sábado, 24 de novembro de 2012

A Viúva Alegre

No dia 28 de novembro estreia na programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro a Opereta "A Viúva Alegre", de Franz Lehar
Dias 28 e 30 às 20h Dia 2 e 9 de dezembro às 17h Dias 4 e 7 de dezembro às 20h CORO E ORQUESTRA SINFÔNICA DO THEATRO MUNICIPAL Linda essa montagem do vídeo. Espero que a carioca também seja.

domingo, 18 de novembro de 2012

A morte dos que já se foram

Quando o grande amor da sua vida cometeu suicídio a dor foi imensa, mas isso lhe deu uma outra percepção sobre o assunto. Passou a entender essa ação desesperada, não apenas como o fim de algo que se tornou insuportável, mas também como algo agressivo e extremamente egoísta. Lhe machucou mais ainda ter visto que o suicídio foi lento, demorou para matar, levou ambos a uma agonia, cuja dor foi sentida por muito tempo depois de tudo o que passou. Isso o levou a considerar que até para se matar é preciso pensar nos outros. Essa decisão somente deve ser tomada quando a dor for imensa, e não houver mais nenhuma esperança, algo como uma auto-eutanásia, pois por mais dura que seja a realidade, a vida sempre pode nos propiciar momentos especiais, ainda que mais raros com o passar dos anos, e com a perda dos amigos, familiares e conhecidos. Pensou também que o suicídio deve ser o menos traumático para os que ficam, limpo, rápido, e indolor. Ele entendeu que quando alguém anuncia que quer se matar, não é alarme falso, é um primeiro aviso, e que quando a pessoa decide, não há quem lhe impeça, nem remédios, nem clínicas ou promessas. E foi bem no meio do vendaval pós suicídio, que sua querida tia avó lhe telefonou, dizendo que não queria mais viver, que a viuvez era péssima, que sentia-se sozinha, abandonada, em um tédio terminal, e que enfim estava decidida. Que ela já havia partido, só faltava morrer. Ele lhe perguntou se ela estava falando sério, e ela lhe disse que sim, que não sabia como fazer, e lhe pediu ajuda. Ele recomendou que ela procurasse uma terapia, tomasse um antidepressivo, chamasse os amigos, visitasse a família, fizesse uma viagem de excursão para Pousada do Rio Quente, explicou-lhe que a vida pode ser maravilhosa, mas ela lhe expôs com clareza que já não queria viver, suportara por anos um doloroso câncer, estava velha, solitária, esquecida pela vida, e que queria juntar-se ao seu falecido e adorado marido, com o qual ela sempre fora muito “garrada”. Vendo que ela iria se jogar em frente a um carro, causar um acidente, e possivelmente encrencar ou ferir um inocente, ou cortar os pulsos, sujando todo o quarto e o banheiro, e sempre com o risco de alguém ser acusado de assassinato, ou pior ainda, se jogar da janela do terceiro andar e se quebrar inteira, ele passou por cima dos seus preceitos católicos e decidiu ajudá-la. E foi com um pouquinho de dor no coração, e um grande sadismo, que ele lhe ensinou: - Avise a todos que vai fazer uma viagem no feriadão, que irá ao encontro dos 55 anos de formatura das filhas de Maria no Santuário de Caravaggio. Antes disso, junte por dias todos os comprimidos para dormir, tranqüilizantes, anti-alérgicos, anti-gripais, remédios para a febre (excelentes), remédios para a dor, esmague todos eles até obter um pó homogêneo e os dilua em um copo de Whisky, sem gelo de preferência, porque o álcool potencializará o efeito de tudo. Quanto mais Whisky melhor. Muito importante que isso somente seja feito após um dia inteiro de jejum, pois além de ajudar na absorção química, lhe deixar mais fraca, baixar sua pressão, e propiciar a hipoglicemia que lhe conduzirá a morte, pode ser que agrade à Deus e você escape do purgatório. Não se esqueça de deixar um bilhete de despedida, isso evitará um complicado inquérito policial para seus familiares. Também não atenda ao telefone, e tranque bem a porta para não dar chance de ser encontrada por alguém. Se lhe encontrarem, lhe farão uma dolorosa lavagem estomacal, e o que é pior, pode ser que acabe ficando em coma por anos. Passados um mês, ela havia catado os remédios, avisou a empregada e sua nora que iria viajar, comprou um Whisky, colocou uma foto do falecido ao lado da cama, e passou a executar seu plano. Deixou um curto bilhete de despedida, em que se lia: "Minha morte é minha herança.". Para dar um toque poético, ao terminar de preparar seu último coquetel, botou um antigo disco de Gardel, em que ele cantava “El día que me quieras”. Após 15 minutos, ela começou a ficar nauseada, tonta, enjoada, louca para vomitar, seu coração passou a bater estranho, o sono veio bem forte, ela entrou em confusão, começou a sonhar, e até mesmo a ver uma luz cada vez mais forte a cegar-lhe os olhos. Ela havia conseguido, estava a chegar no paraíso, iria encontrar seu marido, até que começou a ouvir vozes de uma mulher dizendo que ela estava voltando, que passava bem, que após 15 dias de coma, seu corpo estava respondendo, e que logo ela estaria em casa. Sua tristeza foi imensa, alguém a havia achado antes do final, ela só não entendeu como. Havia planejado tudo tão bem. O que ela não imaginava é que sua nora decidira aproveitar a viagem da velha para buscar umas caixas que estavam guardadas em sua casa provisoriamente, e a encontrara poucas horas depois. A família, assustada, lhe mandou para terapia, lhe visitou algumas vezes no primeiro mês, e logo sumiu. Três meses depois, ela escorregou no porcelanato do banheiro, quebrou o fêmur, que não solidificou de modo algum e inflamou, levando-a a amputar a perna. Para culminar, um ano depois teve um derrame que a deixou totalmente paralítica, muda e cega. Transferida para uma clínica, todos tinham certeza que ela havia demensiado para sempre, que nada entendia ou sentia. Ela, no entanto, escutava tudo , e ficava horas pensando na falta de sorte que foi a aparição da nora, aliás no azar que a nora havia sido em sua vida, e por quanto tempo teria que viver presa a um corpo que não mais a obedecia, mas que ainda tinha um coração forte. Seu filho, pensava no valor da conta mensal. Sua nora, na má ideia que foi ter buscado aquelas caixas.

