quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O Centro Histórico do Rio tem uma das melhores noites da cidade.

Na noite dessa quarta-feira, após assistir "A Mecânica das Borboletas", estive passeando por um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro, que é o seu centro histórico, no percurso que começa no Arco do Teles, ao lado do Paço Imperial, e que vai até o Centro Cultural Banco do Brasil. O lugar está maravilhoso, cheio de bares e restaurantes com música ao vivo. As pessoas sentam em mesinhas sobre as calçadas de pedras antigas, em ruas que são em quase sua totalidade repletas de prédios centenários, totalmente restaurados, construídos com paredes de pedra, vigas de madeira, sacadas de ferro batido e azulejos portugueses. A região está excepcionalmente bem frequentada. Vi muitas pessoas bonitas e elegantes, de todas as faixas de idade, com visível bom nível educacional que, após o trabalho, encontram com os amigos ou namorados, para um bom bate-papo. Evidentemente tem lugares para todos os bolsos e gostos. É um outro Rio de Janeiro que renasceu nos últimos anos e que continua a melhorar. Como os edifícios são todos históricos, a sensação é mágica. Recomendo muito uma omelete de Gruyere e Shitake na Brasserie Rosário, enquanto uma banda toca um jazz da melhor qualidade. Nas quartas é noite de jazz cigano e o grupo Guitane é muito bom. O vídeo não está fazendo jus. Nas quintas é noite do jazz de New Orleans (18h30 às 21h). Nas sextas têm o Rosário Samba Jazz, Do Beco das Garrafas para todo o Mundo (18h30 às 21h).

A mecânica das borboletas

Pesada, mas muito interessante a peça "A Mecânica das Borboletas", que consta a história de dois irmãos gêmeos que se encontram depois de 25 anos, e têm muitas contas a acertar. Ela é inspirada em uma história real da família do grande ator Paulo José. A peça tem um texto muito bom, repleto de referências a autores clássicos, e está sendo apresentada no Centro Cultural Banco do Brasil. Ainda por cima não machuca o bolso de ninguém, pois como é patrocinada pelo Banco do Brasil, é praticamente de graça (R$ 6,00). O elenco conta com a presença de Eriberto Leão, Otto Junior, Ana Kutner e Suzana Faini. A cenografia e trilha sonora são maravilhosas. Um drama moderno, denso, mas muito agradável. Texto de Walter Daguerre e direção de Paulo Moraes. Recomendo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Noites Cariocas, Noites Insones

Que sentimento é esse que nos invade a mente e o sono, e nos trás lembranças que embora tenham sido lindas no seu momento, gostaríamos tanto de esquecer?

Amores Impossíveis podem acontecer, pelo menos nos filmes.

Alguns amores são difíceis de serem vividos, são quase impossíveis. Às vezes porque os vivemos muito jovens, outras vezes, porque acontecem quando já é tarde demais para um ou ambos, seja porque outras pessoas estão envolvidas ou dependentes, ou porque as dificuldades são tamanhas que a esperança se exaure. O amor deles também não poderia acontecer, fora algo que somente ocorreu em razão de um momento de fragilidade, em que ambos estavam feridos. Ele fora traído pela esposa justamente com o marido dela, que para piorar a história ainda era filha da noiva do pai dele. Depois do escândalo, eles tentaram se controlar, retomar suas antigas vidas ao lado de quem já não amavam. De repente, em pleno casamento dos seus pais, seus olhos se encontraram, ele levanta, dirigi-se a ela, e a convida para dançar. O marido ofendido intervém, ela levanta, despede-se do marido, e aceita o convite. Vale a pena ver essa cena, contada de forma tão simplista e sem charme, mas que interpretada pela belíssima Isabella Rosselini, ficou fantástica.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Gal Total

Passei o fim de semana a ouvir a caixa da Gal lançada pela Universal, com 16 CDS dos anos 60, 70 e 80, gravados na época em que ela tinha contrato com a Philips. Primeiro, fiquei muito feliz, extasiado pela voz suave, perfeita, afinada, pelas músicas com melodias e harmonias requintadas, pelas letras inteligentes, sensíveis, poéticas. Depois veio a neurose, e fiquei triste ao compará-las com as músicas de agora, de ver como o nível musical caiu no Brasil na década de 90, e só piorou de lá para cá. Os grandes sucessos dessa década então, não têm apenas uma letra vulgar e pobre, mas praticamente não têm melodia ou harmonia, têm apenas um ritmo que sequer me agrada. Quero pensar que estou ficando um velho nostálgico para me conformar, mas acho que o problema ultrapassa em muito a minha velhice que nem é tão avançada assim. Tomara que seja eu mesmo o rabugento, pois a outra hipótese é bem mais triste.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Estate e Roberta Gambarini

Sou doido por essa música e pela Roberta Gambarini. Vale a pena encomendar esse CD.

