sábado, 10 de novembro de 2012

O assassinato da MV

Quando percebeu, ela já estava na cozinha, rondando o bar e a geladeira. Sua primeira reação, foi de repulsa por aquele ser tão abjeto, que perambulava em permanente confusão, fazendo um barulho irritante. Ao vê-la tão frágil e indefesa, ele até ficou com pena, mas essa pena durou muito pouco, e ele decidiu matá-la. Piedoso, haveria de ser uma morte rápida. Pensou em esfacelar a criatura com uma porretada, mas, com mania de limpeza, não queria deixar vestígios sobre o chão do apartamento, ou sobre as paredes recém pintadas de branco. Resolveu, então, envenená-la, ele a intoxicaria violentamente, com uma dosagem tão alta que ela não duraria mais do que alguns poucos instantes. Encurralando–a em um canto, pegou o veneno e partiu para cima dela, sufocando-a com uma grande dosagem. Ela conseguiu chegar à sala, onde caiu sobre o chão, já com movimentos convulsivos, que a faziam girar sob seu próprio corpo, com uma rapidez incrível, e a emitir um assobio desesperado. Ao invés de pena, ele ficou com mais nojo e raiva. Que ser nojento. Até na morte, ela incomodava. Ele teria que usar suas próprias mãos para acabar com esse contratempo, e voltar a assistir ao filme que lhe esperava no quarto. Usando um pedaço de pano, ele a atacou, liquidando-a com um só golpe. Que maravilha o silêncio. Poucos segundos após, ela jazia inerte dentro da pequena lixeira. Ele pensou na razão para tanta repulsa a uma insignificante mosca varejeira, a uma forma de vida tão pequena e até mesmo inofensiva. Lembrou do corpo de uma vaca em decomposição, que vira quando menino, sendo consumido por vermes e moscas, e do mal estar que vislumbrar o que realmente ocorre depois da morte lhe causou. A mosca varejeira significava a morte, seu canto dizia que seu corpo seria consumido por vermes e moscas ao final do caminho e, pior do que isso, lembrava-lhe pessoas que giram, giram e giram, fazem muito barulho, e não pousam em lugar nenhum.

3 comentários:

  1. é, os que nos tonteiam não são moleza...

    adorei o conto, Marcelo!

    beiojss

    ResponderExcluir
  2. Olá, Terráqueo!
    Fazia um bom tempo que não andava por aqui, não
    por opção, mas por contingências da vida, das quais não pude escapar. Adorei viajar através
    de tuas belas fotos, dos teus textos cheios de
    lembranças, de reminiscências, de muita poesia!
    Escreves de uma maneira tão simples e tão poética que sinto saudades do tempo em que eu
    sonhava!Está tão bonito o teu blog! Como escreves bem, acho que é de família, não é? Está no DNA de vocês!!!

    um grande abraço!
    beijosss

    ResponderExcluir
  3. Bípede Falante, obrigado pelo comentário, o mundo está cheio de Moscas Varejeiras mesmo. Bjs.

    Cirandeira, também tenho dado pouca atenção ao blog, e visitado pouco os outros blogs que eu gosto tanto como é o caso do teu. É uma pena, mas a vida parece que acelerou muito nesse último ano, e praticamente não tenho tempo para mim mesmo. Muito obrigado pela tua visita e pelo teu elogio carinhoso. Bj.

    ResponderExcluir

Encontrei seres