domingo, 9 de dezembro de 2012

Natal 2012

Houve uma época em que quando dezembro chegava, eu contava os dias para o Natal. Minha avó Jurema e minha mãe preparavam essa data com meses de antecedência. Um filhote de peru era escolhido a dedo e engordado especialmente para o ocasião. Mas elas eram piedosas, antes que o infeliz tivesse seu pescoço decepado pelo golpe certeiro da tia Sú, ele era embebedado com cachaça para que não ficasse com medo e contraísse os músculos. Ele deveria ser o mais macio possível, e merecia um final comemorativo também. Depois disso, a Dona Maria assava e recheava ele com um serrabulho de lamber os beiços. Naquela época não se ganhava tantos brinquedos como hoje, eram poucas as ocasiões, basicamente aniversários, Natais, e ou em acontecimentos raros, como consolo de um machucado por exemplo. Mas não era isso o que me seduzia, mas sim saber que toda a família da minha mãe estaria reunida, e que até a mãe do meu pai, Vó Margarida, viria nos visitar (ela morava longe). Os motivos religiosos também nunca me convenceram, ainda que a Vó Jurema fizesse questão de cantar Noite Feliz, de ler uma mensagem católica, e que a Vó Margarida, espírita convicta, reclamasse da nossa falta de religiosidade (uma falha que como boa sogra ela sutilmente imputava à minha mãe para o meu deleite). Eu tinha vontade de gargalhar, mas respeitosamente me continha. Teve até um ano em que fizemos um auto de natal, e eu fui o menino Jesus. No final da peça ele nascia e eu erguia uma estrela vermelha de papel laminado, muito mais para a estrela da China do que a de Belém. Era o início dos anos 70, época da ditadura, e duas pessoas se refugiavam na nossa casa, uma residência tipicamente burguesa, acima de qualquer suspeita. Ele era uma pessoa querida, ela jamais havíamos visto antes ou a vimos depois. Espero que tenha sobrevivido. Foi um Natal inesquecível e que depois, quando entendi o mundo, fez-me admirar ainda mais meus pais. Uma delicia também ver alguns familiares que não tinham sorte para ganhar presente. Ninguém acertava com eles. Devia ser castigo divino por não se importarem com o carinho de quem oferecia o regalo. Mas o tempo passou, as duas protagonistas principais saíram de cena, e eu nunca mais passei o Natal no Sul. O Natal ficou muito doloroso para mim, e por alguns anos passei no Rio, depois tive alguns “Happy X-mas” na terra do Santa Claus, ou na casa de primas queridas. No último ano, embora tenha recebido uma série de convites, fiquei em casa olhando para as minha muletas, pois havia feito uma cirúrgia que me impedia de caminhar, e preferi me restabelecer. Esse ano, vou passar novamente o Natal em Porto Alegre, na casa da minha prima, versão aprimorada da Vó Jú, que está trabalhando duro para isso. Seu marido, inclusive já fez uma árvore linda para ao ocasião. Vamos todos nos reunir novamente, motivados por uma razão muito importante, valorizar o afeto e a companhia dos que amamos. Aproveitar esse tempo precioso, lembrar como essas relações são fundamentais, dar e receber amor. Isso é o que importa. Desejo que todos, nesse dezembro, possam encontrar os que amam e aproveitar esses momentos, pois 2012 não voltará mais.

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