sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Feliz 2013

Difícil fazer essa retrospectiva. A primeira metade do ano foi tão boa que não dá para contar, pois poderia despertar a inveja dos deuses. Na segunda metade, no entanto, aconteceu algo tão triste que também não dá para contar, pois iria expor pessoas queridas e chatear meus leitores e amigos. Mas por que fazer a retrospectiva então? Por que se expor tanto na internet? Deve ser pelo hábito de me expor aos leitores do blog e do Face Book, ou isso seria uma forma de terapia moderna, via internet, coisa do século XXI em que quase tudo é superficial, público e eletrônico, e busca aprovação do grande público? Se o ano valeu? Valeu sim. Cheguei ao fim e bem, com menos dor em um dos joelhos (no outro continua), morando em um lugar paradisíaco, fiz novos amigos e pude estar bem mais com as pessoas que amo e gosto. Passei alguns bons momentos sem dúvida. Além disso, como a grande maioria das pessoas, tenho novas expectativas para o ano novo que espero se realizem. Sei que isso é um velho clichê, mas o ano novo serve para isso, para renovar as esperanças, que quando somem nos levam à depressão e à tristeza. Mas é justamente por isso que estou triste, porque sei que para várias pessoas não há essa perspectiva, e não há nada a ser feito. Dói ver impotência e a fragilidade do ser humano, ainda que comigo vá tudo bem obrigado. Isso torna difícil querer que o tempo avance. Que bom seria poder fazer com que o tempo das pessoas funcionasse de forma diferente, que nos momentos felizes o tempo demorasse mais a passar. Que as pessoas que amamos tivessem mais tempo, e as que não amamos também. Mas em nome do hábito vão os melhores momentos: Uma semana de férias em Torres na companhia e na casa da minha irmã Lelena e de sua família (para os blogueiros ela é a Bípede Falante), arrumar minhas malas para Punta sob a orientação da Barbarella (demos muitas risadas), um pôr-do-sol e uma balada em Punta, novos amigos que conheci em 19 de Janeiro (tenho boa memória para datas) e que se tornaram bons companheiros, uma grande noite em Maputo, mudar para a casa nova na Macumba, um certo jantar em BH, a visita de amigos queridos na minha casa nova, ir para o trabalho cruzando a reserva todas as manhãs olhando o reflexo do Sol e os pássaros chegando na praia, a esperança do bebê que quase veio (acabou não vindo), passar meu aniversário com a minha gêmea depois de tantos anos passando em lugares diferentes, o show da Maria Rita, o casamento do meu primo Vítor, a montagem da Viúva Alegre, o jantar de Natal oferecido pela Ana Paula e pelo Paulo, e o almoço preparado pela Márcia e o meu cunhado no dia 25. Desejo a todos, um feliz 2013 e que esse novo tempo seja bom para vocês todos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Natal 2012

