela explicou que ele sentiria um calor, o que efetivamente ele sentiu. A delicadeza da enfermeira foi imensa, e diversas vezes durante a noite, na penumbra do quarto, ele pôde percebê-la com a mão erguida em sua direção dando-lhe o banho de luz. Chato que só ele, Eduardo perguntou-lhe o que ela faria se tivesse um filho doente, se ela interromperia a medicação em nome da purificação. Ele lhe falou que sim, que seu irmão quase morrera, que a sua mãe suspendera medicação e passara a tratá-lo com os banhos de luz, e que em razão disso ele milagrosamente havia sido curado. Eduardo perguntou se isso não poderia ter sido consequência da medicação, e ela lhe afirmou que não. Eduardo apagou a luz, tentou dormir, mas a dor não deixou. Vencido pela dor, às 4 da manhã decidiu escrever um conto, enquanto esperava o café previsto para às 6 horas, mas que até o momento em que Eduardo finalizou esse conto, ainda não havia chegado.

2 comentários:

  1. Nossa, tem certeza de que Eduardo não estava dormindo e passou a noite tendo um pesadelos???
    Se eu não gostasse tanto do nome Eduardo, eu teria um ataque de risos, mas o nome Eduardo me comove.
    Vai passar tudo isso. Diga ao Eduardo.
    beijosss, querido :)

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  2. Falei com o Eduardo agora, e ele ainda não dormiu, mas está contente porque acabou de chegar em casa. Beijos.

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