"Estate
Estate sei calda come i baci che ho perduto
Sei piena di un amore che è passato
Che il cuore mio vorrebbe cancellare
Estate il sole che ogni giorno ci scaldava
Che splendidi tramonti dipingeva
Adesso brucia solo con furore
Tornerà un altro inverno
Cadranno mille petali di rose
La neve coprirà tutte le cose
E forse un po' di pace tornerà
Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore
L'estate che ha creato il nostro amore
Lavori eccellenti i legami di dolore.

Verão
Verão, és quente como os beijos que perdi,
és cheio de um amor que já passou
E que meu coração queria esquecer
Verão, o sol que todos os dias nos aquecia,
que esplêndidos crepúsculos coloria
E que agora me queima com agressividade
E chegará outro inverno,
cairão milhares de pétalas de rosas
A neve cobrirá todas as coisas,
e talvez um pouco de paz trará
O verão, que doou seu perfume a diversas flores,
o verão que criou nosso amor
primoroso trabalho e um legado de dor."

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Vereadora Antropófaga

Vale a pena assistir "A Vereadora Antropófaga", curta metragem de Pedro Almodóvar, que é um desdobramento de um personagem do filme "Abraços Partidos". Sensacional.

Encontrei essa transcrição no blog:"Átimos Ótimos":

"E agora me leve onde está o seu pai. Até já Conchita, volto logo. Vamos!

A VEREADORA ANTROPÓFAGA

Estou farta de tudo... dos homens, das dietas, do colágeno, da lipoaspiração, da política... de tudo, menos de sexo.

Sou conselheira de assuntos sociais... e tanto a nível pessoal quanto a nível profissional... eu acredito que o sexo é um assunto profundamente social. E prazer sexual é algo que todos deveriam ter acesso. Sem preconceitos nem limites. Tem que se incentivar a cultura da promiscuidade... a troca de casais, os casais múltiplos. Reconhecer o desejo como o principal motor de uma sociedade melhor.

Quando se deseja alguém, normalmente, não quer que lhe aconteça nada de mal. Você se solidariza com ele. A não ser que seja rejeitada, é claro. Creio que esse é um tema muito interessante e ainda inexplorado. Especialmente do ponto de vista feminino... político e de direita.

Vou tirar um ano de licença para escrever um livro que aborde esse tema. Um livro onde eu possa escrever as fantasias que me vem à cabeça... durante as assembléias e solenidades na prefeitura. Inaugurações de parques, túneis, missas na catedral de Madrid, etc. Nessas ocasiões, como em todas, só penso em sexo.

Meu único interesse é olhar o traseiro dos homens, seus pés, seus cacetes... por isso eu uso óculos escuros. Não por fobia à luz como costumo dizer. Mas para poder olhar para onde eu quiser. Minha tara começou muito cedo, até nisso fui precoce... Comecei a me interessar pelos cacetes com 4 aninhos... eu podia pegá-los só levantando a mão... como se colhe uma fruta...

No princípio tive muito êxito, as pessoas achavam graça... até que todos os homens da minha família e amigos... - entre os quais não havia nenhum pederasta - começaram a me rejeitar quando me viam chegar. Conheci muito cedo a marginalidade. É muito duro. Que comecem a te desprezar e a te julgar só com 3 aninhos. Me educaram à base de gritos:

"Isso não se toca!"

"Isso não se come!"

Ah, meu Deus, que época! Eu creio que Franco foi um bom governante... mas no que diz respeito ao sexo, ele não entendia nada. Do corpo do homem eu saboreio tudo. Mas o que mais gosto são os pés... os pés! Me deixam louca.

Uma vez me ocorreu comentar isso numa festa do partido. Num momento em que todos já estavam meio altos. Bem, minhas colegas levaram as mãos na cabeça. A Calie, por exemplo, adora comer patas de porco... Que diferença existe entre comer os pés de um porco ou de um homem? Quando falei isso, a Conselheira de Saúde me disse que ela prefere os caralhos... e que gosta que lhe batam com o caralho na cara antes de metê-lo na boca.

Falei para ela que esse é o problema do PAP, que transmitimos aos espanhóis a imagem de um partido defasado e ancorado no passado. Eu também gosto que me fodam a faringe, como todos, mas eu quero algo mais! As pessoas esperam algo mais de nós.

Temos que oferecer algo mais aos cidadãos... alternativas que os façam evoluírem e serem mais felizes. O realmente novo, e que poderia atrair votos dos socialistas aborrecidos... - a isso dedico um capítulo inteiro do meu livro - é que, por exemplo, o que eu mais gosto quando estou com um caralho na boca... eu gosto que enfiem o dedão do pé na minha vagina... ou melhor, os dois dedões do pé na vagina, ou um na vagina e o outro no cu. E concretamente, quando estou bem lubrificada, o que eu gosto... e proponho aos cidadãos que experimentem em suas casas... porque não há nada mais democrático que o prazer...