Houve uma época em que quando dezembro chegava, eu contava os dias para o Natal. Minha avó Jurema e minha mãe preparavam essa data com meses de antecedência. Um filhote de peru era escolhido a dedo e engordado especialmente para o ocasião. Mas elas eram piedosas, antes que o infeliz tivesse seu pescoço decepado pelo golpe certeiro da tia Sú, ele era embebedado com cachaça para que não ficasse com medo e contraísse os músculos. Ele deveria ser o mais macio possível, e merecia um final comemorativo também. Depois disso, a Dona Maria assava e recheava ele com um serrabulho de lamber os beiços. Naquela época não se ganhava tantos brinquedos como hoje, eram poucas as ocasiões, basicamente aniversários, Natais, e ou em acontecimentos raros, como consolo de um machucado por exemplo. Mas não era isso o que me seduzia, mas sim saber que toda a família da minha mãe estaria reunida, e que até a mãe do meu pai, Vó Margarida, viria nos visitar (ela morava longe). Os motivos religiosos também nunca me convenceram, ainda que a Vó Jurema fizesse questão de cantar Noite Feliz, de ler uma mensagem católica, e que a Vó Margarida, espírita convicta, reclamasse da nossa falta de religiosidade (uma falha que como boa sogra ela sutilmente imputava à minha mãe para o meu deleite). Eu tinha vontade de gargalhar, mas respeitosamente me continha. Teve até um ano em que fizemos um auto de natal, e eu fui o menino Jesus. No final da peça ele nascia e eu erguia uma estrela vermelha de papel laminado, muito mais para a estrela da China do que a de Belém. Era o início dos anos 70, época da ditadura, e duas pessoas se refugiavam na nossa casa, uma residência tipicamente burguesa, acima de qualquer suspeita. Ele era uma pessoa querida, ela jamais havíamos visto antes ou a vimos depois. Espero que tenha sobrevivido. Foi um Natal inesquecível e que depois, quando entendi o mundo, fez-me admirar ainda mais meus pais. Uma delicia também ver alguns familiares que não tinham sorte para ganhar presente. Ninguém acertava com eles. Devia ser castigo divino por não se importarem com o carinho de quem oferecia o regalo. Mas o tempo passou, as duas protagonistas principais saíram de cena, e eu nunca mais passei o Natal no Sul. O Natal ficou muito doloroso para mim, e por alguns anos passei no Rio, depois tive alguns “Happy X-mas” na terra do Santa Claus, ou na casa de primas queridas. No último ano, embora tenha recebido uma série de convites, fiquei em casa olhando para as minha muletas, pois havia feito uma cirúrgia que me impedia de caminhar, e preferi me restabelecer. Esse ano, vou passar novamente o Natal em Porto Alegre, na casa da minha prima, versão aprimorada da Vó Jú, que está trabalhando duro para isso. Seu marido, inclusive já fez uma árvore linda para ao ocasião. Vamos todos nos reunir novamente, motivados por uma razão muito importante, valorizar o afeto e a companhia dos que amamos. Aproveitar esse tempo precioso, lembrar como essas relações são fundamentais, dar e receber amor. Isso é o que importa. Desejo que todos, nesse dezembro, possam encontrar os que amam e aproveitar esses momentos, pois 2012 não voltará mais.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Tonny Bennett

Na noite de 29 de novembro assisti ao show de Tony Bennett no Vivo Rio. Aos 86 anos, ele ainda tem um vozeirão, um charme, um carisma, e uma vitalidade impressionante. Talvez seja o último de uma geração de músicos cujo o principal talento era a voz e a afinação, que não precisavam de potentes computadores para ajudarem suas limitadas vozes desafinadas ou de uma imensa equipe de “backing vocals” e de efeitos pirotécnicos para enganar a plateia. O show mexeu comigo, transportando-me imediatamente para minha infância, para Torres, mais precisamente, para a casa de um amigo do meu pai onde conheci pela primeira vez o talento de Tony Bennet, em um LP memorável. Trouxe-me também doces memórias de São Francisco quando ele cantou "I left my heart in San Francisco", e me fez voar para um tempo muito bom quando unplugged cantou no final do show “Fly me to the Moon".

sábado, 24 de novembro de 2012

A Viúva Alegre

No dia 28 de novembro estreia na programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro a Opereta "A Viúva Alegre", de Franz Lehar
Dias 28 e 30 às 20h Dia 2 e 9 de dezembro às 17h Dias 4 e 7 de dezembro às 20h CORO E ORQUESTRA SINFÔNICA DO THEATRO MUNICIPAL Linda essa montagem do vídeo. Espero que a carioca também seja.