sábado, 10 de novembro de 2012

O assassinato da MV

Quando percebeu, ela já estava na cozinha, rondando o bar e a geladeira. Sua primeira reação, foi de repulsa por aquele ser tão abjeto, que perambulava em permanente confusão, fazendo um barulho irritante. Ao vê-la tão frágil e indefesa, ele até ficou com pena, mas essa pena durou muito pouco, e ele decidiu matá-la. Piedoso, haveria de ser uma morte rápida. Pensou em esfacelar a criatura com uma porretada, mas, com mania de limpeza, não queria deixar vestígios sobre o chão do apartamento, ou sobre as paredes recém pintadas de branco. Resolveu, então, envenená-la, ele a intoxicaria violentamente, com uma dosagem tão alta que ela não duraria mais do que alguns poucos instantes. Encurralando–a em um canto, pegou o veneno e partiu para cima dela, sufocando-a com uma grande dosagem. Ela conseguiu chegar à sala, onde caiu sobre o chão, já com movimentos convulsivos, que a faziam girar sob seu próprio corpo, com uma rapidez incrível, e a emitir um assobio desesperado. Ao invés de pena, ele ficou com mais nojo e raiva. Que ser nojento. Até na morte, ela incomodava. Ele teria que usar suas próprias mãos para acabar com esse contratempo, e voltar a assistir ao filme que lhe esperava no quarto. Usando um pedaço de pano, ele a atacou, liquidando-a com um só golpe. Que maravilha o silêncio. Poucos segundos após, ela jazia inerte dentro da pequena lixeira. Ele pensou na razão para tanta repulsa a uma insignificante mosca varejeira, a uma forma de vida tão pequena e até mesmo inofensiva. Lembrou do corpo de uma vaca em decomposição, que vira quando menino, sendo consumido por vermes e moscas, e do mal estar que vislumbrar o que realmente ocorre depois da morte lhe causou. A mosca varejeira significava a morte, seu canto dizia que seu corpo seria consumido por vermes e moscas ao final do caminho e, pior do que isso, lembrava-lhe pessoas que giram, giram e giram, fazem muito barulho, e não pousam em lugar nenhum.

Encontrei seres