O que eu gosto é me abaixar e começar a comê-lo dos pés ao tornozelo. Bem, uma das minhas fantasias é comer um homem inteiro, começando pelos pés. Já tentei... já consegui meter um pé inteiro na boca até o tamanho 45...

Que tal? Já tenho o título do meu livro!

"Uma porca no PAP"

Tem apelo comercial, não acha? Pode me acusar de qualquer coisa, menos de autocomplacente. Antes de me deitar, faço um pouquinho de autocrítica e já posso dormir tranquila. Acontece que ultimamente não tenho dormido bem.

Às vezes penso que pode ser a cocaína. Mas não tenho nenhum problema em parar. Eu tenho controle. Que você acha da Pina? Não é bonita para ser modelo... Boazuda... mas vê, ficar à espera de um homem dia e noite... isso é puro século XIX.

Quando meu marido me deixou, há alguns dias... enquanto ele fechava a porta eu gritava bem alto, para que ele pudesse ouvir. "Que venha o próximo!"

Saí para a rua e ele estava me esperando, o próximo.

Mas tive uma desilusão muito grande. Silvio te contará. Quer que te conte?

- Olá.

- Olá.

- Quem é você?

- Maribel, e você?

- Chon...

- Viu que eu caí no sono, Chon?

- Como um tronco.

- Tive um sonho.

- Sim? E o que sonhou?

- Acho que era um sonho erótico.

- Que maravilha... e o que acontecia?

- Não lembro bem, mas acho que tinha a ver com os dedos dos pés de um homem...

- Com os dedões?

- Sim.

Eu começava a comê-los e acabava comendo o homem inteiro. Que coisa não?

Mas acho que a antropofagia te fez muito bem. Está radiante! Apesar da aparência..."


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Com dificuldades para entrar no ritmo do Carnaval II

O rufar dos tambores me chama, mas ele não pertence à bateria que se aproxima. Seu som vem de longe, é difícil entendê-lo, mas mesmo assim é mais forte do que a fantasia de uma noite feliz ao lado de uma criatura tão bela quanto vazia, que ao me ver beija minha boca e sorri. Estranho sentimento me apodera em uma noite tão linda e estrelada. Desconexo, penso que em poucos dias estarei na África, na sua força animal, entendo o por quê, mas não ouso contar nem para mim mesmo. Decidido a ser feliz, mudo o caminho, paro por aqui, e saio para tomar um chopp gelado com os amigos no Jobi.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Exposição das Obras de Tarsila do Amaral no Centro Cultural Banco do Brasil

Visitei hoje a exposição de Tarsila do Amaral no Centro Cultural Banco do Brasil. A mostra conta com 82 obras constituídas por pinturas, esculturas e desenhos, e exibe também objetos pessoais como a estola, bengala, pinceis, palheta de tintas, cartas, e inclusive o diário de Tarsila. Aprendi muito e passei a admirar ainda mais essa grande mulher que encantou o mundo todo e que teve um papel importantíssimo no modernismo. Ela era um gênio, dominando perfeitamente a pintura e o desenho figurativo, e de uma criatividade sem limites para a época. A qualidade de seus trabalhos é tanta, que de forma alguma envelheceram ou se tornaram comuns. Vale uma viagem ao Rio somente para ver essa exposição que encerrará em 29 de fevereiro.
O filme abaixo mostra várias pinturas que estão expostas. No entanto, o Abaporu e a Negra não estão presentes nessa exposição, embora estejam expostos estudos que levaram a essas obras, e a tela Antropofagia compense qualquer falta. Essa foi a primeira exposição com os trabalhos de Tarsila no Rio em 40 anos. Meus parabéns para o CCBB.

‎"Tarsila ,
nome Brasil, musa
radiante
que não queima, dália
sobrevivente
no jardim desfolhado, mas
constante
em serena presença
nacional fixada com
doçura,
Tarsila amora amorável
d’amaral
prazer dos olhos meus
onde te encontres
azul e rosa e verde para
sempre"

Trechos de BRASIL/TARSILA de Carlos
Drummond de Andrade

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Woody Allen La Musique de Manhatan a Midnight in Paris

Maravilhosa essa coletânea que é uma síntese do melhor do Jazz e ainda conta com duas árias interpretadas por Enrico Caruso. Imperdível.