domingo, 18 de novembro de 2012

A morte dos que já se foram

Quando o grande amor da sua vida cometeu suicídio a dor foi imensa, mas isso lhe deu uma outra percepção sobre o assunto. Passou a entender essa ação desesperada, não apenas como o fim de algo que se tornou insuportável, mas também como algo agressivo e extremamente egoísta. Lhe machucou mais ainda ter visto que o suicídio foi lento, demorou para matar, levou ambos a uma agonia, cuja dor foi sentida por muito tempo depois de tudo o que passou. Isso o levou a considerar que até para se matar é preciso pensar nos outros. Essa decisão somente deve ser tomada quando a dor for imensa, e não houver mais nenhuma esperança, algo como uma auto-eutanásia, pois por mais dura que seja a realidade, a vida sempre pode nos propiciar momentos especiais, ainda que mais raros com o passar dos anos, e com a perda dos amigos, familiares e conhecidos. Pensou também que o suicídio deve ser o menos traumático para os que ficam, limpo, rápido, e indolor. Ele entendeu que quando alguém anuncia que quer se matar, não é alarme falso, é um primeiro aviso, e que quando a pessoa decide, não há quem lhe impeça, nem remédios, nem clínicas ou promessas. E foi bem no meio do vendaval pós suicídio, que sua querida tia avó lhe telefonou, dizendo que não queria mais viver, que a viuvez era péssima, que sentia-se sozinha, abandonada, em um tédio terminal, e que enfim estava decidida. Que ela já havia partido, só faltava morrer. Ele lhe perguntou se ela estava falando sério, e ela lhe disse que sim, que não sabia como fazer, e lhe pediu ajuda. Ele recomendou que ela procurasse uma terapia, tomasse um antidepressivo, chamasse os amigos, visitasse a família, fizesse uma viagem de excursão para Pousada do Rio Quente, explicou-lhe que a vida pode ser maravilhosa, mas ela lhe expôs com clareza que já não queria viver, suportara por anos um doloroso câncer, estava velha, solitária, esquecida pela vida, e que queria juntar-se ao seu falecido e adorado marido, com o qual ela sempre fora muito “garrada”. Vendo que ela iria se jogar em frente a um carro, causar um acidente, e possivelmente encrencar ou ferir um inocente, ou cortar os pulsos, sujando todo o quarto e o banheiro, e sempre com o risco de alguém ser acusado de assassinato, ou pior ainda, se jogar da janela do terceiro andar e se quebrar inteira, ele passou por cima dos seus preceitos católicos e decidiu ajudá-la. E foi com um pouquinho de dor no coração, e um grande sadismo, que ele lhe ensinou: - Avise a todos que vai fazer uma viagem no feriadão, que irá ao encontro dos 55 anos de formatura das filhas de Maria no Santuário de Caravaggio. Antes disso, junte por dias todos os comprimidos para dormir, tranqüilizantes, anti-alérgicos, anti-gripais, remédios para a febre (excelentes), remédios para a dor, esmague todos eles até obter um pó homogêneo e os dilua em um copo de Whisky, sem gelo de preferência, porque o álcool potencializará o efeito de tudo. Quanto mais Whisky melhor. Muito importante que isso somente seja feito após um dia inteiro de jejum, pois além de ajudar na absorção química, lhe deixar mais fraca, baixar sua pressão, e propiciar a hipoglicemia que lhe conduzirá a morte, pode ser que agrade à Deus e você escape do purgatório. Não se esqueça de deixar um bilhete de despedida, isso evitará um complicado inquérito policial para seus familiares. Também não atenda ao telefone, e tranque bem a porta para não dar chance de ser encontrada por alguém. Se lhe encontrarem, lhe farão uma dolorosa lavagem estomacal, e o que é pior, pode ser que acabe ficando em coma por anos. Passados um mês, ela havia catado os remédios, avisou a empregada e sua nora que iria viajar, comprou um Whisky, colocou uma foto do falecido ao lado da cama, e passou a executar seu plano. Deixou um curto bilhete de despedida, em que se lia: "Minha morte é minha herança.". Para dar um toque poético, ao terminar de preparar seu último coquetel, botou um antigo disco de Gardel, em que ele cantava “El día que me quieras”. Após 15 minutos, ela começou a ficar nauseada, tonta, enjoada, louca para vomitar, seu coração passou a bater estranho, o sono veio bem forte, ela entrou em confusão, começou a sonhar, e até mesmo a ver uma luz cada vez mais forte a cegar-lhe os olhos. Ela havia conseguido, estava a chegar no paraíso, iria encontrar seu marido, até que começou a ouvir vozes de uma mulher dizendo que ela estava voltando, que passava bem, que após 15 dias de coma, seu corpo estava respondendo, e que logo ela estaria em casa. Sua tristeza foi imensa, alguém a havia achado antes do final, ela só não entendeu como. Havia planejado tudo tão bem. O que ela não imaginava é que sua nora decidira aproveitar a viagem da velha para buscar umas caixas que estavam guardadas em sua casa provisoriamente, e a encontrara poucas horas depois. A família, assustada, lhe mandou para terapia, lhe visitou algumas vezes no primeiro mês, e logo sumiu. Três meses depois, ela escorregou no porcelanato do banheiro, quebrou o fêmur, que não solidificou de modo algum e inflamou, levando-a a amputar a perna. Para culminar, um ano depois teve um derrame que a deixou totalmente paralítica, muda e cega. Transferida para uma clínica, todos tinham certeza que ela havia demensiado para sempre, que nada entendia ou sentia. Ela, no entanto, escutava tudo , e ficava horas pensando na falta de sorte que foi a aparição da nora, aliás no azar que a nora havia sido em sua vida, e por quanto tempo teria que viver presa a um corpo que não mais a obedecia, mas que ainda tinha um coração forte. Seu filho, pensava no valor da conta mensal. Sua nora, na má ideia que foi ter buscado aquelas caixas.

