sábado, 4 de maio de 2013

Conto Dramático

Na faculdade de teatro, ela ficava hipnotizada quando ele ensaiava o personagem canalha e sacana de Nelson Rodrigues. Prestava atenção em seus gestos, sua voz, respiração e corpo. Com o tempo, essa admiração foi se transformando em atração descontrolada, que ela sabia não poderia ser saciada. Ela não fora privilegiada pela natureza, era atarracada, com a bunda quadrada, olhos fundos, tinha um nariz muito largo, e para piorar um enorme buço que se recusava a ir embora. Ele jamais prestara atenção nela, somente tinha olhos para a namorada, que faria com ele o papel romântico na peça que estavam a ensaiar. A menina era jeitosa, pequena, brejeira, delicada mas cheia de espinhos, parecia uma linda flor do serrado, daquelas que exalam um cheiro forte quando estão prontas para serem polinizadas. E essa indiferença tornou-se mágoa, ressentimento que explodiu quando ela viu que o trabalho de conclusão da rival estava sendo feito pelo seu “Bibelô”. Furiosa, passou a atacá-lo, a criticar sua forma de atuar, de ser, de respirar, e até mesmo deixou vazar para os colegas e para alguns professores, que ele estava a fazer o trabalho da namorada. Pasmo, ele a inquiriu, perguntou o por quê de tanta baixaria, e ela o ameaçou de assédio sexual. Disse-lhe que se machucaria e o denunciaria. Ele riu, retrucou que ninguém iria acreditar, que ela não era definitivamente seu tipo ou alguém capaz de despertar um ataque sexual. Ela respondeu que ele estava com inveja, e o Bibelô prontamente tascou: - Inveja do que? Bigode eu também tenho, só que eu raspo todo dia. Aquilo fora o fim, e ela ficou com um ódio mortal, sedenta por vingança. Poucos dias depois, ela viu quando ele colocou no escaninho do professor o trabalho de conclusão da namorada. Esperou ele sair, entrou na sala, rapidamente apanhou o material, levou-o para a rua, e o jogou no sexto de lixo. No final do mês veio o resultado, a namorada fora reprovada em “Ánalise Teatral II”, ficou impedida de se formar, porque justamente o trabalho de conclusão não fora entregue. Ela entrou com um recurso, mencionou que havia deixado no escaninho, prontificou-se a entregar uma nova via, mas a diretora da universidade foi rígida, ela teria que aguardar mais um semestre. Explosiva, a pequena flor do nordeste sacudiu seus espinhos, espalhou seus xingamentos como pétalas ao vento, e ficou muito mau vista na universidade. Garantiu a todos que se ela não se formasse, não haveria formatura, que ela iria surrar a vaca da diretora, que não lhe dera uma segunda chance. A “Bigoduda” exultou, sua vingança havia dado certo. Para salvar a formatura, ele levou um amigo, que lá estaria para diplomaticamente distrair a florzinha. O amigo era um advogado, um tipo com cara de alucinado, um almofadinha que logo chamou atenção de todos com seu terno cinza careta. Quando, 15 minutos antes da formatura, ela começou a berrar com o secretário da direção, ele a segurou por uma das mãos e pela cintura, e passou a falar em alto e bom tom que ela tinha razão, que o que estava a acontecer não era justo, mas que ela não deveria fazer nada. Que um dia ela seria famosa, teria um “teatro” com seu nome, o “Teatro Amelinha da Silva”! Que ela daria entrevistas, iria para a televisão, prestaria depoimento no “Antes da Fama”, e negaria sempre ter sido aluna daquela universidade. Que os que hoje zombavam dela, correriam pela sua ajuda, implorariam pela sua amizade. Despejou sobre a aspirante a atriz um imenso blá, blá, blá delirante. O lado histérico e megalomaníaco da atriz aflorou, ela se distraiu, foi com ele por um corredor, acalmou, e aceitou quando ele pediu que ela lhe mostrasse as instalações da faculdade, enquanto a colação ocorria. Passados alguns meses, a florzinha engravidou de outro, o Bibelô descobriu, e eles terminaram. Como ele veio com um discurso de que sempre seriam amigos, e de que ela sempre poderia contar com ele, ela lhe pediu que registrasse sua filhinha, e o ameaçou de escândalo e processo caso ele não assumisse a paternidade da pequena “Pandorinha”. Ao saber da notícia, a Bigoduda ficou tão contente, mas tão contente, que não amarrou direito o cinto de segurança que utilizava para subir nos postes de luz para consertar transformadores elétricos. Quando ela chegou no alto, o cinto se desprendeu fazendo com que ela caísse sobre dois fios de alta tensão que lhe torraram os miolos e até mesmo o bigode. Moral da história: É sempre possível que as coisas não saiam como gostaríamos, e nada é para sempre, nem mesmo um bigode indesejado. Essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas, fatos, nomes ou histórias reais, terá sido mera coincidência.

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