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Monica Barki - Arquivo Sensível

Monica Barki, cuja exposição visitei sexta-feira no Museu da Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, não me sai da cabeça. O que ela faz com óleo, acrílico, litografia e lápis é inacreditável. Suas colagens, montagens e fotos de performances também são incríveis. Adorei a série que ela fez sobre a Estética You Tube, cujos trabalhos feitos a lápis são baseadas em imagens capturadas da internet que, através do seu traço preciso e do seu olhar sensível, perdem a vulgaridade e transformam-se em belas e interessantes obras de arte. Talentosíssima essa carioca. Fiquei pasmo. Hoje comprei na Livraria da Travessa o Livro "MONICA BARKI" que nada mais é do que o catálogo completo da sua exposição Arquivo Sensível.

Veja também a postagem do dia 10.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Policiais e Bombeiros, uma nova realidade em construção

Uma vergonha a prisão dos policiais e bombeiros que estão finalmente entendendo que a sua própria e segurança e bem-estar valem tanto quanto a dos patrões. Inaceitável o governo do RJ oferecer um aumento para o outro ano, enquanto os policiais e bombeiros enfrentam diariamente o perigo e a violência com salários e benefícios tão exíguos, e com pouquíssima segurança. Além de um melhor salário, me parece extremamente justa a reivindicação dos policiais de que seus salários não sejam reduzidos em 1/3 quando são feridos ou baleados, pois é justamente nesse momento que seus gastos aumentam com remédios e atendimento médico. Questiono se quando se tem um governo intolerante, cujo governador não quer sequer escutá-los, um país em que os deputados e senadores dão o seu próprio aumento, e vereadores que recebem muito para pouco fazer, se parar não é o único remédio dos trabalhadores que arriscam a própria pele, como é o caso dos policiais e bombeiros, ainda que através de uma greve ilegal? Vergonha maior é nesse momento os Deputados e Ministros receberem um aumento de 149%. É triste, mas está na hora da polícia e dos bombeiros aprenderem a dizer não, de contestarem leis feitas e aplicadas por funcionários públicos que sequer nos seus gabinetes aparecem, que estão sempre em férias ou recessos, e vivem em uma realidade totalmente distante da do povo. Sem essa pressão, eles jamais terão um salário digno. Isso lembrou-me uns versos do Vinícius de Moraes:

"E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!"



Segue o poema na íntegra:

VINÍCIUS DE MORAES
Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma subita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua propria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele nao cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edificio em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que nao dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução
Como era de se esperar
As bocas da delação
Comecaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.
Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edificio em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Nao vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martirios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construido
O operário em construção

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Três exposições sensacionais no Museu da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro

O Museu da Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro está com três exposições imperdíveis. A grande atração é sem dúvida a que retrata a vida de Modigliani (Modigliani Imagens de Uma Vida), com pinturas, desenhos, esculturas, documentos e trabalhos de outros artistas por ele influenciados. A exposição foi organizada pelo “Institut Archives Legalés Paris-Roma”, e também explora muito bem o lado histórico da vida desse artista que criou um estilo novo, adorava noitadas e viveu paixões intensas. Termina em 15 de abril.


Na Escola Nacional também pude visitar a exposição Monica Barki – Caminho Sensível, com trabalhos realizados nos últimos 30 anos por essa talentosíssima artista carioca, cujos desenhos com lápis (as texturas são maravilhosas) e as pinturas são maravilhosas. A retrospectiva conta com desenhos, pinturas, colagens, esculturas, gravuras, instalações, fotografias e vídeos. Sensacional.




Imperdível também visitar a sala com a exposição dos trabalhos do Claudio Valério Monteiro.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Silêncio

Quando uma dor é muito grande o silêncio pode ser a melhor saída, mas nem sempre seu significado é corretamente entendido. Pode ser também uma arma, uma defesa ou fraqueza, ou apenas uma solução. O silêncio tem tantas cores e matizes, e como tudo na vida pode ser compreendido de tantas maneiras equivocadas. Ele pode até mesmo ser a recuperação necessária para que depois tenhamos uma explosão e coloquemos voz ao que estava silente porém vivo, ou a trava que nos impede de ser feliz. A vida é tão complexa que jamais saberemos se nossas decisões e silêncios foram as melhores escolhas diante das infinitas possibilidades, mas temos que aceitá-las e não lamentar termos tomados outros caminhos se já for tarde demais.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Chico Buarque no Vivo Rio

O show do Chico no Vivo Rio na noite de ontem foi um momento de raro encantamento. Um show simples, sensível e inteligente. Suas músicas falam tanto dos sentimentos que pareciam ser cantadas com o endereço certo da maioria da platéia. Que bom ter vivido isso com amigos tão queridos.
Fiquei pensando quanto tempo é necessário depois de um grande amor para que os sentimentos sejam todos recolhidos e reste apenas a delicadeza, se isto for possível é claro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Efêmeros amores

Efêmeros são os amores unidos somente pelo embate vigoroso dos corpos. Os grandes amores são aqueles que permanecem unidos pelo raro diálogo das almas que se comunicam com tanta clareza ainda que por sussuros.

Encontrei seres