sábado, 10 de novembro de 2012

O assassinato da MV

Quando percebeu, ela já estava na cozinha, rondando o bar e a geladeira. Sua primeira reação, foi de repulsa por aquele ser tão abjeto, que perambulava em permanente confusão, fazendo um barulho irritante. Ao vê-la tão frágil e indefesa, ele até ficou com pena, mas essa pena durou muito pouco, e ele decidiu matá-la. Piedoso, haveria de ser uma morte rápida. Pensou em esfacelar a criatura com uma porretada, mas, com mania de limpeza, não queria deixar vestígios sobre o chão do apartamento, ou sobre as paredes recém pintadas de branco. Resolveu, então, envenená-la, ele a intoxicaria violentamente, com uma dosagem tão alta que ela não duraria mais do que alguns poucos instantes. Encurralando–a em um canto, pegou o veneno e partiu para cima dela, sufocando-a com uma grande dosagem. Ela conseguiu chegar à sala, onde caiu sobre o chão, já com movimentos convulsivos, que a faziam girar sob seu próprio corpo, com uma rapidez incrível, e a emitir um assobio desesperado. Ao invés de pena, ele ficou com mais nojo e raiva. Que ser nojento. Até na morte, ela incomodava. Ele teria que usar suas próprias mãos para acabar com esse contratempo, e voltar a assistir ao filme que lhe esperava no quarto. Usando um pedaço de pano, ele a atacou, liquidando-a com um só golpe. Que maravilha o silêncio. Poucos segundos após, ela jazia inerte dentro da pequena lixeira. Ele pensou na razão para tanta repulsa a uma insignificante mosca varejeira, a uma forma de vida tão pequena e até mesmo inofensiva. Lembrou do corpo de uma vaca em decomposição, que vira quando menino, sendo consumido por vermes e moscas, e do mal estar que vislumbrar o que realmente ocorre depois da morte lhe causou. A mosca varejeira significava a morte, seu canto dizia que seu corpo seria consumido por vermes e moscas ao final do caminho e, pior do que isso, lembrava-lhe pessoas que giram, giram e giram, fazem muito barulho, e não pousam em lugar nenhum.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Mia Couto - A confissão da leoa

Não me sai da cabeça o livro “A confissão da leoa” do Mia Couto, publicado agora em 2012. Esse talentoso escritor Moçambicano, após visitar uma região em que ataques de leões aterrorizavam uma pequena aldeia, resolveu romancear esses incidentes, narrando uma história pelo ponto de vista de uma mulher cuja irmã havia sido comida por uma leoa, e que acreditava ter sido ela que chamara os leões, e do caçador contratado para terminar com os ataques. A história é linda, cheia de aventuras, e as figuras e imagens do Mia Couto são absolutamente poéticas, sem falar que ele mostra todo o misticismo que impera na África que, se por um lado contribui para que muitas coisas não caminhem da melhor forma, cria lendas e histórias belíssimas. O livro prende tanto que, quando fui dormir, sonhei que fazia parte da história, que estava no pequeno vilarejo, que fazia parte da caçada e fiquei triste de acordar. Selecionei apenas algumas passagens para que vocês possam sentir o que é esse gênio da literatura africana, ou melhor, da literatura: “Todos sabemos, por exemplo, que o céu não está acabado. São as mulheres que, desde há milênios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção do céu fica acrescentada. Ao inverso, quando perdem um filho, esse pedaço do firmamento volta a definhar. ... Maldita a terra tão sem céu que até as nuvens é preciso desenterrar, ... Quanto mais vazia é a vida, mas ela é habitada por aqueles que já se foram: os exilados, os loucos, os falecidos. ... E de súbito, ela ali está: a leoa! Vem beber naquela suave margem do rio. Contempla-me sem medo nem alvoroço. Como se há muito me esperasse, ergue a cabeça e crava-me fundo o seu inquisitivo olhar. Não há tensão no seu porte. Dir-se-ia que me reconhece. Mais do que isso: a leoa saúda-me, com respeito de irmã. ... Fugir de um amor é o modo mais total de lhe obedecer.”

sábado, 27 de outubro de 2012

Os Impressionistas estão no Rio

A exposição “Impressionismo Paris e a Modernidade”, com 85 obras-primas do Musée d’Orsay, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, está sensacional. Com um custo de R$ 11 milhões, foi recriado nos salões do CCBB a atmosfera do Orsay. Desde a entrada do prédio, os visitantes são transportados à Paris do final do Século XIX e do início do Século XX, época em que a modernidade eclodiu em contraposição ao antigo regime, em que a liberdade, a igualdade e a democracia foram repensadas, e que no campo das artes originou o Impressionismo. São obras de Renoir, Degas, Latour, Monet, Pissaro, Cézanne, Manet, Monet, Van Gogh, Seurat, e de outros gênios da pintura.
Essa foto foi tirada em frente a uma ampliação do quadro “La Seine et Notre-Dame de Paris”, de 1864, pintado pelo Johan-Barthold Jongkind. Nao deixe para última hora, ela termina em 13 de janeiro de 2013, e as filas tendem a aumentar nos últimos dias.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Antinarciso

Comecei a ler o livro de contos “O Antinarciso”, escrito pelo Mario Sabino, redator-chefe da revista Veja, e estou gostando enormemente. Curioso sobre esse autor, encontrei uma entrevista bastante interessante na qual ele menciona que: “O mundo pode ser divertido e proporcionar momentos de alegria genuína, mas o que faz a boa literatura é a infelicidade. Ela, a infelicidade, é a roda do mundo do escritor. Os melhores romances e contos são aqueles em que os protagonistas são movidos por angústia, tormento, sofrimento. A dor de existir enfim.”

domingo, 21 de outubro de 2012

Um copo de cólera

Ao ler esse livro, lembrei que muitas vezes quando temos um grande problema, e não temos coragem de enfrentar diretamente o que põe nosso corpo em cólera, ou quando é o nosso corpo que nos trai, tendemos a ter catarses e a direcionar nossa raiva e frustração, justamente contra as pessoas que mais nos amam e nos são generosas, causando um grande estrago. A história desse livro narra o que acontece quando um homem dirige sua cólera contra sua namorada, porque em um lindo dia de sol, verifica que um bando de formigas saúvas estão a atacar o jardim. Gosto muito da narrativa de Raduam Nassar, que constrói belas imagens para relatar os fatos. “... e estava assim na janela, quando ela veio por trás e se enroscou de novo em mim, passando desenvolta a corda dos braços pelo meu pescoço, mas eu com jeito, usando de leve os cotovelos, amassando um pouco seus firmes seios, acabei dividindo com ela a prisão que estava sujeito, e, lado a lado, entrelaçados, os dois passamos, aos poucos, a trançar os passos, e foi assim que fomos diretamente pro chuveiro.” Recomendo muito. Fiquei com muita vontade de ver o filme (http://www.youtube.com/watch?v=usUc_4ZGZ38).

domingo, 14 de outubro de 2012

Lavoura Arcaica

Sensacional Lavoura Arcaica. Raduan Nassar tem uma forma de escrever personalíssima, em que a maioria dos fatos são deduzidos através dos conflitos psicológicos. Uma leitura reflexiva, pesada, para leitores avançados e com a mente aberta. Amei esse livro. Aviso que ele não trata de amenidades, e talvez por isso quando publicado (em plena época da ditadura), não tenha ainda tido a relevância que merece, embora seja muito conhecido e tenha até sido filmado. “....Fica mais feio o feio que consente o belo... -Continue. _ E fica também mais pobre o pobre que aplaude o rico, menor o pequeno que aplaude o grande, mais baixo o baixo que aplaude o alto, e assim por diante. Imaturo ou não, não reconheço mais os valores que me esmagam, acho um triste faz-de-conta viver na pele de terceiros, e nem entendo como se vê nobreza no arremedo dos desprovidos; a vítima ruidosa que aprova seu opressor se faz duas vezes prisioneira, a menos que faça essa pantomima atirada por seu cinismo. -É muito estranho o que estou ouvindo. -Estranho é o mundo, pai, que só une se desunindo; erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente; não há nada mais espúrio do que o mérito, e nao fui eu que semeei esta semente."

domingo, 7 de outubro de 2012

O olhar impressionista de Ana Terra

E ficou o registro do tempo em que para os três pequenos entrar em um caíque era um perigo, atravessar um riacho de águas rasas uma façanha, pegar barba de pau no mato do açude uma coisa mágica e, em que procurar a toca da tigra, sempre tão bem escondida, era uma aventura e tanto, testemunhada pelo olhar amoroso da mãe, cuja lembrança lhes faria tão bem muitos anos depois.

sábado, 6 de outubro de 2012

Ocupados

Entre o instante em que nascemos e morremos estamos tão ocupados que acabamos por não perceber a beleza da vida.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

domingo, 30 de setembro de 2012

Divórcio em Buda - Sándor Marai

“Quem poderia fotografar, registrar, tatear o instante em que algo se rompe entre duas pessoas? Quando aconteceu? De noite enquanto dormíamos? No almoço, enquanto comíamos? Agora quando vim ao consultório? Ou muito, muito tempo atrás, apenas não percebemos? E continuamos a viver, a falar, a nos beijar, a dormir juntos, a procurar a mão do outro, o olhar do outro, como bonecos animados que continuam a se movimentar ruidosamente por um tempo, meso estando a mola do seu mecanismo quebrada... O cabelo e as unhas do morto continuam a crescer, talvez as células nervosas ainda sobrevivam quando os glóbulos vermelhos já estão mortos.... Nada sabemos. O que podemos fazer agora? Que refletor devo acender para encontrar nessa escuridão, nessa trama, aquele momento único, aquele milésimo de segundo em que algo cessa entre duas pessoas?” "Até agora não sei bem o que é amar...., mas será possível saber? E saber para quê? Amar nada tem a ver com razão. Provavelmente, o amor é mais forte do que o conhecimento. Conhecer é muito pouco. Exite um limite.... Amar talvez seja uma coincidência de tempos. Um acaso maravilhoso, como se no universo existisse dois planetas com a mesma órbita, a mesma atmosfera, feitos da mesma matéria. É o tipo de coincidência imponderável. Talvez nem exista. Se já via algo parecido? Talvez... muito raramente.... e nem nesse caso tive certeza. Coicidência de tempos, na vida e no amor. Gostam da mesma comida, da mesma música, caminham na rua com a mesma pressa ou lentidão,na cama desejam-se com a mesma cadência... talvez seja isso. Como deve ser raro! Um fenômeno... Acho que esses encontros são míticos. Na vida real não se pode contar com essas probabilidades. Acredito que as glândulas do casal filtram e selecionam ao mesmo tempo, os dois pensam a mesma coisa sobre os fatos, com as mesmas palavras.... É o que entendo por coincidência de tempos. E isso não existe. Um é mais rápido, o outro é mais lento, um é mais tímido, o outro é mais audaz, um é quente, o outro é morno. É assim que a vida e os encontros devem ser encarados... É assim que deve ser aceita, dessa forma imperfeita, a felicidade."

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Quase nunca sabemos

Quase nunca sabemos o que realmente deveríamos saber.

Amarelo

Amarelo é a cor que me apavora, é a cor do sinal de atenção do caminho que conduz a um beco sem saída, é a cor da roseira roubada do jardim da casa materna, da fotografia da família que se foi, é a cor que não cai bem a ninguém, é a cor de quem quer sua vida de novo, é a cor da minha dor.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Que Pena

A gravação de "Que pena (Ele já não gosta mais de mim),do LP "Gal Costa",de 1969, um dos meus preferidos, é sensacional. Que pena quando um grande amor acaba, que pena, que pena mesmo, pois não é nada fácil recuperar-se de um grande amor perdido. "Ela já não gosta mais de mim Mas eu gosto dela mesmo assim Que pena, que pena Ela já não é mais a minha pequena Que pena, que pena Pois não é fácil recuperar Um grande amor perdido Pois ela era uma rosa Ela era uma rosa As outras eram manjericão As outras eram manjericão Ela era uma rosa Ela era uma rosa Que mandava no meu coração Coração, coração Ela já não gosta mais de mim Mas eu gosto dela mesmo assim Que pena, que pena Ela já não é mais a minha pequena Que pena, que pena Mas eu não vou chorar Eu vou é cantar Pois a vida continua Pois a vida continua E eu não ficar sozinho No meio da rua, no meio da rua Esperando que alguém me dê a mão"

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Esperando a entrada de Setembro

Desde menino associava setembro e o rufar dos tambores que na minha pequena cidade do interior treinavam para o Sete de setembro, com o início de um tempo melhor, mais quente, verde, em que o sol amanhecia mais cedo, e em que tudo germinava até eclodir em um verão cheio de cores e gostos. O tempo passou, mas o mês de setembro e a primavera continuam tendo um significado especial para mim.

sábado, 18 de agosto de 2012

Dias felizes

Acordar em um sábado de sol, abrir um envelope com um livro cuja capa foi feita pela sua talentosa irmã caçula, mexer um pouco mais, e ver cair um CD maravilhoso, abrir outro envelope e encontrar o convite de casamento de um primo querido com uma moça adorável, mexer no seu pequeno jardim, regar suas plantas, comer um chocolate, lembrar do jantar com amigos na noite passada, pensar no aniversário da sua prima querida, tomar um banho sem pressa, e poder sair para a praia.

Verdade

Queria tanto estar onde você está.

domingo, 12 de agosto de 2012

Sob o céu de Paris, um grande Blog da talentosa Gabriela Mudado

Na semana passada, sob o luar de Belo Horizonte, conheci uma DJ refinadíssima. Seu gosto incomum pela música francesa e jazz, fizeram-me passar horas a beber um saboroso vinho tinto, enquanto escutava uma seleção de músicas que normalmente não se houve nem nos melhores cafés da Paris e de Nova Iorque. Não aguentei, e fui falar com ela que jovem, linda e simpática, deu-me o endereço do seu blog na internet: "soboceudeparis.com". No blog, encontrei textos bem escritos, muita informação sobre música francesa, e esse belíssimo vídeo filmado por ela com um iphone4S. De arrepiar o talento da Gabriela Mudado.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Contradição

É tão bom sentir-se no verão quando se está no inverno, sentir calor quando está frio, ficar insone quando se está exausto, senti-se bem mesmo que haja dor, sentir-se na lua quando se está na terra, e saber o por quê de tanta contradição.

sábado, 4 de agosto de 2012

Maria Rita homenageia Elis

Não deve ser fácil ser filha de um mito. Especialmente quando esse mito saiu de cena muito cedo e no auge da carreira. As comparações são inevitáveis, e há aqueles que por idolatria não admitem que alguém possa se assemelhar e até ser melhor e, ainda pior, há aqueles que não entendem as diferenças e como elas são importantes, sem falar nos invejosos e nos que acham bonito ser blasé. Mas a Maria Rita não herdou apenas a voz, o talento descomunal, o gestual e o carisma da mãe, herdou também a coragem de soltar a voz e de se fazer ser ouvida. Com a homenagem que presta a sua mãe com essa turnê, em que canta exclusivamente musicas que foram eternizadas na voz de Elis, ela não apenas reverencia a maior cantora que o Brasil já teve, consola toda uma geração que juntamente com ela se sentiu órfã de Elis, mas também divide com o público o emocionante e tão desejado encontro entre mãe e filha. Impossível não sentir a presença de Elis na voz, no rosto, nos gestos de Maria Rita, e não ficar tocado. Amei esse show. Nesse fim de semana ainda haverá mais duas apresentações no Citibank Hall, no Rio de Janeiro. A produção é simples, de bom gosto, e o show flui naturalmente, cristalino como a voz das duas. O que vale é a musica, a voz de timbre singular e afinada, o encontro, a vontade da filha de estar com a mãe. Inesquecível.

domingo, 29 de julho de 2012

Arte

Sensacional essa peça sobre três amigos que acabam entrando em conflito quando um deles compra por R$ 200.000,00 uma tela em branco de um pintor famoso de arte contemporânea, e um dos amigos, movido por uma sinceridade quase cruel, deixa claro seu ponto de vista de que aquele quadro nem obra de arte é. O inteligente texto alem de discutir com muita propriedade sobre o que é arte ou não, mostra o funcionamento das amizades, o que leva as pessoas a serem amigas e a também se afastarem. A escritora francesa Yasmina Reza recebeu em razão dessa peça "Arte" os prêmios Molière de melhor autor, de melhor peça e de melhor produção, o Lawrence Olivier Award pela melhor comédia de 1998, o o Antoinette Perry (Tony) Award pela melhor peça. Os atores são excelentes, a montagem é primorosa, sensível, profunda e tocante, sem ser um dramalhão. Existem alguns momentos bem engraçados, realçados com maestria pela interpretação de Vladmir Brichta. A opinião do personagem mais crítico sobre arte contemporânea é muito parecida com a minha que, não escondo, é totalmente desfavorável, como manifestei na publicação de 04/11/11 nesse blog. Recomendo muito, ainda fica mais duas semanas no Teatro Leblon.

sábado, 21 de julho de 2012

A primavera no inverno

Que felicidade quando, de forma surpreendente, a primavera acontece no meio do inverno.

Giselle - Ballet do Teatro Alla Scala de Milão no Rio de Janeiro

Giselle, do Ballet do Teatro Alla Scala de Milão, foi muito alem do que eu imaginava. Embora não seja uma companhia com a mesma tradição do Mariinsky (Kirov), e conte com um corpo de baile relativamente jovem, a leveza e beleza dos bailarinos compensa qualquer deficiência técnica que, pela minha falta de conhecimento no assunto, não percebi. Só sei que a jovem bailarina que fez a Giselle (Petra Conti) era de uma leveza e que encantava ao dançar. Ainda por cima, era linda de morrer, o que não é muito comum. O príncipe Albrecht interpretado por Claudio Coviello também estava ótimo. Teve um momento que ele pareceu que iria voar como um helicóptero tamanha a altura dos saltos que dava sem rodopiar. O cenário e o figurino eram um luxo, como mostra o vídeo abaixo. Recomendo muito. Estará no Theatro Municipal do Rio de Janeiro até o dia 22 de julho.

sábado, 14 de julho de 2012

Bem Amadas

No cinema havia na sua maioria senhoras e senhores na faixa dos sessenta, provavelmente o mais jovem era eu, que já sou quase um cinqüentão, e os comentários eram péssimos. O casal ao lado não entendia que a história se começava nos anos 60 e que vinha até 2007 e que, portanto, a personagem quando jovem não poderia ser interpretada pela Deneuve, e as duas senhoras do meu outro lado estavam indignadas porque a Deneuve não era a atriz principal, e também não entendiam nada, demoraram inclusive uns 10 minutos para perceber que o filme era francês. O fato é que é um filme com alguns números musicais, que de algum modo remeteram-me a "Os Guarda-Chuvas de Amor", e que entra firme em questões psicológicas como o que é o amor, a perversão, o casamento, a liberdade, a obsessão, a indiferença e até o suicídio. Mostra com maestria e realismo tudo o que a sofrida humanidade se submete por amor e por neurose, de uma forma terna, comovente, e até engraçada. Deneuve é uma grande atriz, e sua filha na vida real e no filme, Chiara Mastroianni, está espetacular. Interessante ver essa grande dama fazer o papel de uma ex-prostituta, adultera, e sua filha apaixonada por um gay, provavelmente aidético, tendo uma relação sexual a três com o namorado dele, etc. Isso chocou um pouco a platéia, e o comentário das duas senhoras ao meu lado foi de que os franceses adoram a três. Não entenderam nada as pobrezinhas. Embora não tenha decorado as frases, algumas ou parte delas ficaram na minha cabeça: “- Eu posso viver sem você, você diz, o único problema meu amor é que eu não consigo é deixar de te amar.” “- Coragem e prudência são as duas qualidades mais essenciais na vida.” O filme acaba sendo um soco no estomago, mas eu amei.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Noites de lua cheia

As noites de lua cheia deixam-me sentimental, pois são as que melhor permitem aos amantes distantes um ponto comum para o acalanto dos seus olhos famintos.

domingo, 1 de julho de 2012

Encontrei seres